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Almodóvar!

Quero colocar em dia as impressões sobre os últimos filmes vistos. A correria não tem deixado.
Começo pelo último. De longe, o mais impressionante deles: Volver, de Almodóvar. Ainda estou meio passado e digerindo a experiência, mas talvez realmente se trate, como disse o Fiume [1], do melhor filme do cineasta espanhol.
É impossível não babar o ovo do sujeito, um gênio do maior quilate. Como pode um diretor manter uma regularidade tão impressionante e parir filmes espetaculares pelo menos a cada outra produção? O pior que o sujeito faz é um filme “na média”, tipo “A Má Educação”, e que mesmo assim é uma cacetada no crânio.
Porque mesmo um Woody Allen, um Hitchcock e um Kurosawa têm seus momentos de baixa. Allen, por exemplo, entre “Descontruindo Harry” e “Ponto Final”, produziu uma série de filmes “na média”, que davam pro gasto, e um ou outro um pouco melhores mas, mesmo assim, muito sujeitos a gostos pessoais: “O Escorpião de Jade”, “Os Trapaceiros”, “Celebridades”, “Dirigindo no Escuro”, “Melinda e Melinda”, etc.
Hitchcock, a mesma coisa, dirigiu seus “The Trouble With Harry”, “Marnie – Confissões de uma Ladra”, entre outros filmes de direção segura, mas não mais que medianos.
Almodóvar, por sua vez, desde 1988 mantém uma consistência muito impressionante: “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, “Ata-me”, “De Salto Alto”, “Kika”, “A Flor do meu Segredo”, “Carne Trêmula”, “Tudo sobre Minha Mãe”, “Fale com Ela”, “A Má Educação” e agora “Volver”.
Ninguém o iguala em sua capacidade ímpar para colocar, lado a lado, o grotesco e o belo do ser humano. Poucos contadores de história conseguem narrar tramas tão absurdas sem fazer uma comédia escrachada OU um melodrama negro – um ou outro. Almodóvar diferentemente logra caminhar sobre a corda bamba, emocionando, chocando e fazendo rir muitas vezes ao mesmo tempo em uma mesma cena. Sem falar da direção de arte sempre primorosa e da fotografia e composição cuidadosa de cada cena.
Volver, como o próprio título enfatiza, é um filme sobre o tempo e nossa relação com ele.
Me agrada, entre muitas outras coisas, o contraste entre Madri e a pequena aldeia onde vivem a tia cega, a Agustina e seus fantasmas. A aldeia é retratada como um espaço onírico, onde venta incessantemente e incêndios descomunais devastam os campos sem cessar, onde as pessoas limpam túmulos que o vento teima em querer cobrir de pó e folhas numa frequência obsessiva e onde há quase apenas velhas senhoras e tias solteironas. Me lembrou muito a paisagem do realismo fantástico latino-americano, como em Garcia Márquez e Juan Rulfo, uma Macondo ou uma Comala. O caminho entre Madri e a pequena aldeia, por sua vez, túnel do tempo, é pontuado por imensos geradores de energia eólica, numa evidente referência aos moinhos de outro famoso personagem espanhol.
Estas relações me fazem pensar que talvez não houvesse ninguém melhor que Almodóvar para filmar uma história de Garcia Márquez. E quem sabe Volver não sinalize um Almodóvar a caminho do realismo fantástico?
(A propósito, para quem ainda não sabe, com Fernanda Montenegro no elenco, o diretor Mike Newell [2] (“Quatro Casamentos e um Funeral”, “Harry Potter e o Cálice de Fogo”) está rodando a versão cinematográfica de “O Amor nos Tempos do Cólera”).
Muitos filmes me emocionam, poucos me fazem chorar. No caso, quase todos de Almodóvar. Neste especificamente, ele ainda faz a sacanagem de, bem no ápice da emoção, encerrar o filme bruscamente com uma frase espetacular que o Fiume deveria colocar entre suas frases de cinema – “Fantasmas não choram”. As luzes se acenderam e nós espectadores, embaraçados, ficamos disfarçando as lágrimas.

ATUALIZAÇÃO:

Conforme chama atenção no comentário abaixo, o Fiume de fato já tinha incluído a espetacular frase de encerramento de “Volver” entre as “Frases de Cinema”. Eu não estava sozinho na opinião.

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#1 Comment By Evandro On 28/11/2006 @ 9:19 am

O único defeito do Almodóvar é a apoteose dos gays e freaks. Mas suas inúmeras qualidades superam de longe esse defeito. O filme é mesmo muito, muito bom. E simples, o que o torna mais belo.

#2 Comment By fiume On 28/11/2006 @ 3:22 pm

Pedro, é a frase 26:

[3]

abs. r.

#3 Comment By bruno costa On 29/11/2006 @ 4:23 pm

Não, não e não! Pedro permita-me discordar de vc quanto a Marnie ser um filme mediano. Faz muito tempo que vc assistiu? Assista de novo, a seqüência do flashback em que ela se lembra da mãe recebendo o marujo é absolutamente genial. A seqüência inicial, creio, em que ela rouba o cofre da empresa também é incrível, não deixa nada a desejar em termos de suspense a quase nenhuma outra que ele tenha concebido. Além disso, os temas tratados, para a época, são muito interessantes e inusitados, frigidez, cleptomania, psicanálise… E tem aquela pegada humorística também, muito sutil, que o Hitchcock cultivou até o fim. A Tippi Hedren faz a melhor histérica que eu já vi, e a Catherine Deneuve revelou que teria adorado fazer esse papel. Vou assistir ao Volver hj… ontem vi o Scoop, muito bom, parece que o Allen está voltando à forma, ele consegue até mesmo ofuscar a bonitinha, mas ordinária Johansson (que é uma delícia, mas fraquinha, fraquinha de atuação).

#4 Comment By matheus só On 05/01/2007 @ 11:18 am

Pedro realmente é maravilhoso. Aquela cena da Penélope Cruz cantando Volver de Carlos Gardel me levou às lágrimas. Em todo caso, prefiro La Mala Educacion do que Volver. E de todos todos dele eu prefiro Entre Tinieblas… Aliás, este filme precisa ser relançado/restaurado, naquele mesmo esquema que rolou recentemente com Que fiz eu para Merecer Isto. Concordas?