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Fundamentalismo Eclético

WBC

Nesta última sexta, vi uma das coisas mais bizarras dos últimos tempos. Alguém aí também assistiu a “A Família mais Odiada da América”, no GNT?

Sempre gostei das reportagens de viagens do Louis Theroux, [1] que também já foram exibidas pelo GNT. Ele tem um jeito ao mesmo tempo honesto e respeitosamente cético com seus objetos que rende excelentes entrevistas e imagens.

Numa série de reportagens em que segue trabalhando para a BBC, Louis, que é filho do escritor Paul Theroux e cidadão britânico e americano, aborda, em viagens pelos EUA, temas como cirurgias plásticas e adição ao jogo. Neste primeiro episódio escolhido pelo GNT para exibição no Brasil, ele visita a Westboro Baptist Church [2].

Trata-se de uma igreja de orientação batista – embora não-afiliada a ou reconhecida por nenhuma associação ou linha batista formal nos EUA – constituída essencialmente por membros de uma mesma família – a comunidade toda se limita a 75 pessoas -, com sede em Topeka, estado do Kansas, e conhecida nos EUA por sua virulenta homofobia e pelos protestos em funerais de militares americanos mortos no Afeganistão e no Iraque. Crêem eles que o mundo está perdido, que os EUA são uma nação depravada, e que as mortes no Iraque são atos de ira divina, pelo serviço destes militares a uma nação afundada na luxúria e no despudor. Na verdade, como se pode observar em seu site oficial “God Hates Fags” [3] (literalmente “Deus Odeia as Bichas”), toda e qualquer morte por catástrofe, natural ou provocada pelo homem, é comemorada pela igreja, que a toma como resposta divina aos pecadores.

É absolutamente bizarro e um pouco assustador, embora risível. Para se ter idéia, estas pessoas planejaram, por exemplo, um protesto para o funeral das vítimas do massacre na escola amish, na Pensilvânia, em 2006. Em seus cartazes, a WBC chamava as meninas mortas de “putas” (whores) e dizia que elas já “estavam queimando no inferno”. Os membros da igreja foram dissuadidos por um radialista que , em troca de sua desistência, ofereceu-lhes uma hora em seu programa de rádio.

Além da homofobia, a igreja tem declarações anti-semitas, anti-islâmicas, anti-católicas, contra a Suécia, como uma país defensor de homossexuais (o pastor Phelps [4], patriarca da igreja, atribuiu o alto número de mortos suecos no tsunami do Oceano Índico a isso), contra a Irlanda, a favor de Al Gore – por declarações pretéritas contra um projeto de lei pró-gays -, contra Bill e Hillary, a favor de Fidel Castro e a favor e contra Saddam Husseim.

Independente de tudo isso, o que mais impressiona na reportagem de Theroux é o fato de que nenhum dos membros da igreja abre a guarda em momento algum. Cada vez mais boquiaberto, o telespectador cria a expectativa de que, no momento seguinte, um deles haverá de ceder à lógica e conceder uma vitória às perguntas diretas de um entrevistador cada vez mais abismado. Alguém irá ver que está se contradizendo, vai gaguejar e recorrer a impropérios e à raiva, o que já seria algo. Mas não, friamente, as resposta seguem sempre na mesma linha. O único a vacilar é um pequeno membro da igreja, um neto de Phelps, com quatro ou cinco anos, que ao ler para Theroux uma série de regras de comportamento faz uma parêntese a “não mentir”, dizendo que “algumas pessoas às vezes mentem, principalmente quando são crianças”.

Theroux pergunta: “eu acredito que cada um deve poder fazer sexo com quem achar melhor, tenho uma filha com minha namorada e não sou casado? Eu vou pro inferno? A interlocutora sorri e responde que sim. “Você fica feliz com isso?” Ela torna a sorrir e a dizer que sim.

Acho que vale à pena assistir. Na verdade, não sei se eles merecem. Mas como fiquei chocado, resolvi compartilhar. Veja aqui [5] as exibições programadas deste e de outros episódios da série.

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#1 Comment By Rosa On 11/02/2008 @ 8:27 pm

Que coincidência interessante, Pedro!
Ontem à noite assiti na TV pública daqui um dos programas do Theroux (de quem eu já gostava desde os tempos em que via pelo GNT). Neste ele vai à Las Vegas e tenta entender porque “aquelas” pessoas vão “praquele” lugar “perder” tanto dinheiro. Fui dormir pensando no que vi, acordei com algumas idéias a respeito e dei de cara com seu tópico quando tomava café.
Gosto muito da cara de “desconforto” do repórter, que apesar de bem simpático (em geral os entrevistados vão com a cara dele), sempre acha um momento certo pra fazer perguntas pertinentes, mas que sempre soam muito racionais e diretas pro absurdo em que vai se tornando a estória toda.
Chocou-me muito um programa (visto ainda no Brasil) sobre racistas extremistas no interior dos EUA. Crianças aprendendo musiquinhas com letras assustadoras como “negros estripados” me tiraram o sono.
Estou ansiosa pra este programa sobre essa família chegar por aqui. Quem sabe perderei mais algumas horas de sono ou darei boas risadas.
Beijo

#2 Comment By daniel christino On 11/02/2008 @ 10:58 pm

Bizarro. Eu fiquei pensando comigo que tipo de “jornalismo” esse cara estaria fazendo e, puff!, me dei conta de que é um tipo um tanto sofisticado de gonzo jornalismo. Pena não existir esta mais desta tradição aqui no Brasil. É uma coisa americana que valeria a pena copiar em maior escala.

#3 Comment By yuri vieira On 15/02/2008 @ 3:00 pm

Eu só assisti a um episódio do programa desse cara, a saber, [1], no qual viajou até a Índia para entrevistar diversos gurus. O encontro que mais me chamou a atenção foi com a guru [6], aquela que distribui às multidões abraços, digamos, transcendentais. O Theroux ficou horas na fila fazendo comentários levemente irônicos, mas, após o abraço, ficou com uma cara de pastel, emocionado, dizendo que algo que não sabe explicar lhe aconteceu.
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#4 Comment By daniel christino On 17/02/2008 @ 1:54 am

Vai ver o guru ficou “feliz” em ver o cara.

#5 Comment By daniel christino On 17/02/2008 @ 1:56 am

Xi, ele é ela. Então foi o cara que ficou feliz…