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Olavo de Carvalho, Hilda Hilst e… o diabo?

Domingo, fiquei uma hora e meia ao telefone com Olavo de Carvalho [1] (viva o SkypeOut [2]!) e, recheada por todo tipo de assunto, tivemos uma boa conversa entremeada por boas risadas. Quando chegamos ao tema “sociedades secretas”, perguntei se ele de fato não ouvira mais nada a respeito do famigerado Livro de Urântia [3] — do qual ele leu, anos atrás, e instigado por mim, apenas um trecho. Ele acha que semelhante leitura é um desses empreendimentos que pode ocupar toda uma vida e, com grande probabilidade, redundar em nada; isso caso o livro se mostre na verdade justamente o contrário do que diz ser, a saber, uma “revelação”. (Olavo, Hilda Hilst [4] e Bruno Tolentino — afora alguns amigos e três ex-namoradas — ainda que eu não os tenha convencido a ler o livro por completo, foram as únicas pessoas que não riram da minha cara ao me ouvir falar dele. Gente fina é outra coisa.) Voltando. A certa altura, disse que me dedico a esse livro porque, entre outras coisas, ele fez parte da minha conversão à fé em Cristo. Replicou Olavo: “Pois é, muita gente chega a Deus e a Cristo por intermédio do diabo…” Tive de rir, o cara é fueda. Só esqueci de acrescentar que, sendo ou não autêntico, creio que esse livro ainda arrebatará o planeta inteiro, não importa se em 10, 100 ou 1000 anos, mais ou menos como faz o Orbis Tertius do conto do Borges [5]. Aliás, acho que só ele pode enfrentar o Corão e os jihadistas. Bem, o Olavo acha que com esses aí só uma boa dose de mísseis, balas e bombas…

Em tempo: antes que algum amigo comum, meu e da Hilda, apareça para me dizer que ela não aprovava o Livro de Urântia, eu sei qual era de fato o caso. Quando lhe mostrei o livro, ela leu todo um “documento” sozinha — salvo engano, a parte que falava do “Monitor residente” — e, mais tarde, lemos outro juntos. Por fim, ela me disse: “Yuri, esse livro é tão louco, tãão louco, tããão louco — e eu sou tão velha, tãão velha, tããão velha — que eu tenho medo de, se continuar a leitura, ficar completamente gagá”. Rimos e, em seguida, ela me disse: “Fulano me disse que esse livro está te deixando pra lá de gling-glang”, e os olhos dela brilharam com aquela mistura de ironia e de admiração que tinha por gente doida. Sim, meu bróder, a fofoca funcionou ao contrário.

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#1 Comment By Ronaldo Brito Roque On 30/08/2006 @ 12:17 am

Cara,

deixa eu te perguntar uma coisa: o que é que vc busca nesse livro de Urantia? Quais são as dúvidas que vc tem sobre o homem e o mundo que a sua educação e os livros que vc leu não conseguiram responder?

Abraço,
Rbr

#2 Pingback By O Garganta de Fogo » Respondendo ao Ronaldo On 31/08/2006 @ 9:04 pm

[…] Na verdade, não busco nada no Livro de Urântia. Ele apareceu na minha vida completamente ao acaso – uma amiga me emprestou um exemplar em 1997, lá na UnB, dizendo que eu certamente o acharia interessante – e o li inteiro, pela primeira vez, achando que não lia senão um desses livros que descrevem o mundo de um jogo de RPG. O problema é que o tal “mundo” esboçado por ele é, na minha humilde opinião, o mais vasto e profundo que nossa imaginação pode alcançar. Não é um livro perfeito – não é uma revelação direta de Deus – e tenho minhas críticas a muito do que está ali escrito. Mas o tempo me mostrou que, se a vida é um jogo, ela é um jogo de RPG (Role Playing Game), um jogo no qual desenvolvemos e aperfeiçoamos nossa personalidade, sendo esta um dom de Deus – exatamente o que diz o livro. E, a vida (e não o livro), me confirmou que esse RPG também tem um Mestre, a saber, o Arcanjo Miguel, que esteve entre nós como Jesus. Eu sei que tudo pode parecer muito louco ali. Mas não creio que o universo seja bobo e sem graça como querem os céticos sistemáticos. A Hilda Hilst, o Bruno Tolentino e o Olavo de Carvalho me ensinaram pessoalmente que a fé não apenas não atrapalha a inteligência e a criatividade como, muito pelo contrário, as estimula e fortalece. Eu sei que não necessito d’O Livro de Urântia para chegar a tal conclusão. Eles não precisaram dele. Mas o planeta Terra precisa. Chegamos a um ponto da História humana em que uma grande mudança se faz não apenas necessária, mas inevitável. E toda Cultura – que é como Oswald Spengler chama uma Civilização em seu estado de nascimento e desenvolvimento – nasce duma intuição espiritual nova e mais abrangente, duma visão cósmica mais universal, fecunda e cheia de sentido. Jesus fez isso no tocante ao indivíduo, que é o principal, mas a narrativa completa de sua vida e de sua obra – assim como a descrição dos seres, da estrutura e das regras que regem as demais “moradas”- irá, digamos assim, por “ressonância” e influxo idealista, orientar a organização desse nosso variegado e caótico mundo. Pela primeira vez na história conhecida, nosso “mundo conhecido” se confunde com todo o planeta. Os remanescentes das Culturas outrora pujantes – Ocidente Cristão, Islã, Oriente hinduísta, budista, etc. – não se sentem à vontade uns com os outros e temem ser sobrepujados e engolidos pelos demais. Apesar de o Livro de Urântia estar mais próximo daquilo que entendemos por cristianismo, ele vem não apenas confirmar tudo o que este tem de positivo e verdadeiro, mas também purificá-lo de seus erros e malentendidos, o que, por isso mesmo, o fará ir ainda mais longe. Ele não revoga a Bíblia, os Evangelhos e demais livros sagrados. Não. Ele os alarga, esclarece e amplia. Também apresenta muitas questões polêmicas passíveis de gerar conflitos, isto é, se lidas isoladamente do restante da obra. Mas creio que, dum modo geral, os efeitos do livro hão de ser positivos e duradouros a longo prazo. Da mesma forma que o Império Romano não conseguiu se livrar do “imperativo cristão” – e que o Oriente Próximo não conseguiu evitar o Islã – tampouco o planeta Terra conseguirá evitar tornar-se… Urântia, o nome pelo qual é conhecido em nosso Sistema de Mundos Habitados. Eu estou cagando e andando para o que meus amigos, familiares e sei lá mais quem possam achar dessa minha posição. Eu apenas não consigo deixar de imaginar um outro futuro melhor do que esse e, como dizia a Clarice Lispector, imaginar é adivinhar a realidade. Que culpa eu tenho se algumas coisas nascem mesmo póstumas e impossíveis de serem provadas agora? Quem escreveu esse livro sabia disso e nem se deu ao trabalho de assiná-lo. Foi apenas um transmissor? Criou todos aqueles “heterônimos” fantásticos que assinam os capítulos? Eu não sei. Tal imprecisão autoral não impediu que o Pentateuco fundasse uma nação (Cultura) avançadíssima ou que o tribal Islã alimentasse e ressuscitasse a então complexa e decadente Pérsia. Meu maior temor em relação ao Livro era que ele fosse mais um gnosticismo. Mas quanto mais o estudo, mais me convenço de que não é. Mas, bem, essa é uma outra história. […]