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E João entrou no armário…

João fechou os olhos e decidiu. Levantou-se da cama com cuidado e caminhou até o armário. Abriu a porta, examinou um pouco o interior no escuro e entrou. Era quase de manhã. Antonieta chegou a acordar com um ruído. Viu o marido andando e voltou a dormir.

“Ai, meu Deus!!!!”, disse Antonieta ao abrir a porta do armário. “Quer me matar de susto!!! Pensei que fosse um rato.”

“Tá maluca, mulher. E eu lá tenho cara de rato?”

“Sei lá. Só vi algo se mexendo entre as roupas… Mas Jo-ão (ela sempre pronunciava o nome do marido assim, pausadamente), o que você tá fazendo aí??”

“Resolvi entrar. Não sei, me enchi do que tem aí fora.”

“E vai ficar aí dentro pra sempre?”

“Vou.”

Naquela madrugada, João passou o tempo todo acordado. Ouvia a respiração forte da mulher enquanto pensava. Repassou boa parte da vida. Ou pelo menos do que conseguiu se lembrar. A infância na praça ao lado de casa, o colégio de padres (“Não sei como padre acredita em Deus, nunca sorri.”), a Lilinha (sua primeira namoradinha), a Paulete (“Bela iniciação!”), o emprego de office-boy, o vestibular, a faculdade noturna, a Juliana (“Ah, a Juliana”), a formatura, o Dogde Dart, o escritório de advogacia, o casamento, a Mariana (“Saiu a cara do pai.”), até que chegou àquela madrugada, ali na cama, os olhos abertos sem saber para onde olhar.

E João olhou o escuro. Passou os olhos por todo o quarto até que os fixou no brilho que vinha da porta do armário grande. Um brilho fraco, apenas um reflexo, mas o único que havia ali.

“Posso abrir?”, disse Antonieta ao bater na porta.

“Abre logo, Antonieta. Pra que isso?”

“Sei lá, nunca conversei com alguém que fica dentro de um armário… Ainda não desistiu, é? O pessoal do escritório ligou de novo. Eu disse que sua mãe tinha morrido e…”

“O quê? Você matou mamãe?”

“Foi o que me veio à cabeça, ora, não podia só dizer: olha, meu bem, meu marido enlouqueceu e entrou no armário.” (“E a morte de mocréia não seria má idéia”, pensou Antonieta).

“O que eu vou dizer pra ela agora?”

“Nada, vocês quase não se falam mesmo… Jo-ão, sai daí, homem!”

“Não saio, não quero mais saber daí, esse mundo esquisito. Prefiro ficar aqui, é quente, tranqüilo e eu paguei muito caro por esse armário.”

“E daí, eu paguei muito caro por aquela bolsa Louis Vuitton e não tentei me enfiar nela.”

E foi assim durante muitos dias. João deixava seu armário apenas para ir ao banheiro. Tomava banho, se barbeava, agia naturalmente, como se fosse um dia de trabalho. Mas, em vez de terno e gravata, vestia o pijama e estava lá, de volta ao armário.

Antonieta passou a cuidar do marido como se faz com uma criança ou com uma pessoa doente (“Ele está mesmo doente”, pensava). Trazia as refeições, o jornal, livros, revistas. Todos os dias ela tentava convencê-lo a sair dali, sem sucesso.

“Oi”, disse Antonieta ao abrir a porta do armário. “A Clara ligou.”

João lia o jornal, com a ajuda de uma lanterna enorme, dessas que se costuma levar em viagens para pescarias. Já tinha feito várias adaptações no interior do armário, que tinha até um aparelho de som e uma TV, daqueles portáteis. O próximo passo de João seria a cafeteira, planejava.

“É? O que ela disse?”

“Jo-ão… você virou gay?”

João apertou o jornal, tirou os óculos e esbravejou: “Quê, tá louca, Antonieta? Eu, gay!!! De onde você tirou isso? E a noite de ontem? Não conta?”

“É, foi bom”, disse Antonieta, esboçando um sorriso. “Nunca pensei que desse pra fazer assim, num armário… As roupas atrapalham um pouco…”

“E os 18 anos de casamento não contam? Isso nunca foi problema.”

“É que, sabe, a Clara… a Clara disse que aprendeu uma expressão nova nas aulas de inglês que resolveu freqüentar.”

“Como se aquilo pudesse falar inglês. E o que eu tenho a ver com isso, Antonieta? Tô aqui, quieto, num mundo que é só meu, individual. Eu mando e desmando aqui dentro desse armário e…”

“Alt ov de clôset.”

“Como é que é?”

“Alt ov de clôset. Fora do armário, sair do armário, a Clara disse. Fulano is alt ov de clôset, saiu do armário, virou gay!!!! A Clara disse que isso significa que o cara assumiu.”

“Mas eu tô dentro do armário, dentro do armário, mulher!!!”

“Mas e se você resolver sair? Sair do armário.”

“É isso que você quer? Que eu saia do armário? Pois bem, sai pra lá que eu vou sair do armário, literalmente, sai daí, afasta, xô…”

Antonieta bateu a porta na cara do marido e a fechou com a chave. Arrastou uma velha cômoda de madeira maciça e a colocou na frente da porta. Pôs também a cama ali para impedir que João pudesse abrir a porta. E desceu até o quartinho de quinquilharias nos fundos da casa para buscar a caixa de ferramentas. Procurava também um cadeado.

“Homem meu não sai do armário…”

[Ao som de: Lena in Hollywood, de Lena Horne (1996; EMI Records)]

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