06/03/2006

Política, Moralidade e Roberto Romano

daniel christino, 3:49 am
Filed under: especulativas,Imprensa,Política

Li a entrevista do Roberto Romano na edição impressa da revista Primeira Leitura e, a certa altura, ele comenta sobre a interpretação que o Padre Lima Vaz faz da recepção romana do termo ethos. Gosto imensamente de Lima Vaz. Seu livro Antropologia Filosófica (a primeira disciplina filosófica que ensinei na vida) é um dos meus favoritos. Romano indica justamente sua filiação hegeliana como uma distorção interpretativa do termo ética, obrigando o jesuíta a separá-la do termo moral. O trecho está em vários livros, mas principalmente em Escritos de Filosofia II – Ética e Cultura:

A primeira acepção de ethos (com eta inicial) designa a morada do homem (e do animal em geral). O ethos é a casa do homem. O homem habita sobre a terra acolhendo-se ao recesso seguro do ethos. (…)

(…) É, pois, no espaço do ethos que o logos torna-se compreensão e expressão do ser do homem como exigência radical do dever-ser ou do bem. Assim, na aurora da filosofia grega, Heráclito entendeu o ethos na sua sentença célebre ethos anthrôpo daímôn. O ethos é, na concepção heraclítica, regido pelo logos e é nessa obediência ao logos que se dão os primeiros passos em direção à Ética como saber racional do ethos.


Esta é a primeira acepção: a ética como modo de ser no mundo, ou como habitar. A segunda é mais prosaica e aponta na direção do hábito, dos costumes, no sentido aristotélico do termo.

A segunda acepção de ethos (com épsilon inicial) diz respeito ao comportamento que resulta de um constante repetir-se dos mesmos atos. É, portanto, o que ocorre freqüentemente ou quase sempre (pollákis) mas não sempre (aeí), nem em virtude de uma necessidade natural.

A terceira acepção não está diretamente ligada ao termo ética, mas também seguindo uma pista aristotélica, concentra-se no caráter, cuja formação nada mais é do que a internalização das duas acepções anteriores.

Mas, se o ethos (com épsilon inicial) designa o processo genético do hábito ou da disposição habitual para agir de uma certa maneiroa, o termo dessa gênese do ethos – sua forma acabada e o seu fruto – é designado pelo termo hexis, que significa hábito como possessão estável, como princípio próximo da uma ação posta sob o senhorio do agente e que exprime a sua autarkéia, o seu domínio de si mesmo, o seu bem.

A estrutura da ética de Lima Vaz, portanto, percorre um círculo virtuoso do ethos passando pela práxis em direção à hexis e retornando, novamente via práxis para o ethos. A compreensão do raciocínio passa pela polissemia dos termos, principalmente do “termo médio” práxis cujos sentidos são, respectivamente, ação de um indivíduo e, transformado pela héxis, ação ética do mesmo indivíduo. Enquanto ethos e hexis são entidades abstratas e reflexivas, a práxis é o local no qual transcorre a ação (a pólis ou a oikos). O que diferencia um sentido do outro é sua relação com a héxis, ou seja, com o caráter. Na formação do caráter se dá a autonomia ética do indivíduo. Na construção do caráter, o indivíduo associa o logos ao ethos.

O que o Roberto Romano critica é a divisão entre costumes (a noção de hábito) e de ser no mundo como modo de viver (a noção de habitar) e a assunção de que o primeiro está diluído no segundo. Romano prefere, ao contrário, separar o ethos dos mores, numa outra chave. Ele parece entender ethos num sentido muito mais weberiano, ou seja, como conjunto de procedimentos de uma determinada sociedade numa determinada época, assim como em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Visto dessa forma, o ethos perde sua carga moral e passa a significar simplesmente um certo tipo de procedimentos temporalmente situado. A moralidade, por outro lado, estaria diretamente ligada ao indivíduo. Apenas o indivíduo é moral, porque seu caráter é plasmado pelos costumes. É por isso que ele afirma na entrevista que o PT tem uma ética mas não tem moralidade. A leitura de Lima Vaz, portanto, é enviesada, no sentido de que se faz uma crítica política ao pensamento do jesuíta: seguindo os passos de Hegel e de uma ética como modo de vida (cuja realização é indicada na equivalência heraclítica entre ethos e logos), o modelo ético de Lima Vaz tende a ser universalista e, portanto, negligenciar o papel do indivíduo.

Mas como eu li também o texto da Antropologia Filosófica, não dá para concordar com o Romano (pelo que li na revista, é lógico; quem sou eu para concordar ou discordar do Roberto Romano…santa hýbris). Por conta do papel especial reservado ao indivíduo (espírito) em sua relação com a dinvidade. Está na segunda parte da antropologia e não vou citar aqui por deverá ser objeto de um outro post, mas resumo: para Lima Vaz, a partir da dialética hegeliana e da inspirição de Agostinho, a categoria de Pessoa resume os vários momentos da investigação filosófica num totum único, caracterizado pelo ser-para-a-transcendência. Eis a idéia:

(…) Persona significat id quod est perfectissimun in tota natura. Dada a infinita densidade ontológica da realidade significada pelo seu conceito, a designação de pessoa convém do modo mais excelente ao Absoluto – a Deus – e é em virtude dessa referência analógica na própria ordem de perfeição do ser que a pessoa finita, seja no âmago masi íntimo de sua essência, seja no invariante ordenador da sua linha de existência, deve ser dita ser-para-a-transcendência. Dessa sorte, a pessoa pode ser apresentada como “síntese metafísica” e a pessoa concreta como “resumo de toda ordem metafísica”.

Na minha humilde interpretação, o homem apenas chega a ser completo, ou seja, a traduzir a essência divina na existência humana quando abre-se para o transcendente. É agostiniano (apesar da citação latina ser do “Doutor Angélico”) porque sinaliza um olhar para dentro – daí o esforço de uma antropologia – como forma de ir ao transcendente. E, como Agostinho, o ferramental teórico só poderia ser a dialética; no caso de Lima Vaz, a hegeliana.

Por fim, não vejo como um autor poderia ludibriar-se a ponto de situar a própria abertura para Deus no espírito humano e, por outro lado, profetizar uma ética de caráter universalista e, por isto, com “tendências” totalitárias. Acho o equívoco muito primário para a inteligência de Lima Vaz. De qualquer forma, depois volto a antropológica do conceito filosófico-teológico de pessoa.

É isso.

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1 comentário

  1. O Garganta de Fogo » Ah, este povo estúpido!!! escreveu:

    […] Bem, falava de ciência política e não era à toa. Vejam, um dos problemas mais antigos da ciência política é o problema da ação. Em Aristóteles encontramos uma dupla explicação consorciando educação e reflexão. A ação é moldada no indivíduo, em primeiro lugar, pela educação – hábito e exemplo -, mas também não se pode retirar seu componente reflexivo – a deliberação -, cujo conhecimento específico não é nenhuma ciência, mas apenas prudência, sabedoria prática (para aqueles dotados de um c.d.f. já escrevi sobre isso antes). Para Aristóteles as pessoas são éticas apenas se podem atualizar, via deliberação consciente e autônoma, o que aprenderam quando eram crianças. Ou ainda, só somos verdadeiramente éticos quando optamos conscientemente por um determinado modo de agir e enfrentamos suas consequências. […]

    Pingback de 2-11-2006 @ 12:30 am

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