
Mês: junho 2006 Page 5 of 7
I. A Bruxa
O pentagrama tatuado nas costas, uma lua e três estrelas na mão. Ela tentava me convencer que bruxaria era coisa boa, “o contato com a natureza, a sensibilidade para as energias cósmicas, o cristianismo é que estragou tudo, com aquela moral repressora…” Eu tolerava incenso e maconha em troca de alguns orgasmos — o que um adolescente não faz movido por hormônios? Mas deuses pagãos não são eternos. Um dia foi minha paciência e veio a inquisição. Confessei meu ceticismo. Ela não tinha poderes sobrenaturais, era apenas humana, ou pior: mulher. Ultrajada, tentou se defender atacando — Nunca gozei com você! — mas isso apenas provava sua completa falta de poderes mágicos. A não ser, é claro, para a hipocrisia: nos despedimos com beijinhos formais. Quando ela bateu a porta, o ar puro voltou a fluir no meu apartamento.
II. La Mamma
Ela ficou decepcionada quando esqueci nosso aniversário. Não mandei cartão, não telefonei, mas continuei sendo o destinatário de suas palavras carinhosas: “meu amor”, “minha vida”, “razão da minha existência”. Ela não podia evitar, já que fora educada por estórias infantis e canções românticas. Quando não era a princesa, esperando que eu matasse um dragão, tornava-se mãe. “Leve agasalho”, “Não tome leite vencido”, frases até desejáveis quando uma mulher não sabe fazer outra coisa. Confesso que quase a amei, sobretudo quando dentro do seu corpo quente e molhado. Mas seus olhos mendigos pediam algo que eu não podia dar: uma promessa. Acabei por lhes dar algumas lágrimas, que, felizmente, seriam poucas. Funcionários públicos vivem à espera de mamães como essa. Eles sim, têm as promessas que elas pedem. Eu ainda tinha alguns dragões para matar.
III. É ela
Certos espíritos dificilmente admitem que uma coisa simples possa ser bela, e menos ainda que uma coisa bela é, necessariamente, simples, em nada comprometendo a sua simplicidade as operações complexas que forem necessárias para realizá-la. Ignoram que a coisa bela é simples por depuração, e não originariamente; que foi preciso eliminar todo elemento de brilho e sedução formal (coisa espetacular), como todo resíduo sentimental (coisa comovedora), para que somente o essencial permanecesse. E diante da evidente presença do essencial, não o percebendo, até mesmo fugindo a ele, o preconceituoso procura o acessório, que não interessa e foi removido. Mais pura é a obra, e mais perplexa a indagação: “Mas é somente isto? Não há mais nada?” Havia; mas o gato comeu (e ninguém viu o gato).
(Carlos Drummon de Andrade, Confissões de Minas — Caderno de Notas. In OBRA COMPLETA. Rio, Aguilar, 1964, p. 591)
Ó teu pai aí, Pedro.
FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, em Vila Boa de Goiás (segundo as más línguas, “Goiás Velho”).
(Via Blog do Altino.)
Hoje, meu sobrinho de cinco anos de idade chorou para não ir à escola. Disse minha irmã:
“Vai sim, você precisa estudar! Ou será que você quer ser presidente do Brasil quando crescer?”
Olha aí o Carlos Teófilo, Pedro:
Agora só falta estender a competição paralela…
BigMac é BigMac, mas eles
chamam de Le BigMac ![]()
John Travolta para Samuel L. Jackson, em Pulp Fiction (1994)
A evolução é algo realmente espetacular. Certos caminhos que ela escolhe podem, milênios depois, favorecer o sucesso ou o fracasso de uma espécie. Lembrei disso lendo na Reuters uma notícia sobre um tipo de big brother sobre pandas, na China.
Esse bicho fofinho, que todos adoram e é símbolo da luta pela preservação das espécies, corre risco de extinção em boa parte por uma escolha em seu caminho evolutivo — estou excluindo aqui o bicho-homem, já que esse é uma ameaça a qualquer ser vivo que exista.
Está circulando pela internet, por causa da Copa. É uma animação bem boa. Chama-se Corrente pra Frente, produzida pelo Laboratório de Desenhos. É de 2002, mas, do jeito que as coisas são no Brasil, ainda é bastante atual. Como não sei como postar a imagem em flash, copiei o link para a animação.
Eu e o Pedro Novaes ainda estamos ralando aqui no Festival Internacional de Cinema Ambiental, em Vila Boa de Goiás – enquanto monitores e roteiristas – na oficina de fotografia de cinema do Dib Lutfi, diretor de fotografia e/ou cinegrafista dos filmes “Terra em Transe”, “Como era gostoso o meu francês”, “A falecida”, “O Desafio”, “O Ponto de Mutação”, etc. As imagens captadas por Dib e seus alunos estão sendo editadas (com uma baita força da Aline Nóbrega) na oficina de João Paulo Carvalho, editor de dezenas de novelas e seriados globais, tais como O Sheik de Agadir, Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Dancing Days, Malu Mulher, Plantão de Polícia, Carga Pesada (primeira versão), Armação Ilimitada, TV Pirata, etc., e dos filmes América (João Moreira Sales), Dom, Maria, Mãe do Filho de Deus (ambos de Moacyr Góes), Benjamim (Monique Gardenberg), entre outros, incluindo filmes da Xuxa, Renato Aragão e Angélica. O produto final das oficinas será apresentado na noite de encerramento do festival.
Cá entre nós: nada como tomar umas e outras com quem trabalhou junto a alguns dos maiores diretores brasileiros e com quem estava por trás da dinâmica do excelente Armação Ilimitada. Altos causos, altos papos. Os figuras são excelentes.
Depois deste fim de semana, quando tivermos tempo, voltaremos ao tema.
