De onde vem o amor da esquerda pelo Estado
Ontem, ao redor de uma mesa de bar, onde diversas opiniões aleatórias foram emitidas e defendidas ao mesmo tempo em um ambiente de caos alcoólico, descobri que no fundo, no fundo, todo esquerdista honesto acha que ou é capaz ou que alguém é capaz de impedir que o mal impere na sociedade. Em suma: o ser humano é horrível, e somente “engenheiros sociais” capacitados podem evitar que caiamos no fascismo. O pior é que não há manifestação deste raciocínio no nível consciente! Ele está tão entranhado em nossa cultura que normalmente é visto como uma verdade dada. Afinal, depois de tantos anos de campanha contra a natureza “divina” do homem, a favor de uma natureza animalesca, é natural que surja a idéia de que o homem deve ser domado. Mas será que é assim mesmo? É aí que reside A Pergunta, que separa os de tendência liberal dos de tendência socialista. O homem é capaz de conviver em sociedade, pacificamente, sem a necessidade de um poder central que o subjugue? Quem responde sim, é de tendência liberal. Quem responde não, é um criador de monstros, mesmo que involuntariamente.







Para tudo aí, Paulo. A coisa não é tão simples e nem pode ser reduzida a um falso dilema: liberais legais x criadores involuntários de monstros.
Já disse isso antes aqui no blog e digo novamente: a utopia liberal é o indivíduo. O indivíduo, ou mesmo a racionalidade natural, que você defende, por exemplo, é pura ficção; um exercício, se o Yuri me permite, de projeciologia política.
Nem vou perder meu tempo com exemplos como o do canibal altamente civilizado da altamente liberal sociedade alemã, lembra? Além do mais, quando um indivíduo aponta uma arma para você tudo o que você quer é que o Estado chegue o mais rápido possível. Aliás, quando indivíduos “bonzinhos” esquartejam e queimam jornalistas nos morros ninguém argumenta em favor da natureza humana. Diga isso aos coroinhas que perderam sua inocência na sacristia.
Sem Estado caimos na mais completa barbárie, porque somos, todos, animais. Deve haver um meio-termo aí, em algum lugar, mas nunca num não-lugar.
Comentário de 1-4-2006 @ 11:37 pm
Daniel,
Se a racionalidade natural é pura ficção, qual é então a melhor racionalidade, a do Estado? Porque seria assim? O que faz com que a racionalidade seja tão racional quando no Estado?
E olha, o Mal faz parte da natureza humana, assim como o Bem. NUNCA haverá uma sociedade em que o Mal não exista. E SEMPRE haverá alguém que alegará estar salvando os outros deste mal, para isso ele só precisa de mais poder…
Concordo contigo que tem um meio-termo, afinal eu não sou um revoluciário maluco. Mas, para mim, por minha experiência e leituras, o Estado é feio, não é bonito como alega-se. E tendo em mente que ele é feio é mais fácil entendê-lo, controlá-lo e diminuí-lo. Talvez atingindo o ponto de só existir o sistema judiciário, que, by the way, pode até nem ser Estatal.
Comentário de 2-4-2006 @ 3:50 am
Pois a minha argumentação é quid pro quo, Paulo. O indivíduo não é tão lindo quanto você pensa, na verdade, ele é bem feio, visto de muito perto. O fato de as coisas sairem do controle no Estado - afinal a burocracia afasta a ação de seu fim, interpondo uma série de estamentos hierárquicos nos quais são gerados os tais monstros - não implica sua filiação ao demo. Ao contrário, demoníaco seria abandonar o homem a si mesmo.
Comentário de 2-4-2006 @ 4:01 am
[...] o Google Books já está aceitando catalogar e dispor ao público o conteúdo de livros de contribuidores individuais. (Pro Daniel não rola porque ele acha que o indivíduo não existe. Se é que o Daniel já escreveu ou pretende escrever algum livro.) [...]
Pingback de 2-4-2006 @ 4:05 am
Daniel, essa “má nova”, na qual descreio, de que o indivíduo não existe me causou menos espécie do que a boa nova de que Papai Noel não existe. Do restante do tema, já falo logo logo.
Abrazos!
Comentário de 2-4-2006 @ 4:10 am
[...] Aaah, então o Daniel também tem crenças absolutas: “o indivíduo é pura ficção”, diz ele, num comentário ao texto do Paulo. A autoconsciência humana e o livre-arbítrio são, portanto, segundo essa perspectiva, desvios virtuais da nossa existência absolutamente animal e coletiva: não temos individualidade, somos meramente a “espécie humana”. Interessante mais essa confissão do nosso amigo, com a qual discordo. Mas ele tem razão em certo aspecto. No estágio em que estamos, sem um fiozinho sequer de Estado, cairíamos mesmo na barbárie, e como prova disso basta uma greve da polícia, que aliás já experimentamos. [...]
Pingback de 2-4-2006 @ 6:57 am