18/01/2008

A Culpa é do diretor, parte II

pedro novaes, 3:52 pm
Filed under: cinema,livros

Tenho insistido que o maior problema de nossa cinematografia digital, e sobretudo dos curtas que são feitos no Brasil, está na precariedade da direção de atores e no pouco caso com um trabalho mais embasado de preparação de elenco e construção de personagens.
A verdade é que a maioria toma a função do diretor cinematográfico como algo simples e que qualquer um com uma boa idéia pode exercer. Afinal, trata-se meramente de definir enquadramentos e movimentos de câmera, e de dar ordens aos atores, não é verdade?
A função do diretor é dificí­lima. É preciso ser acrobata e conseguir manter dezenas de pratos girando ao mesmo tempo, com a diferença de que, no circo, se um prato cai, só ele se quebra, enquanto, no cinema, se o mesmo ocorre, todo o conjunto naufraga.
Uma má fotografia pode até sobreviver a um filme com ótimas atuações, mas um filme com excelente fotografia e performances ruins é um desastre. Sem atuações críveis, nada se sustenta.
Mas nada me parece mais difí­cil e delicado do que a direção dos atores. Primeiro, porque a direção é quase um casamento, depende de confiança absoluta. O diretor coloca seu bem mais precioso nas mãos do ator – o seu filme – e o ator tem que se abrir e jogar de cabeça no território das emoções, crendo que o diretor saberá guiá-lo neste lamaçal, rumo aos sentimentos corretos para uma boa atuação.
Segundo, porque dirigir atores demanda principalmente intuição e disposição para o risco e o mico. Tem pouco de intelectual e muito de tentativa e erro, de processo, de experiência. Nada nos ensina a fazê-lo, a não ser tentar.
Eu ainda me sinto quase absolutamente desarmado neste território. Ainda não sei fazer pouco mais que pedir resultados – o pior tipo de direção -, mas vou tentando perder o medo.
Apesar de que só a prá¡tica ensina, um pouco de teoria pode apontar o rumo certo e também nos fornecer o impulso de buscar. Daí­, como prometido, a tradução da introdução do livro de Judith Weston “Directing Actors”, um excelente começo sobre este tema.

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2 Comments

  1. filipe escreveu:

    bicho,

    eu não consigo ouvir esse papo de “qual o papel do diretor?” ou “como deve se comportar um bom diretor para tirar o máximo da sua equipe?” ou ainda sobre como deve ser o processo de formação de um bom diretor, sem me lembrar (imediatamente) de duas coisas:

    a forma como lars von trier se relaciona com “seus atores”;

    a idéia do milos forman, durante a gravação de one flew over de cuckoo´s nest, de confinar os atores num manicômio antes de começar as gravações. aliado a isso, suas longas tomadas sem informar aos atores aonde, como e quando as câmeras os enquadrariam, produziram resultados memoráveis.

    existe alguma apostila pra aprender essas coisas?

    Comentário de 18-1-2008 @ 10:09 pm

  2. bruno costa escreveu:

    Concordo plenamente com você. No cinema nacional, praticamente não existe direção de ator (ou ela é ruim). Por outro lado, uma boa direção de ator ainda depende muito de bons diálogos para que se alcance um resultado, outro problema nunca resolvido pelo nosso cinema: os diálogos são um fiasco! E não se diga que os diálogos dependem do roteiro, não dependem. Hoje em dia é comum nas grandes e médias produções um, dois, três sujeitos para cuidar apenas dos diálogos. Assisti outro dia ao São Paulo S.A, do Person. Movimentos interessantíssimos de câmera e uma boa fotografia são soterrados por uma das piores, mais medíocres e lamentáveis atuações de toda a nossa história; a do Walmor Chagas, o protagonista. PQP! QUE MERDA! E assim, o que poderia ser um bom filme, acaba escorrendo pelo ralo…

    Comentário de 19-1-2008 @ 1:12 pm

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