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LavourArcaica

Neste final de semana que passou, revi o filme LavourArcaica [1], de Luiz Fernando Carvalho [2]. Chego à conclusão de que se trata de um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Em primeiro lugar, importante ressaltar, é um raríssimo exemplo de roteiro adaptado de peça literária em que o filme está à altura do livro que o originou. E de que altura estamos falando! Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar [3] é, sem dúvida, um dos maiores livros brasileiros de todos os tempos. A ousadia de adaptá-lo demonstra a coragem do cineasta. O mestre Hitchcock [4], por exemplo, que não era bobo nem nada, disse a François Truffaut [4] que era uma loucura tentar trazer para a tela grandes romances. “Essas histórias já encontraram sua melhor forma na literatura. O filme estará sempre abaixo”, diz ele. (Truffaut achava que Alfred deveria filmar Crime e Castigo por considerá-lo uma típica trama hitchockiana).

Em segundo lugar, LavourArcaica é cinema do melhor quilate porque não se impõe os limites daquilo que se diz que deve ser o cinema – reino da imagem, histórias contadas por meio de imagens -, e bebe sem medo da fonte do teatro, sem preocupações realistas ou naturalistas. E, assim como o livro, toca fundo e emociona. É praticamente uma ópera, como o próprio Luiz Fernando Carvalho o define no making of que acompanha o excelente DVD lançado há pouco tempo.

É um filme que faz jus à tradição do melhor cinema brasileiro, sobretudo quando se fala em linguagem inovadora e numa estética pouco preocupada com o convencional. Aliás, o clima e a sensação de bolha, a ação suspensa no espaço e no tempo desse LavourArcaica, me lembram muito Terra em Transe [5].

Não há como não se sentir profundamente mexido pela dimensão quase mitológica dessa família, dessa fazenda, desse irmão desgarrado que é André e por sua brutal solidão em sua paixão pela própria irmã.

Por fim, LavourArcaica é uma aula de cinema – na fotografia impecável de Walter Carvalho [6] e, sobretudo, na direção de Luiz Fernando, que levou toda a equipe a um profundo processo de imersão na realidade fictícia dessa família de imigrantes libaneses. Mudaram-se todos durante meses para a locação, uma antiga fazenda cafeeira em Minas, e assumiram verdadeiramente os papéis. Selton Mello, Leonardo Medeiros, Raul Cortez e Simone Spoladore se levantavam todos os dias às quatro da manhã para ordenhar, cuidar de galinhas e da lavoura. Eles viviam cotidianamente seus personagens, mesmo fora do set. É isso que garante a impressionante verdade de suas atuações, ainda que não tenham nada de naturalistas.

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#1 Comment By daniel christino On 31/01/2006 @ 11:05 am

Quando eu vi o filme no cinema, a cena do queijo ariche secando me emocionou bastante. Lembrei-me da minha avó Hilda e do meu avô, que conheci apenas por fotos e histórias, Gibrin. A lavoura é arcaica porque me dispara um certo tremor genético. O tempo cristalizado na cultura e no corpo. Em outras palavras, meu nariz continua sempre na minha frente.

#2 Pingback By O Garganta de Fogo » O Genial Bennio On 10/02/2006 @ 6:54 pm

[…] Para mim, outro dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos é quase que absolutamente desconhecido (outro dos melhores porque há alguns dias fiz um post dizendo que LavourArcaica era um dos melhores filmes nacionais já feitos). Trata-se de O Diabo Mora no Sangue, realizado em 1967. É essencialmente um filme do genial cineasta mineiro-goiano João Bennio, pai de seu roteiro, produtor e também ator principal. Digo essencialmente porque, por motivos que desconheço, Bennio à época convidou Cecil Thiré para dirigir o filme, também estrelado por Ana Maria Magalhães. […]