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O Cavaleiro das Trevas

Se vocês querem uma opinião imediata, na bucha, eu diria: é o melhor filme de super-herói de todos os tempos. Heath Ledger está terrível, diabólico como o Coringa. Quase tudo funciona perfeitamente. Christopher Nolan é o cara.

Agora, com calma.

A revolução que os autores de HQ da década de 80 fizeram com o personagem finalmente chegou às telas. Demorou muito. Em 1987 Frank Miller publicava a mini Cavaleiro das Trevas [1] transformando o herói existencialista do início da década numa máquina militarizada de violência, arrogância e sadismo. A intenção de Miller é apresentar o personagem como uma força incontrolável, cujas ações são guiadas por uma lógica de ferro: o Mal deve ser punido, não importa os meios. O ponto alto é a luta entre ele e o Super-homem. Apesar de terem o mesmo nome, o filme não é inspirado pelo trabalho de Miller.

A mini, juntamente com Asilo Arkham e O longo dia das bruxas [2], deu mais profundidade ao personagem, estabelecendo a base psicológica final para a dramatis personae Batman. Ao mesmo tempo indicaram o cenário no qual esta construção funcionaria melhor: uma sociedade ou cidade em crise, à beira da destruição. Batman é uma figura extrema e funciona melhor quando apresentado contra uma cenografia igualmente extrema. Mais ainda do que no filme anterior, Gotham City desmorona, implode. O apelo da justiça ao medo é sempre um apelo desesperado.

É aqui que a figura do Coringa ganha relevância. Esqueça Jack Nicolson. A estética cartunesca de Tim Burton obrigou o ator a construir um personagem malvado, porém meio biruta, meio desenho animado. Não é o caso. O Coringa de Ledger é perverso, insano e genial. A certa altura temos a impressão de que Batman mais parece uma bola de tênis quicando de um lado para outro em Gotham, obedecendo aos caprichos milimetricamente calculados do Coringa. O relacionamento entre os dois personagens ganhou sua expressão mais sofisticada em A piada mortal de Alan Moore. O filme deixa claro sua inspiração na HQ. “Você me completa”, diz o Coringa. É como se Batman e Coringa fossem duas faces da mesma moeda.

Aqui o roteiro dos irmãos Nolan apresenta-se como um dos grandes trunfos do filme (embora, em nome do didatismo hollywoodiano, ele se explique demais através das falas do mordomo Alfred). Há várias tramas se desenrolando ao mesmo tempo, e cada uma delas caminha, de modo lento e inexorável, em direção à oposição entre Batman e Coringa. É o eixo de gravidade do filme. Para os dois o sentido da ação é evidentemente moral (a cena em que ele “atormenta” Harvey Dent no hospital é digna de mefistófeles), e sua resolução está vinculada a um velho cenário da teoria dos jogos. A luta dos dois, contudo, não é meramente uma luta entre os dois. Há algo maior em jogo, mais profundo. Como toda ficção de qualidade, O Cavaleiro das Trevas nos faz refletir sobre nossas escolhas morais e o modo como nossas ações determinam quem somos e o mundo no qual vivemos. Como diz Hannah Arendt, escolher como agir é também escolher o mundo no qual nossa ação faz algum sentido. E, supreendentemente, nem Batman nem Coringa podem existir num mundo sadio. Eles são, ambos, sintomas diferentes da mesma doença. E aí está o que um amigo meu chamou o “cinismo” do filme. Entre o caos destruidor e a ordem autoritária não nos resta outra opção senão rejeitar ambos. Esta é a dádiva do Coringa ao Batman e a Gotham City. “Why so serious?”

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Comments Disabled To "O Cavaleiro das Trevas"

#1 Comment By aron On 20/07/2008 @ 12:48 pm

depois de Hancock, estou com receio de ver filmes de herói. mas a morte do Ledger estranhamente me atrai, ele deve ter feito um puta personagem.

OBS1: Hannah Arendt é legal
OBS2: porque você usou mefistófeles ao invés de capeta?
OBS3: veja Wall-E

#2 Comment By daniel christino On 20/07/2008 @ 2:08 pm

Eu já vi Wall-E e achei muito bom.

Mefistófeles é uma das várias faces que o diabo assumiu na literatura mundial. Segundo o Harold Bloom se você gosta do trágico, então tem de admirar o diabo (como figura literária, é claro). A ênfase, neste caso, é na capacidade de sedução intelectual. O Coringa é uma mistura de Bobo-da-corte e demônio e seduz pela inteligência. O que ele diz sobre Gotham, sobre o pequeno cosmos do filme, é de uma lucidez acachapante. Tudo está, de fato, se desagregando e a racionalidade que o Batman representa não parece dar conta do recado. “Sorria! E o mundo sorrirá com você”.

#3 Comment By filipe On 20/07/2008 @ 6:25 pm

daniel,

eu ficava encabulado com o fato de christopher nolan ter topado dirigir os longas sobre o batman. tinha quase certeza de que ele faria ótimos filmes, mas pensava na perda de tempo que seria pra sua carreira. quem já viu os filmes anteriores do nolan sabe do que eu estou falando. ele é muito bom, muito mesmo. claro, nao estamos falando por exemplo do george lucas – 30 anos investindo em guerra nas estrelas – mas eu pensava nos trabalhos que o nolan poderia ter feito nesse período. no entanto, por gostar do homem morcego, senti um tanto de satisfação. o joel schumacher tinha conseguido acabar com o batman nos últimos filmes.

não assisti ainda o cavaleiro das trevas, mas o farei em breve. a adaptação que tem sido feita (por nolan) é digna de chavões como o teu: o melhor filme de super-herói de todos os tempos. tudo tem saído perfeitamente bem: cristian bale criou um ótimo bruce/batman; gary oldman, embora muito discreto, tem feito um ótimo comissário gordon; o mesmo vale pro michael caine; o batmóvel, roupa e bugigangas do homem morcego, o período de treinamento com o liam neeson, gotham city fudida a deus dará bla bla bla bla.

a única nota realmente lamentável é a morte do ledger. se ele fez tudo isso que todos andam dizendo, será uma grande perda. seus últimos trabalhos renderam ótimas críticas, como já foi bastante noticiado no seu pos-mortem. a faceta do dylan que ele interpretou em im not there é extonteante. vale salientar aqui que o cara tinha fortes tendências à direção, tendo o feito alguns clipes e curtas. inclusive, um amigo meu já comentara que a morte do ledger, da forma como ocorreu, não foi tão inesperada para quem convivia seus trabalhos. o jack nicholson, que ajudou o heath na construção do novo coringa, havia comentado sobre a alteração marcante no estado psicológico do ator ao fim das gravações. junto a isso, salienta-se o gosto demasiado do ledger pelo nick drake, cantor e compositor britânico morto prematuramente aos 26 anos e tema do seu curta black eyed dog. perdoem-me o humor negro, mas coringa + jack nicholson + nick drake = morte certa. uma pena, uma pena mesmo.

#4 Comment By daniel christino On 20/07/2008 @ 9:59 pm

Exatamente filipe. Eu nem dei muita bola para a morte do cara, mas depois de assistir ao filme fiquei meio triste. É uma pena. O cara era um ótimo ator e poderia ter sido grande.

Dizem por aí que o Jack Nicolson comentou de modo meio misterioso a morte do Heath Ledger (teria dito algo como “eu avisei”). Sinceramente, o coringa do Ledger é muito melhor. Ele dá um espírito de Clube da Luta ao filme.

Cavaleiro das Trevas não é uma aventura, como costumam ser os filmes de super-herói. É um drama. Não é uma obra de arte, no sentido pleno do termo, porém deixa claro que o universo ficcional pop dos super-heróis pode ser muito mais interessante e profundo do que é atualmente. Tinha que ser com o Batman, o mais complexo dos personagens da DC (excetuando, talvez, o Monstro do Pântano). Na minha opinião o outro único super-herói com potencial para o mesmo tipo de abordagem é o Wolverine, só que o Hugh Jackman não parece estar indo por essa via. Quem sabe o sucesso do filme do Morcegão (custou 180 milhões e só no fim de semana de estréia faturou 155 milhões) não muda os planos do cara.

#5 Comment By rodrigo fiume On 21/07/2008 @ 12:59 am

É o melhor filme de quadrinhos q já vi. Tinha lido as críticas superelogiosas, etc, mas fiquei surpreso.
Abs. R.

#6 Comment By filipe On 21/07/2008 @ 8:47 am

será um ponto bastante controverso, daniel, essa questão de “qual o melhor coringa?”. é meio equivocado da minha parte falar isso (já que não vi o filme ainda), mas o coringa de nicholson vai ser sempre imbatível. desculpe, mas nesse ponto eu sou meio radical. vc possivelmente me convenceria de que o ledger fez um trabalho genial, mas eu penso que o nicholson foi o primeiro coadjuvante (vilão) a tentar desafiar o papel de destaque do personagem principal (mocinho). refiro-me aqui especificamente aos filmes de super-heróis. ele, de fato, criou uma identidade própria e desafiadora pro personagem, abrindo precedência pros demais vilões, vamos dizer assim. na minha lista dos melhores, ele sempre esteve ao lado do vader no topo.

por favor, perdoe minha teimosia. foi um evento importante pra minha infância (o coringa do nicholson) e não posso abandoná-lo nesse momento. freud deve explicar.

#7 Comment By daniel christino On 21/07/2008 @ 6:39 pm

Uma questão polêmica, de fato. Principalmente porque são duas concepções bastante diferentes do mesmo universo. Mas o Jack Nicholson tinha duas vantagens em relação ao Heath Ledger: seu parceiro de cena era o Michael Keaton.(Revi o filme estes dias no Warner Channel. Ninguém merece o cara), e ele não tinha um “Jack Nicholson” nas suas costas.

A tentativa do Ledger de interpretar o Coringa é parecida com a de um ator aceitando interpretar o Coronel Kurtz de Apocalipse Now num possível remake (aliás o John Malcovich tentou e afundou).

No meu caso a culpa nem deve ser do Jack Nicholson. É que eu gosto mais do modo como o Nolan vê o universo dos super-heróis. Tim Burton é um cara acima da média, sem dúvida, mas no filme ele fica sempre no meio do caminho e não consegue assinar completamente a obra, entende? Eu fico imaginando que, se tivesse liberdade criativa total, o Tim Burton faria o Batman parecido com o Cavaleiro Sem Cabeça. Creepy and funny.

De qualquer modo, veja o filme e depois me diga o que achou.

#8 Comment By yuri vieira On 22/07/2008 @ 11:53 am

Ainda não assisti ao filme, mas também estou curioso. Principalmente porque nunca — NUNCA — sou cooptado por filmes e HQs de super-herói. Nem na minha infância. Assisto e depois jogo na lata do lixo da minha consciência. Mal me recordo do Jack Nicholson e seu Coringa. Quando criança comprei apenas dois gibis do Homem-Aranha e três do Fantasma. As únicas HQs que realmente curtia eram a Calafrio (nunca me esquecerei das vampiras gostosas e da estória do necrófilo), a Mad e a Chiclete com Banana. Ah, quando bem pequeno, também costumava achar que a Turma da Mônica era um universo paralelo e as revistinhas eram as notícias desse mundo. Fora isso… Enfim, vamos ver se esse filme me engana. Porque, como eterno fã do Drácula (meu único e verdadeiro super-herói), sempre achei essa história de Homem-Morcego uma imitação sem graça do amigo vampiro, principalmente no quesito “chupação de sangue feminino”, que não existe no Batman. Que vida mais chata…

Quanto ao Ledger, espero qualquer coisa do cara. Só aquele “cowgay” dele já foi foda. É o tipo de trabalho que eu, no lugar dele, teria pensado: não faço, logo, não sou mesmo um ator… Mas ele é — ainda é em algum lugar — e arrebentou.
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#9 Comment By daniel christino On 22/07/2008 @ 1:09 pm

Eu lembro que comecei a prestar maior atenção ao universo das HQs por causa da Flickts. Estes dias encontrei com o Dennis – o antigo dono – numa sessão do filme “30 dias de escuridão”. Eu e ele tínhamos a HQ e fomos conferir a adaptação.

Há dois tipos de HQs de super-heróis. Aquelas vendidas em bancas todos os meses – e são um saco porque sempre há um próximo capítulo que é, na verdade, um gancho para vender a edição seguinte – e as graphic novels. Valentina, por exemplo, é uma GN. Drunna também. São obras completas, “fechadas” e que dialogam com o cinema, as artes plásticas, o design, a literatura e até com o jornalismo.

Eu vejo as GN de super-herói como laboratórios narrativos dos arquétipos do herói e do vilão, ou seja, do melodrama clássico. Ajudam a entender melhor e a criar novas possibilidades dramáticas e estéticas destes personagens. São também ótimas introduções à literatura e ao cinema. Além de educar o olhar, apresentando novas estéticas ou popularizando estilos até então restritos ao campo das artes plásticas. Mas, acima de tudo, eu gosto.

#10 Comment By Rodrigo Fiume On 22/07/2008 @ 2:20 pm

Se vc conseguir se esquecer de que há caras fantasiados no filme, verá que a história com seu fundo de ética e moral funciona bem. E isso tornou o filme bom.
Abs.
R.

#11 Comment By aron On 26/07/2008 @ 7:18 pm

este coringa deixou de ser um “looney toon” cirminoso, como filme do Tim Burton (apesar da boa atuação de Nicholson), para um cara simplesmente insano. o impactante é que a caracterização nos aproxima do personagem, nos faz, de certa forma, simpatizar e/ou ver um pouco do coringa em nós. não tem aquele papo maniqueísta ingênuo.

o filme é bom mesmo, atuações de peso pra todo o lado, com muitos méritos para Ledger e outros para o Bale e o Eckhart (passei a gostar dele depois de Obrigado por fumar). boa direção também, melhor que no anterior. eles podiam diminuir um pouco a auto-explicação do filme, mas isso não chega a estragar alguam cena. talvez só o final tenha ficado explicado demais, com um pouco de observação e pensamento dava pra enteder pelo que o batman optou. a única coisa que me incomodou um pouco foi a trilha sonora, mal utilizada em alguns momentos.

em geral o filme é ótimo e tem uma densidade que nunca vi nesse tipo de filme. já passou da hora das HQ’s serem mais respeitadas, saiu muita merda no gênero “herói” ultimamente.

#12 Comment By yuri vieira On 27/07/2008 @ 3:03 pm

Assisti ao filme no chiquérrimo [3]. É o shopping center mais exclusivo da América do Sul, o que significa que, em seus corredores, vc encontrará adolescentes saídos de uma versão tupiniquim dos seriados The O.C. e The Gossip Girl, além de muitas madames ricaças, modelos e peruas milionárias em geral. Um passeio bastante educativo…

No entanto, continuo não gostando de filmes de super-heróis. Sim, o coringa é ótimo, mas… puts!… que tédio. Quase cochilo nas “cenas de ação”. E a seqüência de reviravoltas é tão frenética que mal dá tempo de meditar nos supostos “dilemas morais”. Aliás, me cansa ver alguém achando que pode estar moralmente equivocado apenas porque alguém “do mal” joga a própria culpa sobre as decisões do primeiro. “Se vc não aparecer, matarei mais tantos…” Quem mata é que causa a ação, não a vítima da chantagem. Essa trapaça não pode contaminar uma consciência sã. Ao menos o “dilema moral” das duas barcas termina de um modo bem interessante: nem todos estão moralmente doentes como o coringa… Mas é tudo muito chato… Se esse é o melhor filme do Batman, não preciso assistir a mais nenhum.
{}’s

#13 Comment By filipe On 27/07/2008 @ 10:04 pm

ééééé…eu concordo com o yuri.
e digo mais:
prefiro ESPELHO.

os comentários sobre o público do shopping são ótimos. a primeira vez que fui em sp, dei uma passada nesse shopping pra ver um filme. mas por ser a primeira vez na cidade, nem tinha noção dessa “caracterização social” do lugar. fui de chinelo, bermuda e camisa regata. a turma conseguia transmitir no olhar a mensagem: SUA AMEBA! o melhor é que na página do shopping, estava em destaque alguma coisa do tipo LUGAR ECLÉTICO, CAPAZ DE MISTURAR A CONCEITUADA LOJA NUM SEI O QUE LÁ COM O DESPOJAMENTO DA LOJA DE SICRANO. bizarríssimo.

#14 Comment By daniel christino On 28/07/2008 @ 2:06 am

Mas Yuri eu não acho que o dilema moral atrelado às mortes se dá nestes termos. A “chantagem” se baseia no fato de que o próprio Coringa é uma criação do Batman. “Você me completa”, ele diz. É neste sentido que ele se sente responsável e não pelos assassinatos em si. Há, também, uma boa dose de metalinguagem nisso.

O Coringa, por sua vez, sabe que as ações do Batman também são “contra” a lei. Seu argumento é o de que ambos habitam uma região moral própria, talvez até mais profunda, na qual está em jogo “a alma da cidade” (e não são eles símbolos do bem e do mal?). Na visão dele valores morais são regras normativas, modos de organizar a vida em comum. Estes valores podem ser racionalmente justificados e repousam numa idéia universal de humanidade. Mas o Coringa não acredita que isso funcione de verdade. Sua prova consiste em mostrar que o ser humano, quando colocado contra a parede, torna-se uma espécie de animal, para o qual o único imperativo é o da sobrevivência. Esta noção de homem universal, o Coringa quer mostrar, é apenas um “flatus vocis”.

O dilema do prisioneiro, ilustrado pelas barcas, deixa claro que não é assim. Por isso o Coringa volta-se para o promotor da cidade, o cavaleiro branco, Harvey Dent. A tensão moral do filme é evidente na figura do duas-caras. Só que o Coringa seduz o promotor. É a cena do hospital, clássica representação da tentação diabólica. O duas-caras sucumbe ao adotar a sorte como um substituto para a justiça. A moeda ao invés da balança. Acaso no lugar da ordem.

Daí temos aquele final estranho no qual a verdade é deixada de lado em função da mentira. O Batman assume as mortes do duas-caras como uma forma de manter a fé dos cidadãos nos valores morais (em si mesmos, na verdade, como ficou evidente). É o único jeito de endireitar as coisas (lembra que a última fala do Coringa é dita de cabeça para baixo?). Batman torna-se, por isso, um anti-herói. Novamente estamos diante dos elementos simbólicos das figuras do vilão e do herói. Batman raciocina em termos de responsabilidades e não de princípios. Ele assume a responsabilidade. Daí o que eu acredito ser a tese do filme: a única ética possível no mundo de hoje é a ética da responsabilidade. A opção é o caos.

#15 Comment By yuri vieira On 28/07/2008 @ 11:19 am

Eu achei o filme tão chato que nem tenho vontade de discutir sobre ele, mas… pra variar, o Daniel está atento.

O único dado capaz de fundar uma “idéia universal da humanidade”, como vc diz, é a paternidade divina, desconhecida pelos islâmicos que vêem A Divindade (Alá) como um ser não-pessoal incapaz de gerar filhos. Logo, não há fraternidade para eles e os fiéis submissos (de islã, submissão) podem matar os não-submissos como bem entender, para maior glória de Alá. O engraçado é que os cenários, isto é, o mundo representado nessas estórias de super-heróis é sempre um mundo mutilado: parece o Ocidente — Gothan parece New York –, mas não é, afinal, estão ali todas as aparências da nossa civilização, mas nem um traço sequer das tradições que permitiram o surgimento de um mundo como aquele. Assim, há essa suposta neutralidade, essa falsa noção de ser possível discutir temas morais sem um sentimento ou visão de mundo religioso. (Tudo bem, discute-se, mas sempre na superfície.) O mundo dos super-heróis me chateia por ser tremendamente falso, um simulacro sem alma do nosso próprio mundo. Não quero dizer com isso que deveria haver ali padres, igrejas e meros discursos de fundo religioso, mas, sim, um mundo que não parecesse uma máquina movida por engrenagens e completamente solta no espaço, sem fundamentos, sem um chão. Parece tão absurdo buscar princípios e razões morais ali quanto reproduzir em laboratório as condições da Terra, tal como eram bilhões de anos atrás, para tentar entender como surgiu a vida. A Causa Primeira nunca é levada em conta…

Espero que algum policial dê um tiro no fugitivo Batman para ver se, assim, ele aprende que apenas “a verdade o libertará”…
{}’s

P.S.: O Ledger teria sido um excelente Hamlet. E Ricardo III e MacBeth são dez mil vezes mais úteis no tocante a compreender a “natureza do mal”. Se esse filme fosse um pocketbook, eu o teria jogado num cesto de lixo para papéis recicláveis.

#16 Comment By filipe On 28/07/2008 @ 11:47 am

não há muito o que complementar sobre as palavras do daniel. somente a título de curiosidade, as cenas de ação em que o yuri dormiu foram inspiradas no filme heat, de michael mann (segundo palavras do nolan-diretor), e todas as explosões do filme são reais (incluindo a do hospital central de gotham). além disso, várias sequências do filme foram rodadas com câmeras IMAX, um antigo sonho do christopher nolan. lamenta-se, contudo, o fato de que a primeira sala de cinema nesse formato ainda está em construção aqui no brasil, na cidade de sp.

pra terminar, um noção do impacto que a atuação do ledger causou na indústria cinematográfica norte-americana é o lobby que andam fazendo para premiá-lo com um oscar pos-mortem, sem precedentes. chovem, também, vídeos do coringa na internet. porém, não são do heath e sim de atores amadores. é curioso perceber que, mesmo com o personagem (coringa) já devidamente idealizado e caracterizado pelo ledger, a diferença entre o sucesso primoroso e o fracasso desconcertante é muito, mas muito tênue. percebam nesse vídeo -http://br.youtube.com/watch?v=ujwAxkavQy8&feature=related – cujo script pretende cronicar os primeiros crimes do coringa compreendidos entre as histórias do batman begins e the dark knight.

#17 Comment By daniel christino On 28/07/2008 @ 5:44 pm

Pô Yuri, comparar o filme do Batman com Hamlet e McBeth é foda! A única coisa que eles podem ter em comum é o fato de serem ficções, e só.

Nestes universos ficcionais o mundo é sempre cenográfico. Faz sentido quando contrastado com a psicologia dos personagens. Para além da mera descrição enquanto estilo discursivo, são as ações destes personagens que constróem a plausibilidade de seu mundo. Então eu sempre me pergunto: que tipo de super-herói seria possível num mundo cujo fundamento moral repousasse exclusivamente na fé no criador? Talvez um santo (ou candidato a santo, como Aliócha ou o Leão de Nárnia). Mas nunca Batman ou Superman ou Wolverine. Eles pertencem a um mundo pagão. Você tem toda razão.

Neste sentido o Batman se parece bastante com os anti-heróis dos Westerns. As escolhas de William Munny, no filme Imperdoáveis, estão atreladas à mitologia do velho oeste americano, um tema também metalinguístico no filme de Clint Eastwood. Ele só funciona, como personagem, contra este universo ficcional. E o mais curioso – também para a caracterização do anti-herói – é que o personagem de Eastwood começa o filme tendo fé num poder maior, mas as circunstâncias daquele o arrastam de volta aos velhos hábitos. Ele começa o filme como um bandido arrependido e o termina como um anti-herói. Obviamente aquilo só faz sentido numa terra sem Deus e sem lei como o mitológico velho oeste.

Para mim só o fato do Batman se meter com estas questões já é um enorme avanço dentro do genero “super-herói”. Coisa que os quadrinhos já fizeram. Basta ler Watchmann, do Alan Moore e do David Gibbons.

#18 Comment By Paulo Paiva On 14/08/2008 @ 10:16 am

Bem, esperei para ver Batman quando o tamanho das filas diminuíssem, e, como não diminuíram, assisti nessa semana. Gostei muito! As opiniões contrárias do Yuri são interessantes, mas, vindo de uma pessoa que nunca foi fã de quadrinhos, não são “válidas”. O Coringa tá demais, blá, blá e blá. O que me deixou grilado foi só uma coisa: o pneu da “batmoto”. Como fazer curvas com um pneu daquele? ISSO sim, me incomodou.

#19 Comment By yuri vieira On 14/08/2008 @ 7:02 pm

Vcs ainda insistem [4]