14/02/2008

O delírio, segundo Dawkins

daniel christino, 11:47 pm
Filed under: Ciência,Política,Religião

O livro, como um todo, não passa de um grande panfleto. É escrito em linguagem comum e, realmente, não creio que seja sensato esperar de um cientista uma argumentação filosófica erudita e profunda sobre um fenômeno que, claramente, o incomoda apenas em seu aspecto político. Dawkins já resolveu, para si mesmo, a questão; e está discutindo com o cidadão médio que ele acredita ser capaz de cair nas armadilhas retóricas de gente como o tal patriarca da família maluca que o Louis Theroux mostrou no documentário (eu vi e até agora acho difícil acreditar).

Por outro lado isso não invalida o núcleo de sua argumentação. De tudo o que eu li, o argumento que o Dawkins considera mais relevante é contra a inferência do Design, ou seja, a idéia de que podemos derivar da complexidade de um objeto o fato de que ele foi feito por uma consciência racional. O contra-argumento dele envolve uma analogia muito interessante com um 747. Vou citar o Dawkins:

O nome vem da interessante imagem do Boeing 747 e do ferro-velho de Fred Hoyle. (…) Hoyle disse que a probabilidade de a vida ter surgido na Terra não é maior que a chance de um furacão, ao passar por um ferro-velho, ter a sorte de construir um 747.

Pois é, esta não é primeira vez que ele cita este exemplo. Noutro livro – acho que em “A escalada do monte improvável” – ele atribui o argumento aos físicos um tanto céticos em relação à teoria da evolução (ele chama de darwinismo). Segundo ele, o argumento só é plausível para quem pensa a evolução a partir do acaso, quando, na verdade, ela se assemelha mais a um processo cumulativo. A vida não se desenvolveu num segundo, ela gastou milhões de anos e milhões de combinações até dar um pequeno passo. Este passo, por sua vez, gastou outro tanto de tempo para melhorar. O segredo da evolução, diz Dawkins, é que ela preserva os aspectos funcionais – de acordo com um ambiente – e apenas estes, através da seleção natural. O que, então, parece algo extremamente improvável torna-se quase natural. Mas no caso específico de Deus o problema é outro.

Por mais estatisticamente improvável que for a entidade que se queira explicar através da invocação de um designer, o próprio designer tem de ser, no mínimo, tão improvável quanto ela. Deus é o Boeing 747 definitivo.

O argumento é bom, dentro do âmbito restrito do design inteligente. Dito de outro modo, a improbabilidade de um determinado objeto (ou estado de coisas) não prova a existência de um agente causador, em si mesmo, provavelmente tão improvável quanto o objeto. A não ser, é claro, que suponhamos que Deus seja um sistema complexo (algo como um sentido emergente), o que não é possível; sua aceitação implodiria toda a concepção tradicional de Deus (como uma consciência volitiva). A conseqüência é bem direta: se Deus é a explicação de algo, ele mesmo não se explica. Eu diria que é a falácia naturalista de Hume outra vez nos olhando por sobre o ombro. Dizia Hume: “daquilo que é, não podemos derivar o que deve ser”. Simples e direto.

Mas aí alguém diz: “ora, eu vejo o sol nascer todo dia. Daí, eu posso inferir com boa dose de acerto que ele nascerá amanhã!”. E pode, de fato. Mas o argumento de Hume era contra o racionalismo cartesiano, ou seja, contra uma dedução lógica necessária. Em lógica, necessário é tudo aquilo que não pode ser de outro modo senão daquele que é. Assim, dos axiomas euclidianos sobre o plano e a reta, segue-se, necessariamente, que duas retas não podem se encontrar. Desse modo, do fato de que o sol vem nascendo todos os dias desde sempre, não posso inferir necessariamente que ele nascerá amanhã. Contudo, é bastante provável que sim.

Se você fizer o mesmo raciocínio em relação ao Dawkins, pronto! Você tá ferrado. O argumento geral do livro é o de que não se pode afirmar, com certeza, se Deus existe ou não, mas é possível argumentar que sua existência é mais improvável do que provável. Ele resume seu argumento a 6 premissas:

1. Um dos grandes desafios para o intelecto humano, ao longo de séculos, vem sendo explicar de onde vem a aparência complexa e improvável de design no universo.

2. A tentação natural é atribuir a aparência de design a um design verdadeiro. No caso de um artefato de fabricação humana, como um relógio, o projetista realmente era um engenheiro inteligente. É tentador aplicar a mesma lógica a um olho ou a uma asa, a uma aranha ou uma pessoa.

3. A tentação é falsa, porque a hipótese de que haja um projetista suscita imediatamente o problema maior sobre quem projetou o projetista. O problema que tínhamos em nossas mãos quando começamos era o da improbabilidade estatística. Obviamente não é solução postular uma coisa ainda mais improvável. Precisamos de um “guindaste”, não de um “guincho celeste”, pois apenas um guindaste é capaz de avançar de forma gradativa e plausível da simplicidade para a complexidade, que de outra maneira seria impossível.

4. O guindaste mais engenhoso e poderoso descoberto até agora é a evolução darwiniana, pela seleção natural. Darwin e seus sucessores mostraram como as criaturas vivas, com sua improbabilidade estatística espetacular e enorme aparência de ter sido projetadas, evoluíram através de degraus gradativos, a partir de um início simples. Podemos dizer hoje com segurança que a ilusão do design nas criaturas vivas não passa disso – uma ilusão.

5. Não temos ainda um guindaste equivalente para a física. Alguma teoria do tipo da do multiverso pode, em princípio fazer pela física o mesmo trabalho explanatório que o darwinismo fez pela biologia. Esse tipo de explicação é, na superfície, menos satisfatório que a versão biológica do darwinismo, porque faz exigências maiores à sorte. Mas o princípio antrópico nos dá o direito de postular uma dose de sorte bem maior que aquela com a qual nossa intuição humana limitada consegue se sentir confortável.

6. Não devemos perder a esperança de que surja um guindaste melhor na física, algo tão poderoso quanto o darwinismo é para a biologia. Mas, mesmo na ausência de um guindaste altamente satisfatório equivalente ao biológico, os guindastes relativamente fracos que temos hoje são, com a ajuda do princípio antrópico, obviamente melhores que a hipótese contraproducente de um guincho celeste, o projetista inteligente.

O princípio antrópico ao qual ele ser refere pode ser explicado assim: estamos aqui, na Terra! Disso, podemos inferir que as condições para que a vida se dê, do ponto de vista estritamente material, realmente se deram, do contrário não existiríamos. Se somos possíveis, é também possível toda a cadeia de dominós que nos trouxe até aqui. Segundo os teístas, o piparote que deu início à derrocada dos dominós foi de Deus. Para Dawkins, entretanto, a plausibilidade desta tese depende da improbabilidade de um acontecimento tal como o surgimento da vida a partir de algo não vivo. Ou seja, novamente, a singularidade do evento. Ele contra-argumenta assim:

Os cientistas invocam a mágica dos números enormes. Já se estimou que haja entre 1 bilhão e 30 bilhões de planetas em nossa galáxia, e cerca de 100 bilhões de galáxias no universo. Eliminando alguns zeros por pura prudência, 1 bilhão de bilhões é uma estimativa conservadora do número de planetas disponíveis no universo. Suponha que a origem da vida, o surgimento espontâneo de alguma coisa equivalente ao DNA, realmente seja um evento incrivelmente improvável. Suponho que seja tão improvável que aconteça em apenas um entre 1 bilhão de planetas. (…) Mesmo assim…mesmo com probabilidades tão absurdamente escassas, a vida ainda teria surgido em 1 bilhão de planetas – entre os quais está, é claro, a Terra. A conclusão é tão surpreendente que vou repeti-la. Se a probabilidade de a vida surgir espontaneamente num planeta fosse de uma em um bilhão, mesmo assim esse evento embasbacadoramente improvável teria acontecido em 1 bilhão de planetas.

Este é, segundo o próprio Dawkins, o núcleo do livro. O resto é a tal polêmica rasteira contra a religião. Independente do grau de pobreza erudita com o qual ele discute com a tradição, se levarmos o argumento acima a sério (e teríamos motivo para não fazê-lo?), ainda não apareceu nenhuma resenha – pelo menos eu não vi – com um contra-argumento suficientemente bom. Eu não vejo como podemos salvar a idéia do design inteligente. Aliás, noutra oportunidade comento um livro do Daniel Dennett sobre sistemas intencionais que tem muito a ver com a questão de porque antropomorfizamos muitos eventos na natureza.

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