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Não sei se é poema

Eu estou sempre dizendo que sou um péssimo poeta e não é para bancar o humilde. É porque, na minha opinião, sou ruim mesmo. Mas me é sempre inevitável pagar “micos poéticos”. Encontrei o “poema” abaixo – talvez apenas uma letra sem melodia de uma banda que nunca existiu (Os Toalhas) – naquele meu arquivo que recuperei aqui em São Paulo, espalhado em duas caixas de papelão. É de 1994 e foi escrito em Brasília, numa provável noite de vácuo interior…

O sol na luz da planta
A navegação pelo espaço
Sob a porta que corre rugindo na escuridão da noite.

O cão ladrando na distância
– mais perdido que o vento
mais próximo que os carros –
E o gato sob a janela.

As cores, a graça
A descarga do vizinho
As portas batendo
(Não sou o único desperto a estas horas?)
Grilos.

Tensão, raiva
Decepção pela noite.
Tédio esta tarde
Apesar de saber o que fazer.
A necessidade de ações
Contrastando com o marasmo e a inércia.
E eu sei.

Como movimentar a vontade?

Isso!
Preciso girar
Já não irei pirar
Só há o risco de morrer… cedo demais.
Mas eu sei que não se morre
E que não há cedo.

A mulher e sua orquídea

Preciso dela.
Eu a amo.

O eterno retorno
Preciso livrar-me dele.

Seguirei o fio da navalha
O jato de urina do louco
O caminho do meio.

Assumir o dharma.
Assumir e criar.

As mariposas sempre me incomodam
A luz sempre as atrai.
Tenho o eterno receio
De que caiam sobre mim.
Não me lembro
Se tal já ocorreu…

A cama suja e bagunçada.
O sutiã dentro da fronha
Ainda guarda resquícios do cheiro dela
E isto me faz sonhá-la.
Eu a sonho linda
Eu a amo sonhando.
Ontem, no meu sonho
Dormimos na mesma cama.
Acordei de madrugada
E encontrei sua ausência.
Fiquei triste.
Houve época em que vivíamos
Como casados.
Tínhamos uma cama de solteiro de casal…

O vizinho chega com o barulho de sempre.
Eu tento sentir-me eterno
E o tempo dos iludidos passa.
Penso no maldito dinheiro
Que não tenho.
Pensamento sem objeto real…

Lembro da última experiência com a loucura
E da luz.
Um santo eu fui.
Podia sair descalço
Mas escolhi o centro
Minha própria natureza.
Conversei com demônios
Com Blake, Nietzsche, Henry Miller
Rambo, algumas fadas
E o Perna-longa.
Reunímo-nos num pequeno quarto.
Não os vi
Mas os vi.

Há pessoas esperando e acreditando
Mas ninguém acredita mais do que eu
E não há quem esteja mais cansado do que eu estou –
Cansado de esperar.

Fim da espera: encerra-se o conflito!
Explodam mundos
Comprimam-se úteros
Morram vítimas
Queimem o rebanho
Salvem a natureza
Para seguir vitimando-a
Bebam até rastejar
Cuspam até secar
Trepem até desmaiar
E procriem até não haver um metro quadrado
Sem um boi-humano.
Não estou nem aí
Porque estou em todos os lugares
E em nenhum
Porque posso criar
Porque sou um merda entre merdas
Um homem entre homens
Um bunda entre bundas
Um cretino entre cretinos
Um santo dos Santos
Demasiada e ricamente humano
E quero tão somente Ser.
E os cães cachorram
Os grilos grilam
A noite noita
E eu não sei o que faço…

(Brasília, CO-UnB, Março/1994.)

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