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Mani-manus: criare or not criare

“Pensando bem, barulho à sós ainda é pior que baralho à quatro”
(Lavra pessoal)

Difícil explicar tantos mistérios sobre a criação. Para uns, ela nada mais é que uma diarréia emotiva que se manifesta em meros jatos de verbo, perplexidez e, às vezes, um pouco de tinta. Já, para outros, mais ortodoxos, não. Trata-se do viscoso processo cerebralista em que, possuído, o artista se dilui a olhos vistos, deixando-se simplesmente escorrer pelos ralos da mídia escolhida. Contudo, para mim, isso tudo é indiferente, ou seja, reles bobagens. Embora não perguntado a respeito, vejo essa coisa com tanta naturalidade que me seria difícil defini-la, a não ser — lógico — arreganhando as portas da mente e — sem um querer desastrado qualquer — deixar que as baratas entrem.

Assim, bico de siri sobre tal tabu. Ainda que pressionado a me explicar, silêncio mortal e total acerca do niente criativo e tais picuinhas que não interessariam a ninguém, a não ser aos voyeurs do espírito, para os quais sempre existe um SUS recorrente, ainda que, às vezes, meio suspeito.

Portanto, nada melhor que me afastar dessas pseudo e inúteis catarses, arregaçar as mangas e macular a tela com algo que — sinto —, já me vem vindo aqui, aos borbotões…

Sim, e como é bom isso tudo! Acender o charuto, preparar o uísque, apanhar uma gilete imaginária, apontar bem apontada a extremidade dos dedos e, afinal, sentar e escrever. Há décadas, neste ateliê, reproduz-se o mesmo fenômeno de gargantuesca alegria espiritual em alimentar peixes emocionais e ficar ali, quieto, por detrás do aquário-computador espiando-lhes a irreprimível voracidade. Por isso, sou permanentemente assaltado por desejos faustianos de conhecimento que me levam a pensar:

— Que dia é hoje mesmo? Domingo? Ainda que ordenem descanso, é uma excelente data para criar algo e não ficar por aí, ruminando ócios e mascando churrascos.

Assim, visto o terninho de marinheiro e, paramentado, agradeço a luminosidade dos Zoroastros, Cristos, Budas e Maomés, pensando logo em soltar as feras indomáveis que arranham meu lado de dentro, buscando o universo anti-séptico que é onde penso viver. Contudo, observando bem, pondero: e os perigos que correm as mãos que criam? Credo!

Sim! Há tempos, um beletrista chamou Jorge Amado de “velhinho safado”. Outro, mais delirante, apontou Jean-Paul Sartre como “dinossauro da filosofia”. Pouco depois, Euclides da Cunha de “farsante” e, há pouco…, meu Deus! Inventaram que Walt Disney fora um pervertido sexual… Até ele que (apesar de suas obsessões macarthistas), por meio século ocultou as gigantescas ereções do pato Donald da intocada e sadia virgindade infantil! Ninguém escapa! De fato, o furor da mediocridade leva os biltres a desenvolver uma patologia diabólica, maculando com nódoa viscosa tudo o que se pretenda fazer.

É como se nada que não saísse de suas andrajosas cornucópias pessoais pudesse funcionar, visto não possuir-lhe o aval ou sua dogmática chancela. Mas, que fazer para conter a fúria desmanteladora desses arquitetos do Vazio, hum?

Já sei! Urdir um camburão emocional que, ao mesmo tempo, sonde a opinião pública e engaiole a manifestação dos estéreis que passam a vida maquinando detrações gratuitas àqueles que de fato fazem… “Porém (dirá a mornidão dos circunspectos, aduzindo à aparente utopia que envolve a questão), heterodoxo em demasia”. Ótimo, lhes direi! Antes de chegar à legítima democracia pelas mãos de Clístenes, a Grécia digeriu a monarquia, a oligarquia e a tirania. Por que devemos democraticamente nos subordinar à estupidez de uns poucos, hein?

Nesse momento, há frissons e a mão treme de prazer por começar a rabiscar a biografia de alguém mais ou menos helênico chamado Clister, meu ilusório herói surreal que, através de contundentes preceitos metidos no reto universal, desarrolhará verdadeiros sentimentos de gratidão, libertando a humanidade desta sórdida prisão de ventre mental em que se encontra há tanto.

Todavia, como Nietzsche, convém que ponhamos uma barreira em torno da nova doutrina para impedir que manipuladores a conspurquem. Afinal, toda a prudência é pouca! Além disso, é sempre bom proteger a mão que cria do vulgo que a estapeia.

Assim pensando e de antemão, é exatamente aqui que cerro os punhos e termino o texto, ainda porque, apesar da turgidez noturna, esse dedo-de-prosa constitui meu panarício filosófico pessoal e — é claro — o arremate harmonioso das suavíssimas palavras que ainda estão por vir.

Bom dia.

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