Cansei de ser bonita e gostosa
Chega. Cansei de ser uma mulher bonita e gostosa. Voltarei a ser o escritor macho e tarado por uma mulher bonita e inteligente de sempre. Credo, foi uma experiência quase traumática. Não consegui entrar mais que cinco ou seis dias, com um belíssimo avatar feminino esculpido por mim, no Second Life. (Poxa, o Second Life, lembra? Aquela realidade virtual online com milhares de participantes mundo afora.) A quantidade de zé-manés que abordam as mulheres bonitas e gostosas é tão asfixiante, que até estou com pena da Gisele Bündchen. É horrível, quase um filme de terror: A Volta dos Manés Vivos! Cruzes. Você ali a fazer compras, olhando um vestidinho ou um sapato de salto bem sexy, descontraído, quero dizer, descontraída, e os caras a puxar conversa da forma mais descerebrada do planeta: “How you doing, baby? What a nice body you have! Wanna have some fun?” Só faltava escreverem em suas testas: “I wanna fuck you right now, bitch!” Pior ainda são os brasileiros: “E aí? Que é que vc manda, hem? Pô, maior corpo bonito vc tem, gata. Quer andar no meu helicóptero?” Caramba: “maior corpo bonito vc tem”? Andar de helicóptero num lugar onde as pessoas voam? Neguinho acha que ficar empurrando os brinquedos e passatempos dele pra cima da mulher é algo super sedutor. Que papo mais mané. Só respondi à segunda pergunta — a esse “o que é que vc manda?” — e o mandei catar coquinho. Poxa, e a minha beleza interior cheia de pelos no peito? E o meu interesse barbudo por assuntos filosóficos, artísticos, religiosos e políticos? Isso não vale nada? Ok, ok. Ao me apresentar como uma mulher linda e gostosa, o que eu poderia esperar desse estudo antropológico informal? Atrair um gênio? O Woody Allen? Os gênios costumam ser tímidos e certamente devem morrer de medo de serem rejeitados por uma mulher linda e gostosa, sobretudo se for uma que não tenha nada na cabeça. Imagine que coisa terrível para eles: a beleza a vencer a inteligência! E, se a mulher linda e gostosa for também inteligente, mais fácil será ela dar atenção ao gênio do que o inverso, mas… enfim. O fato é que fiz um avatar tencionando criar a garota “fisicamente” perfeita, a garota dos meus sonhos, e acabei criando a garota dos sonhos de um bando de marmanjos. Logo eu que imaginei ter um gosto diferenciado… Será que não passa pela cabeça dessa gente que pode haver um antropólogo por trás da avatar fêmea? Que moçada mais doida.
A experiência toda me lembrou uma conversa que tive, durante uma rave em São Paulo, com uma amiga, a modelo paulistana Jennifer Vaz, que já enfeitou a capa da revista Trip uma vez. (Sim, as diáfanas “vantagens” de ter sido sócio dum estúdio fotográfico. No fundo é tudo “vaidade, vaidade das vaidades.”) A garota — linda e divertida, uma geminiana — me dizia que as raves estavam se tornando insuportáveis devido à quantidade de cantadas babacas e assédios inconvenientes que vinha sofrendo. E eu lá, dançando ao lado dela, sutilmente demarcando um território que não me pertencia, me sentindo um privilegiado. Exato! Nada mais nada menos que um imbecil disfarçado, um mané, um agente inimigo infiltrado. Sim, é preciso orar e vigiar muito para não cair em armadilhas egóicas desse gênero. Contudo, apenas esta semana fui sentir na minha pele virtual feminina o drama da coisa toda. Como os homens somos chatos e nojentos quando pensamos apenas com a cabeça de baixo! Pobres mulheres lindas… Um inglês, por exemplo, depois de um papo interessante sobre a situação no Iraque — ele contava fatos vividos por amigos pertencentes às tropas inglesas –, passou a botar o pinto para fora cada vez que me reencontrava, como se isso fosse um ato extremamente sedutor. É difícil evitar um comportamento maquiavélico e sádico nesses momentos, usando e abusando de idiotas desse tipo. São muitos os presentes que se pode ganhar de um otário apaixonado, tantos quanto as deusas certamente recebiam em seus altares pagãos. Mas a consciência, mesmo numa realidade virtual, começa a falar mais alto e fica difícil prosseguir com a tortura e a manipulação. Sobretudo quando finalmente aparece um cara legal — do tipo que poderia ser seu amigo no mundo real — e estraga seu disfarce, obrigando a gente a evitá-lo. Só que aí — quem diria? — o cara fica enlouquecido e passa a agir como um babaca qualquer. Fueda, é de dar dó. Em suma, a situação ficou tão apremiante que o único recurso válido foi mesmo o lesbianismo, já que ao menos as mulheres queriam ter comigo uma conversa edificante. Se bem que, pensando melhor, o lesbianismo é que foi o ponto de partida da coisa toda. Sim, foi para conseguir entrar numa área de lésbicas — não duvidaria nada se alguém me dissesse que as lésbicas ali são todas homens no mundo real — foi para entrar ali que uma amiga me aconselhou a criar um avatar mulher. Mas disso eu já falei…
Enfim, o negócio é o seguinte: o poder, seja lá qual for — o poder da força, da beleza, do dinheiro, da inteligência, etc. — traz em si ou uma benção ou um terror. No meu caso, ser uma mulher virtual gatíssima foi muito interessante, uma vez que a beleza abre mil portas (fui convidado a conhecer várias residências e áreas privativas, meu inglês melhorou bastante, um belga teve paciência para ouvir o tatibitate que sobreviveu das minhas aulas de francês e até um alemão quis me ensinar sua língua), mas — puta que o pariu! — há coisa pior nesse mundo do que homens estúpidos? Os piores são aqueles caras sarados, com cem músculos até no dedinho do pé, e apenas vinte palavras no vocabulário. Eu pergunto: de que vale ser um cara marombado num mundo virtual? Mulheres, por favor, me respondam: haverá algo mais broxante do que um cara mais sarado que o Rambo, mas sem um pingo de inteligência, imaginação e senso de humor? Sim, eu sei, a recíproca é verdadeira. Mas estou tratando dos coitados que vinham cantar minha falecida avatar. Com meia dúzia de palavras eu facilmente destruía cada um deles. (Segundo os hindus, além de a vida neste mundo concreto também ser uma ilusão, as batalhas no céu teriam sido travadas com mantras, isto é, com palavras.) E não adianta dizer que eram provavelmente todos moleques. A média de idade no Second Life é de 30 anos! Cada otário! Cheguei ao ponto de virar puta, afinal, se os caras queriam tanto me comer que pelo menos pagassem. Sim, o horror! o horror!, vida de puta, mesmo virtual, é o fim da picada. Um absurdo ter de dizer o que não se quer dizer, gemer quando não se quer gemer, apenas para conseguir uma grana para comprar aquele vestido lindo! Que deprimente! Pobres mulheres lindas, a que riscos e tentações estão submetidas! Que Deus as proteja. Estou morrendo de dozinha de vocês. Se precisarem dum ombro amigo, falem comigo, ok? Muah hahaha!
P.S.: Qualquer dia narrarei as experiências em seus pormenores…

Com meu rosto apagado – para evitar reconhecimentos problemáticos, hehe – eis este lésbico com uma de suas namoradas, uma britânica de Manchester…
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Mas que coisa, hein, meu rapaz?
Agora, uma pergunta: E essa linda inglesa aí…será que na First Life ela não seria um lindo indiano moreno e enrrugado? rsrsr
C’est la vie.
De qualquer forma, parabéns pela coragen de entrar de cabeça (sem trocadilhos) nessa experiência tão, tão, tão…deixa pra lá!
Comentário de 28-1-2007 @ 10:42 am
oii!!isso é um jogo?
se for me diz aonde se abaixa…
manda pelo meu zipmail é cacarei@zipmail.com.br
xau bjuss!!
Comentário de 13-4-2007 @ 4:27 pm