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Si hay gobierno… – a missão

Sim, soy contra. O governo me dá nos nervos. E não é por motivos ideológicos. É que essa gangue de mulocratas (burrocratas que empacam) já estão pisando demais nos meus calcanhares. Hoje, por exemplo, gastei um bom tempo com um fiscal da prefeitura, que veio até aqui dizer que o “parecer foi favorável”. Ele se referia a um trecho de 3m2 do qual supostamente teríamos nos apropriado e que, graças à boa vontade do governo do PT de Goiânia (para onde me “exilei”), poderíamos adquiri-lo em prestações absurdas. Ou seja, o município era favorável a que comprássemos os “5m2” de terreno público usurpado do povo. “5m2“?! Parecer favorável a eles, eu disse. Coisa mais ridícula, seo. Veja o desenho que fiz às pressas.

A é minha casa. B é a do vizinho. C é a calçada. O número 1 (dentro do círculo) é o portão da casa. O 2 é a entrada da garagem. O triângulo diante do 1 é aberto pra calçada, contendo somente uma laje para proteger quem porventura venha tocar a campainha. Tenho duas irmãs arquitetas e o cálculo foi claro: a área do triângulo é de apenas 3m2. Como se vê pelo desenho, o portão é recuado, logo, não sei qual área pública é essa, uma vez que a calçada está dentro das medidas regulamentares. Eu disse ao fiscal: o governo é quem deveria nos pagar, já que os alunos do Colégio ao lado estão sempre se escondendo da chuva nesse canto. Aliás, estamos cansados de ver gente se escondendo da chuva ou do sol sob essa laje e jamais nos incomodamos com isso. E as provas estão lá: mil e um rabiscos a lápis, caneta, spray, estilete e o escambau, pois todos sabemos que os estudantes são muito educados e respeitam a propriedade alheia tanto quanto não batem punheta em seus quartos. E, mesmo assim, nunca reclamamos com a direção do colégio. (A essa altura, eu já estava extremamente loquaz e o fiscal já estava em minha sala de visitas com um copo d’água à mão. Sempre acho que essa gente que bate à porta está com sede.) Bom, prossegui, o que você está vendo aí fora é como um desses abrigos de ponto de ônibus. A diferença é que quem gastou dinheiro com ele fomos nós e não o município. (Esqueci de dizer que a proposta do governo é a seguinte: ou pagamos a grana que eles querem nos extorquir, ou teremos de demolir a laje. Isso mesmo, demolir a laje que protege os coitados dos transeuntes, dos carteiros, vendedores de gás, mendigos e fiscais da prefeitura. O raciocínio deve ser esse: si hay iniciativa individual, soy contra.)

Claro que falei mal do prefeito Pedro Wilson, que foi meu professor de sociologia no horrível curso de Jornalismo, e que me deixou como única lembrança acadêmica a tarefa que nos deu, certa feita, de ir até uns bairros distantes com um questionário pré-definido – droga, eu queria formular minhas próprias perguntas! – o qual não era senão, descobri pouco depois da aula, uma pesquisa para direcionamento de sua campanha política. Fiquei p da vida e, de vingança (eu era um escorpiano de 19 anos), cheguei em casa e inventei todas as respostas. Inventei analfabetos, aposentados desdentados, retirantes da seca desempregados, donas de casa sem paciência, caipiras espertos, mocinhas com fogo no rabo e assim por diante. No dia em que ele foi falar sobre os resultados fui o único a ser elogiado. Só voltei a encontrar o já Deputado federal Pedro, anos depois (1998), no Teatro Nacional de Brasília, ocasião em que comprou um exemplar do meu primeiro livro publicado. Nunca me esquecerei de sua carteira abarrotada de notas de 50 reais, sem que pudesse encontrar os quinze reais que eu pedia pelo livro. (Ele sempre foi super simpático, gente boa como todo político deve ser, mas… pelo amor de Deus, não aprendi nada que valesse a pena em suas aulas!)

Depois disso, fui mostrar pro fiscal que nossa casa, vista de fora, parece um palácio, mas por dentro, por trás e pelos lados é como uma casa após uma revolução: suja, bagunçada e em ininterrupta reforma. Até a piscina, quando este operário que vos fala não está, é um nojo. Aí expliquei que meu pai trabalhou trinta anos na VASP do Rio e de São Paulo – onde nascemos eu e minhas irmãs – para depois se aposentar e fugir da violência e do caos urbano paulista para este bairro que, há 15 anos atrás, era um mato só, longe do resto do mundo e, portanto, desvalorizado. Uma casa grande aqui era centenas de vezes mais barata que uma casa geminada de Moema(bairro de SP). Meu pai comprou, então, a casa financiada em 10 anos, semipronta, e mergulhamos numa vida de eterno cimento, azulejos, tijolos, tintas e tais, porque a grana nunca deu pra resolver as coisas de uma vez. (Graças a isso, o carro mais novo do meu pai é uma Caravan 83. Rimou!) E, agora que construíram um parque, um shopping center, dois colégios, vários bares e semelhantes, tudo em torno dessa casa, veio uma supervalorização e a prefeitura vem fazer luta de classes achando que somos megaempresários ladrões de terra pública. Os caras não tem mais de onde tirar dinheiro pra pagar os mil e um funcionários picaretas e a maledeta campanha do PT, e vêm infernizar a gente. A última vez que isso tinha acontecido comigo, contei pra ele, foi em São Paulo, com a máfia dos vereadores e fiscais. Tínhamos – eu e os fotógrafos Dante Cruz, Fábio Correa e Christian Sievers – acabado de inaugurar um estúdio do caralho na Vila Olympia [1] (o “Vale do Silício” paulistano), e apareceu um fiscal que nos tascou uma multa de trinta mil reais pela reforma! Claro, como ele era bonzinho podia deixar por apenas oito mil reais… Qualquer um sabe que entre os sócios de uma empresa tudo está bem quando há dinheiro no caixa. Mas com essa história tudo começou a degringolar até perdermos, meses depois, o estúdio. Foi assim que eu fui parar na casa da Hilda Hilst [2]: com um teclado na frente e um monitor atrás. O governo e seus chacais, meu amigo, têm muita fome.

Aí, conversa vai, conversa vem, descobri que há uma lei que diz que terras públicas invadidas passam a ser, após cinco anos e meio, e caso sejam para uso residencial, propriedade do invasor. Isto até um limite de 250m2! Então por que diabos essa obsessão com os 3m2 sob a laje da entrada? Ele riu e me deu, virtualmente, ganho de causa. Disse que com minha lábia posso entrar com um processo e acabar com a história. Gostou da minha maneira de não levar o fato pro lado pessoal. Ele sempre tinha que pedir paciência a Deus pra resistir às reações furiosas das vítimas que fazia pro governo. E contou sobre a figura que tinha acabado de autuar: ela se virou, assinou o auto de infração, adulterou o que ele havia escrito e lhe devolveu as demais vias. Quando ela viu que ele percebera a maracutaia, meteu a via que tinha nas mãos dentro do sutiã e berrou: “vem tirar se você for homem!” Como ele não tinha nenhuma dúvida quanto à própria sexualidade, virou-se e se mandou. Bom, enfim: o cara foi embora pra aula de direito dele – não sem antes me recomendar o filme “12 homens e uma sentença” e, claro, levar o endereço do meu site. Era um fiscal super gente boa de quem me despedi assim: “só não digo que foi um prazer sua visita devido a suas motivações…”

E você tá achando que isso é tudo, mano? Nada disso. Por que é que o governo é muito rápido ao descontar impostos na fonte mas não proíbe, na “fonte”, aos cartões de crédito de cobrarem juros tão elevados da minha irmã e do meu pai, entre outros milhares de brasileiros? O juro deles é de 15% ao mês, sendo que a lei só permite 12% ao ano! E a dívida lá, se arrastando feito um crocodilo do Nilo. Isto é agiotagem!! Só um alienado não percebe isso. E os caras do governo só fingem agir quando acionamos o Procon. Fingem porque recalculam a dívida certinho mas a justiça não aprova! Isto é esquizofrenia do poder público!!! Não fiscalizam essas empresas safadas. A gente tem de ir até os burocratas preencher mil papéis e nadica de nada.

E essa porra de conexão ADSL então? Somos obrigados a pagar, no meu caso, a Brasil Telecom e uma provedora de acesso, sendo que a provedora não é necessária, bastaria a primeira para efetuar a conexão. O atendente da BT me disse que as provedoras foram à Anatel exigir que sejam elas necessárias às conexões. Tem processo movido por consumidores em São Paulo contra isso. Claro, eu sei por que, eu fiz a campanha publicitária do Procon do DF: vender um serviço (conexão) condicionado a outro (conteúdo das provedoras) é venda casada, é crime. E o pior de tudo: essa noite deu pau na minha conexão Terra e liguei pros caras. Disseram que eu deveria modificar minha assinatura para uma outra que oferece suporte técnico ou pagar mais sete reais por consulta!! Que filhos da… Será que eles não entendem que minha conexão só dá pau porque eles estão aí no meio? Largamos a UOL porque nunca funcionava e agora isso. Ô Estado!! Ô governo!! Ô bando de sangue-sugas!! Pára de ficar de olho no lucro das empresas, no dinheiro das pessoas e vá fiscalizar o que deve ser fiscalizado! Olhe o que as empresas fazem e não o que elas ganham! O que elas ganham pode trazer mais empregos, mas o que elas fazem pode ser injusto. Tanta sacanagem rolando por aí e os caram vêm querer cobrar um metro quadrado altíssimo, tudo graças a uma laje que ao invés de prejudicar só beneficia quem passa na rua! Como já dizia o outro: ao vencedor as batatas!!!

[Ouvindo: Revolution 909 – Daftpunk]

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