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Crime Canhestro

Crime

Eu ainda não tinha assistido a “Crime Delicado”, filme de Beto Brant [1]. Depois de “O Invasor”, um dos melhores filmes brasileiros já feitos, e de “Ação entre Amigos”, que não chega à altura do primeiro, mas também é um ótimo filme, a expectativa era grande. Além disso, me chamou a atenção o fato inusitado de faltar uma perna à personagem central e, mais ainda, de que esta era representada por uma atriz estreante que de fato não tem uma das pernas – Lilian Taublib.
Infelizmente, o resultado é decepcionante.
Curiosamente, entretanto, uma pesquisa no Google me deixa virtualmente sozinho nesta opinião. A crítica adorou o filme. José Geraldo couto [2] afirmou tratar-se de um filme “esplêndido, radical, único”. A Bravo [3] disse que “se já era uma figura ímpar no cenário do cinema nacional por seus filmes anteriores, com Crime Delicado ele [Beto Brant] se firma como o cineasta mais ousado da nova geração”. E, finalmente, para a Revista Contracampo [4] “desde Morte em Veneza, as ligações entre visão de arte e ideal de perfeição física não se friccionavam de forma tão instigante, não curto-circuitavam as relações de desejo e representação de forma tão letal” (???), finalizando com a constatação de que “uma tal entrega, só dá a constatar que estamos diante de um cineasta em plena maturidade.”
De forma contraditória, entretanto, apesar desta aparente unanimidade da crítica, o filme não ganhou nenhum prêmio significativo em festivais nacionais e internacionais, o que é sintomático.
Sinopse: Antônio (Marco Ricca) é um crítico teatral que, em um encontro fortuito num bar, conhece e se apaixona por Inês (Lilian Taublib), que tem um relacionamento com José Torres Campana (Felipe Ehrenberg), um pintor mais velho que a usa como modelo de seus quadros. Mas o fascínio que Inês sente por Campana faz com que Antônio sinta cada vez mais ciúmes do relacionamento existente entre eles. Em meio a uma briga entre Antônio e Inês, acontece o “crime delicado”, uma transa consentida para Antônio, um estupro para Inês.
Evidentemente, “Crime Delicado” tem um componente de ousadia nos seus exercícios de linguagem, que tentam explorar a fronteira e as relações entre cinema e teatro e entre cinema e pintura. Há longos trechos de peças teatrais filmadas com a câmera fixa, e o filme em si é todo trabalhado essencialmente através de um enfoque “teatral”, com câmera fixa, planos gerais, poucos cortes, longos planos-sequência e ausência quase total de contraplanos e closes. Com relação à pintura, não apenas um dos personagens centrais é um pintor, cuja heterodoxa relação com Inês se processa em meio à criação de seus quadros, como a câmera explora de forma insistente e demorada estes quadros, num jogo de espelhos entre cinema e pintura.
Mas tudo é canhestro. Aplaudo a tentativa, mas, fosse eu o diretor, a apagaria do meu currículo. Bola pra frente.
As longas sequências de teatro são chatérrimas e não têm qualquer relação com a trama. A opção pela montagem simples e pelo teatral nas cenas do filme poderia funcionar, na minha opinião, se as interpretações de Marco Ricca e Lilian Taublib fossem espetacularmente intensas, de forma a compensar a distância da câmera. Não são, entretanto, mais que razoáveis. São pouco expressivas e até estereotipadas: uma mulher frágil, perdida e desequilibrada e um intelectual niilista também perdido.
O roteiro é fraco e o filme padece de um ritmo capenga. A relação entre Antônio e Inês se precipita muito rapidamente. Não há clima, não há sutileza, não há um processo de aproximação e sedução. Sem isso, os personagens ficam muito desinteressantes.
O ponto central do filme, a cena do crime delicado, não envolve o espectador e não deixa ninguém incomodado ou com a dúvida de se se tratou de um estupro ou não. Na verdade, fiquei desconcertado porque não tinha certeza se os personagens estavam realmente transando porque o personagem de Marco Ricca não abre a braguilha, nem abaixa a calça e de repente goza. Me virei para minha mulher e perguntei se eles estavam realmente trepando? Uma cena mal feita e com problemas de interpretação e direção.
Enfim, um argumento interessante, vítima de uma tentativa malfadada de fazer cinema de vanguarda. E o que realmente espanta são os aplausos da crítica. Prova de que, para fazer sucesso, bom mesmo é fazer coisas não-narrativas e um pouco difíceis de entender, com atmosfera underground. Enfatizo, entretanto, que evidentemente não vejo este tipo de má intenção deliberada no caso de Brant. Trata-se simplesmente, pelo que conhecemos dele, de uma tentativa honesta que simplesmente não deu certo. O problema está na crítica que compra qualquer coisa com uma certa roupagem.
Beto Brant atualmente colabora na versão americana de “O Invasor”, “The Trespasser” [5], dirigida por um tal Frank Flowers e ambientada em Miami.

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#1 Comment By Ricardo Montero On 08/02/2008 @ 12:35 pm

Pois é, o Beto Brant tinha ido muito bem nos três longas anteriores. Pedro, alinho-me a você e concordo com suas observações a respeito desse crime “canhestro”. Acrescentaria dois defeitos ao filme: ele é chato e muito pretensioso!