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Viver está ficando perigoso demais…

Quando eu era menino o final de junho geralmente significava duas coisas muito boas: festa junina e férias. As férias, por sua vez, desdobravam-se em vários subtemas (futebol, viagens, brincadeiras de rua, etc.). Dentre estes, o mais desejado e esperado era soltar raia (ou pipa, dependendo do modelo aerodinâmico em questão).

A expressão em si já é deliciosa. “Soltar raia”. Soltar. Deixar ir, liberar. Não eram tanto os constructos de papel e taboca, mas nós mesmos que nos liberávamos na brincadeira. Sujos, soltos e barulhentos corríamos pelas ruas do setor Fama.

A logística da brincadeira era a seguinte: acordávamos lá pelas nove horas da manhã e começávamos a juntar as peças. Papel impermeável, linha, taboca (apanhada às margens do Anicuns ou do Capim Puba), cola, vidro (lâmpadas fluorescentes ou, quando não dava, garrafas de vidro transparente) e plástico para as rabiolas. Depois do almoço nos dividíamos. Um grupo construía a raia ou pipa e outro preparava o cerol.

Fazer o cerol era mais uma questão de força e persistência do que talento. Com uma barra de ferro amassávamos incansavelmente o vidro numa lata de óleo de soja até que não sobrasse nada além de um pó fino – tão parecido com açúcar refinado que o irmão mais novo de um dos moleques adoçou um copo de leite com ele, felizmente tomou apenas um gole antes de perceber que o pó não era nada doce. O cerol era então misturado com cola tenaz e um pouco de água. Aí vinha a parte onde era necessária alguma habilidade. A mistura era feita na palma da mão e aplicada na linha (10) esticada entre dois postes. Era importante dar entre dois ou três “toques” para que a camada de cerol não ficasse muito grossa, dificultando o manejo da raia durante uma “guerra”. O número de toques variava de acordo com a composição do cerol. Eu era bom nisso, apesar de ser uma negação em engenharia de pipas. Meu amigo Gláucio era um construtor muito mais habilidoso.

Subir a raia não tinha segredo. Era só esperar o vento certo e dar linha. Isso se o lugar estivesse desempedido de árvores e fios, do contrário a ação requeria certa dose de controle para desviar dos obstáculos. Uma raia bem feita, entretanto, subia reta como um raio.

Eu também era bom em guerrear. Pura física intuitiva. Era preciso calcular a distância entre as raias, conhecer o modo como a raia se comportava ao “dar de bica”, isto é, virar 180º sobre o próprio eixo e mergulhar em direção ao solo. Neste movimento a raia aumentava seu peso em função da resistência do ar. Se, num mergulho destes, cruzasse a linha de outra raia era necessário “dar linha” imediatamente, de modo que a raia perdesse peso e o cerol pudesse agir. Se a sua linha estivesse muito tencionada seria facilmente cortada pela outra linha. Aí está a habilidade de quem aplica um bom cerol. Ele é capaz de cortar a outra linha mais rápido, evitando danos à sua própria.

Era bonito. Subitamente uma das raias perdia a “vida”, abandonando-se ao vento como um objeto inerte, como um brinquedo quebrado. Quando acontecia conosco era realmente semelhante a uma morte. Todo um dia de trabalho perdido sem rumo no céu azul das tardes de julho. Isso sem falar no orgulho ferido, afinal alguém foi melhor do nós naquilo que mais gostávamos de fazer.

Em nenhum momento nos preocupávamos com a segurança de quem passava pela rua, seja de moto ou bicicleta. Nunca tivemos um acidente, apesar de alguém sempre contar uma história escabrosa sobre um motociclista que perdeu a cabeça por causa do cerol de alguém. Havia menos gente dirigindo apressada pelas ruas então. E nunca consegui imaginar nada de proibitivo nesta brincadeira. Assim como soltar balão, soltar raia está ficando cada vez mais difícil e perigoso [1]; há cada vez mais regulação. A medida que o mundo avança em seu giro interminável sobre si mesmo, as coisas que antes nos soltavam estão agora a nos prender. A simples idéia de que estamos criando espaços “próprios” para soltar pipa me é repulsiva. Nada está “solto” quando circunscrito ao cercadinho. A idéia de liberdade associada à engenhosidade humana que compunha o core da brincadeira de soltar pipa vai se perdendo a medida em que racionalizamos os espaços de convivência. É também um modelo mental que se vai. Usar o conhecimento como ferramenta de liberação, alcançando os céus a partir de nossa engenhosidade e trabalho de equipe, desenha uma paisagem mental importante. Este liame entre liberdade, conhecimento e natureza é, no fundo, a essência do espírito científico. Os adultos que inventem uma outra maneira de se proteger das crianças.

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