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04/11/2008

Ele não questionava

ronaldo brito roque, 2:29 pm
Filed under: Arte,literatura,plásticas

Eu pensei em tirar uma foto, depois voltei atrás. Ela era bonita, colorida, os olhos simples e estáticos me emocionaram um pouco. Não sorria; tinha um pirulito na mão, mas preferia não lamber. Talvez quisesse apenas mantê-lo ao alcance da boca, mostrar que ainda estava na idade de pensar que um pirulito era apenas um pirulito, sem maiores conotações freudianas. Mas havia qualquer coisa de triste no seu olhar, uma serenidade meio apática que delatava uma infância com muito açúcar e pouca alegria. Ela era sim, bonita, colorida, no entanto um pouco triste. Despertava certa veia maternal dentro de mim: uma força que me impelia a protegê-la e ampará-la, mesmo que eu não soubesse como ou por quê. Mas a câmera eu guardei. Alguma sombra dentro de mim negava aquela menina. Algo que invejava e temia aquele tipo de arte. Fiquei um tempo pensando no sujeito que a pintou. Provavelmente não era formado, pois sua obra era muito simples: uma criança com pirulito na mão e barriga de fora. Um pouco triste, um pouco perplexa e nada mais. E era justamente isso que me machucava. Um ignorante, com meia dúzia de esprêis, era capaz de despertar emoções sinceras – coisa que eu não conseguia fazer com meus escâner, computador, câmera e conceitos modernos. Pensei em tirar uma foto e colocar no meu blógue. Cogitei falar da força misteriosa da simplicidade, do impacto emocional que o figurativo ainda causa nas almas desprevenidas. Mas tudo isso seria apenas mais um argumento, não uma emoção. Eu, que tanto atacava o mundo da razão, ia usar a menina como desculpa para produzir mais uma reflexão? Saí de casa confusa, e o comentário da vizinha só fez piorar meu estado:

— Esses meninos são uns vândalos, vivem estragando a propriedade alheia. Mas temos que admitir que alguns deles têm sensibilidade…

— É… pois é… alguns deles…

Sensibilidade era uma palavra gasta. Eu aprendera a odiá-la na faculdade. Toda uma geração havia falado em sensibilidade e conseguira produzir apenas paisagens campestres e mulheres seminuas. Não estávamos mais na época da sensibilidade; uma bobagem dessas simplesmente não seria aceita pelos meus professores. Me refugiei na idéia de que a velha era apenas mais uma ignorante, e sua opinião jamais seria partilhada por alguém de cultura, tanto menos por um investidor.

Mas na esquina tive novo desconforto. Um gari tinha parado de varrer. Debruçado na própria vassoura, contemplava o silêncio da menina. Me perguntei se ele estaria tendo as mesmas emoções que eu; se o desenho lhe tinha despertado algum instinto paternal, se o fazia recordar o desamparo e a fragilidade da própria infância. Mais uma vez me abriguei na idéia de ignorância. Ele era um gari, o que podia saber sobre arte?
(Continua…)

10/10/2008

Entrevista com o Teólogo André Figueiredo sobre Swedenborg e a Nova Igreja

ronaldo brito roque, 4:00 am
Filed under: Religião

Introdução

Quando eu ainda morava em Belo Horizonte, o Yuri publicou no saite alguma coisa sobre Borges e Swedenborg. Na época eu já era fã de Borges e pesquisei mais sobre seu Guru na internet. Logo percebi que a despeito de ser teólogo e místico, Swedenborg tinha uma obra intelectual admirável e merecia no mínimo a atneção interessada que votamos aos grandes pensadores do ocidente, sejam eles filósofos sistemáticos ou não. Então fui estudando suas obras sem muito método, à medida que chegavam às minhas mãos, e tentando compreender minha própria realidade à luz do que ele dizia. Na época eu era um cético que começava a flertar com uma espécie de “Criastianismo Filosófico” – um cristianismo que convence mais pela explicação que pela força mística do ritual – e Swedenborg caiu como uma luva na minha cabeça cheia de contradições. Embora verse sobre assuntos de fé, ele com freqüência expõe seu pensamento numa estrutura filosófica com silogismos e premissas bastante claros. Além disso, sua Ciência das Correspondências é uma espécie de chave intelectual para a compreensão da linguagem poética, e um aspirante a ficcionista, como eu, não podia deixar de se deleitar com uma coisa dessas.

Alguns anos mais tarde me mudei para o Rio de Janeiro, e tive o privilégio de conhecer pessoalmente André Figueiredo, filósofo de formação e teólogo da Nova Igreja – Igreja fundada por Swedenborg, que tem uma sede aqui no Rio. André é uma espécie de enciclopédia viva sobre Swedenborg, pois se dedica não apenas a estudar sua Revelação, mas a colocá-la em prática como membro ativo da Igreja Nova Jerusalém. Sua inteligência rápida e apurada logo me impressionou, principalmente porque era a primeira vez que eu encontrava essa virtude junto a uma gentileza e uma paciência dignas de um monge. Nesta entrevista procurei explorar um pouco dessas qualidades, indagando a André sobre sexo, morte, casamento, religiões e outras questõezinhas que costumam atormentar as mentes em busca de respostas. Sempre quis fazer uma entrevista desse tipo, não só porque acho que Swedenborg e a Nova Igreja merecem ser divulgados num círculo mais amplo, mas também porque eu queria dividir com o pessoal do Karaloka – leitores e autores – um pouco das idéias que me ajudaram a compreender melhor o mundo da religião, das ciências, dos conflitos humanos e até da literatura de ficção. Nas linhas abaixo, acho que vocês poderão perceber que as obras de Swedenborg de fato se prestam a isso; e para no-las apresentar nada melhor que alguém que dedica a vida a compreendê-las. Então, chega de rasgação, e vamos às perguntas:

1. André, gostaria de começar esta entrevista com uma pergunta que deve ocorrer a qualquer pessoa comum, e acho que é uma questão que, de certa forma, ocupa o centro do interesse autêntico pela religião. Existe vida após a morte? E, caso exista, devemos nos preocupar com isso?

Existe sim vida após a morte. E qual a importância de se preocupar com isso? A morte é uma metamorfose, é um novo estágio do desenvolvimento humano. A morte antecede a ressurreição, e a ressurreição é uma regeneração, isto é, um novo nascimento. É algo semelhante ao que se processa com os insetos no processo da metaformose: a lagarta entra no casulo e se transforma, renasce como uma borboleta ou um inseto alado.

Da mesma forma, quando abandonamos este corpo, é como se o fizéssemos em relação a algum casulo que foi o útero de uma grande gestação e transformação, mas que é agora descartado. A metamosfose é uma imagem da regeneração e do novo nascimento. Mas há uma diferença entre a regeneração dos insetos em sua metamorfose, e a regeneração do homem para que ele de natural se torne espiritual. No caso dos insetos, este processo é espontâneo, isto é, simplesmente acontece quer o inseto queira, quer não. No caso do homem, isto não é uma fatalidade, mas depende de um esforço ativo e constante, uma decisão emanada do livre arbítrio.

São poucas as doutrinas hoje em dia que enfatizam a ciência da regeneração. Mas esta é a grande obra de todas as autênticas religiões: a regeneração do gênero humano. Assim se pronuncia Swedenborg sobre este ponto:

Que o homem deva ser regenerado, a razão o mostra claramente; com efeito, por seus país êle nasce nos males de todo gênero, e êstes amores residem em seu homem natural que, por si mesmo, é diametralmente oposto ao homem espiritual; e entretanto o homem nasceu para o Céu, e não vai para o Céu a não ser que se torne espiritual, o que se faz unicamente pela regeneração; daí segue-se necessariamente que o homem natural com suas cobiças deve ser domado, subjugado e revirado, e de outro modo êle não pode se aproximar de um único passo em direção ao Céu, mas se precipita cada vez mais no Inferno. Como não ver isso, quando se acredita que o homem nasceu nos males de todo gênero, e quando se reconhece que o bem e o mal existem, e que um é oposto ao outro; e quando se acredita que há uma vida depois da morte, que há um Inferno e um Céu, e que os maus vão para o Inferno, e os bons para o Céu? O homem natural considerado em si mesmo, quanto à sua natureza, não difere em nada da natureza das bêstas, é igualmente feroz; mas é tal quanto à vontade; entretanto difere das bêstas quanto ao entendimento; êste pode ser elevado acima das cobiças da vontade, e não somente as ver, mas também as moderar; daí vem que o homem pelo entendimento pode pensar, e pelo pensamento falar, o que não podem as bêstas. Qual é o homem de nascença, e qual será se não for regenerado, pode-se ver pelas bêstas de. todo gênero; será tigre, pantera, javali, escorpião, tarântula, víbora, crocodilo, etc.; se não fosse, pois, pela regeneração transformado em ovelha, que outra cousa seria senão um diabo entre os diabos do Inferno? Então se as leis do govêrno civil não detivessem tais homens nas ferocidades nascidas com êles, não se precipitariam um contra o outro, e não se degolariam, ou não se arrancariam até suas camisas? Quantos não há no gênero humano que sejam sátiros e príapos, ou réptis ou quadrúpedes? e qual dêstes ou daqueles não se torna macaco, a menos que seja regenerado? E’ a isso que conduz a moralidade externa, que aprendem a fim de esconder seus internos.

(Continua…)

02/10/2008

O Palco e eu

ronaldo brito roque, 4:26 pm
Filed under: literatura

Papai dizia que o palco era uma fuga. Um jeito de eu me ausentar das obrigações, dos compromissos com a escola e os deveres de casa. No fundo ele achava que eu buscava o teatro porque não era boa o bastante para a matemática e a química. Queria que eu fosse engenheira, como ele. Acho que nunca superou o trauma de não ter um filho homem.

Mamãe dizia que o palco era vaidade. Era o meu jeito de ficar distante das pessoas, de olhá-las de cima, de provar que eu era melhor. Ela não faz idéia de como é difícil ser o centro das atenções, ser o tempo todo observada e julgada. Ela nem imagina o quanto o palco exige de precisão, de humildade e auto-domínio. Os orgulhosos e egocêntricos, esses são os primeiros a naufragarem no tablado; eles amam demais a própria vida, o próprio jeito de ser e falar; não conseguem se entregar com sinceridade à arte de ser outro. O palco – e isso mamãe nunca vai entender – é para quem se odeia. Quem tem orgulho de si não dura um segundo ali em cima.

E no entanto eu não posso dizer que eu ame o palco. Eu não o amo nem odeio. Eu não o escolhi. Foi ele quem me convocou, com sua escuridão, sua distância, seu espaço infinito. Quando o pisei pela primeira vez me senti em casa; me senti simplesmente como se eu estivesse encontrando meu lugar. E isso nem meus colegas entendem, eles que tanto falam em tensão e frio na barriga. Eu não sinto nem frio nem calor. Para mim, o palco é uma fatalidade: é o único lugar onde minha solidão faz sentido.

Por isso eu errei tanto em ouvi-los. Eles não queriam em orientar, não queriam de forma nenhuma que eu encontrasse o que era sagrado para mim. Mamãe falava em dinheiro, papai falava em abandonar fantasias tolas. E aos poucos foram me convencendo que o palco não era sagrado; conseguiram infestá-lo com a futilidade e a tolice que no fundo pertenciam apenas às suas próprias vidas. Eles, que já não sabiam mais o que amar, não podiam tolerar que alguém conservasse seu maior amor.
(Continua…)

24/08/2008

O Poder vermelho

ronaldo brito roque, 3:13 pm
Filed under: literatura

Mamãe cortava, lixava, arrancava cutículas. Eu, no meu canto, só podia pensar que aquilo era bobagem. Por que não resolver tudo com um simples cortador de unha? Pele, água quente, esmalte, a dor, sim, era quase nenhuma, mas e o tempo? Porque não gastá-lo com um livro ou filme? Por que o trabalho inútil de criar mais uma superfície onde já havia uma casca bastante eficiente, ainda que dura e fria? E depois, a corrosão. A segunda casca se desfazia e era preciso gastar mais uma tarde para uma nova camada de tinta. Desde cedo eu sabia que seria muito diferente de mamãe. Minhas unhas ficariam expostas, não havia motivo para cobri-las. Os homens que se conformassem. E as mulheres, eu as olhava de cima, não desperdiçava meu tempo e meu dinheiro com cores inúteis. Eu tinha mais o que fazer com minhas tardes de domingo.

Mas, quando ele apareceu, eu vi nos seus olhos alguma coisa mais firme e convicta que minha petulância. Ele parecia satisfeito consigo mesmo, e isso me assustava, eu que tanto tentava me transformar. Eu queria descobrir que força era aquela que o sustentava, que chão ele tinha achado para pisar no meio de tanta onda imprevisível. Mas ele não se revelava, ele apenas me olhava daquele jeito limpo e sereno. E fui aos poucos percebendo que era preciso encontrar outro meio de indagá-lo, era preciso submetê-lo a algum inquérito definitivo e silencioso, e o problema é que eu não tinha nem idéia de como começar. Foi quando aquelas lembranças vieram à minha mente com a força imprevista de um pequeno impacto. Procurei mamãe, vi as suas mãos cruas e pálidas, e senti medo. Pensei em lhe perguntar por que não havia mais cor, mas logo percebi que a resposta não me saciaria. Eu estava inquieta, arisca, obscuramente revoltada. Eu precisava de um ritual, não de uma explicação. Desci as escadas correndo – nem sei por que fui pelas escadas – e confesso que me senti um pouco derrotada quando paguei pelos pequenos vidros vermelhos. Mas depois, trancada no quarto, fui aos poucos recuperando minha confiança e lucidez. O contorno tinha de ser nítido; a cor, uniforme e compacta. Aquela pequena superfície tinha o dever intransferível de atestar toda a minha solidez. Saí do quarto sentindo uma alegria estranha e completamente nova para mim. Acho que pela primeira vez na vida senti vontade de mostrar algo à mamãe. Ela pegou minhas mãos, reparou nelas, contemplou-as como quem contempla de longe o vôo de um pequeno pássaro. Senti que uma nova compreensão, profunda e silenciosa, se instalava entre nós. Quando ele me ligou, não fiquei surpresa. Eu também tinha achado um chão onde pisar. As ondas começavam a se tornar previsíveis, como a órbita da lua, que as gera e justifica. O ritual estava concluído.

24/06/2008

A Cidade Encarnada

ronaldo brito roque, 8:26 pm
Filed under: literatura

O quarto tem espelho até no teto. Espelho demais para quem a princípio não quer recordar esta noite. Mas, quando ela apaga a luz, os neons vão entrando pela janela e colorindo o escuro com uma cor esotérica, um espectro que permeia e transcende nossos reflexos. O momento ganha o caráter de um estranho ritual sagrado. Eu penso que ela vai fechar a janela, mas ela se despe também para os edifícios, mostrando que não quer que eu seja o único destinatário da sua nudez. Sua pele branca bem pode ser uma espécie de chama, o centro do ritual, que vai aos poucos se aproximando e ganhando um contorno nítido de corpo feminino. As sobrancelhas, eu as diviso antes que os olhos, porque são mais escuras e sobressaem na pele por contraste. Só depois os olhos me tomam e me absorvem no pequeno transe. Quando eu desligo o som, já ouço a canção verdadeira, aquela que vem do cheiro marinho e acanelado do seu corpo. É essa a música que não cessa, quando sinto seus cabelos cobrindo meu rosto e seu corpo se apoderando avidamente do meu. Abro os olhos levemente exasperado, porque algo dentro de mim ainda quer entender minimamente o que se passa. Então vejo as luzes que escorrem pelo seu corpo, as letras reluzentes da cidade, as promessas de futuro, de prazer e de limite. Compreendo vagamente que não é ela que me possui, é a cidade que escolhe um corpo de mulher para me absorver e consumir numa noite sagrada. Me entrego novamente ao escuro, a minha canção mais íntima flui pelo meu corpo com a delicadeza e a precisão de uma chuva. É a prova de que algo dentro de mim compreende e aceita o amor daquela cidade. Depois a garota está sentada na cama, já vestida, o pequeno capuz lhe cobre as sobrancelhas. Ela permanece em silêncio quando pago a conta, e decido guardar a pequena nota como um registro histórico da nossa noite. Em casa, revejo a nota e a foto que tiramos horas antes num bar – eu sorrio e olho para a câmera, ela está séria, fitando o nada, como se intuísse o que havia de inevitável no nosso encontro. Só então me dou conta do absurdo que tento fazer. Tento manter em papel algo que só cabe à minha pele, e talvez à mucosa fina dos meus lábios. Rasgo a nota, a foto, e o que mais havia de lembrança falsa daquela noite improvável. Decido não tomar banho, para que algo dela fique gravado nos lençóis. Mas, no dia seguinte, já nem os lençóis testemunham a canção sagrada que meu corpo entoou naquela noite. No bolso da jaqueta, encontro um número de telefone. Mas sei que do outro lado vou encontrar apenas uma mulher, não mais a maravilha irrepetível de uma cidade em carne e osso. Porém não há nada na TV, é um dia de chuva e não quero ficar sozinho. Disco os número, resignado.

— Quem é? — Ela me humilha com sua desconfiança.

— Sou eu — respondo, derrotado. — Eu mesmo… apenas eu.

21/05/2008

O Roqueiro Burocrata

ronaldo brito roque, 3:14 am
Filed under: literatura
Baseado em argumento de Maurício Gouvêa

O Roqueiro Burocrata não começou como burocrata. Ele era muito jovem — treze anos — quando ganhou sua primeira guitarra. Mas já era audacioso. Não comprava revistas com as cifras das canções. Achava que era questão de honra tirá-las de ouvido. Depois já não comprava discos. Queria memorizar os acordes na primeira audição. Nem sempre conseguia, mas fazia progressos vertiginosos, isso era fato.

Quando começou a tocar nas festas de amigos, não aceitava dinheiro. Queria apenas o beijo da garota mais bonita, aquela que sabia interpretar seus olhares e esperar até o fim da festa para ficar com o geniozinho da guitarra. Ele ganhava os beijos, ela ganhava a inveja das amigas. Mas nessa época ele ainda não cantava. Seu coração se apertava quando ele tentava cantar o amor. Sentia que algo dentro dele ainda não era grande o bastante para querer transbordar. Foi só depois do primeiro grande fora — só depois que a mulher mais linda do mundo preferiu um advogado de terno e gravata e contracheque — que ele aceitou que o amor afinal não era assim tão nobre para exigir mais que sua humilde voz. E o curioso é que, depois disso, sua voz melhorou e se elevou à altura do amor. É o mistério da beleza: ela só se entrega a quem se descobre infinitamente menor que ela.

E foi assim que o Roqueiro Burocrata — naquela época ele ainda não era burocrata — se tornou o melhor roqueiro do mundo. Quando ele cantava, era o mundo que cantava a si mesmo pela sua voz. Quando ele tocava, era o que sobrava do mundo que encontrava lugar na sua guitarra. E nada passava indiferente à voz e às mãos do Roqueiro Burocrata, e ele era o melhor, embora só quatro pessoas soubessem disso: seu amigo Lucas, o Carlos, o Marcos Flávio, que era dono do estúdio onde eles gravavam, e a filhinha do Marcos Flávio, que ficava com o papai enquanto ele mixava as gravações. E mais umas cinco ou seis pessoas sabiam do fato quase secreto: eram as pessoas que compraram seu primeiro disco e jamais viram sua cara, nem tinham a menor vontade de conhecê-lo, mas simplesmente sabiam, como sabemos o que é um sorriso e o que é a chuva, que ele era o melhor do mundo no que fazia.

Mas algo obscuro se passou na alma do Roqueiro Burocrata — talvez a falta de dinheiro, talvez outro tipo de desesperança — e ele começou a pensar que o sucesso não era uma questão de ser o melhor. O sucesso tinha algo a ver com contratos, horários, camarins com banheiras e ar condicionado, gravadoras que investiam 30 por cento em publicidade, direitos autorais e turnês. E a música não era mais o único lugar onde ele reencontrava sua fé. A música era um dever de casa que ele fazia em troca do seu quinhão de mundo.

E todos passaram a ouvir o Roqueiro Burocrata. Todos, menos aqueles cinco que haviam comprado seu primeiro disco e sabiam que ele era o melhor do mundo. Agora ele era conhecido do mundo, mas era apenas mais um. E o curioso é que ele mesmo não notara a diferença, porque quando subia no palco, e cumpria seu dever profissional, as pessoas que estavam no show também queriam apenas cumprir algum protocolo. Estavam ali para agradar ao namorado, para esquecer os pais, para encontrar os amigos, para aproveitar a promoção de assinante de jornal, para usar os ingressos que haviam ganhando na campanha da empresa, enfim, tinham ido ali por qualquer motivo, menos pela música. E o Roqueiro Burocrata também não tinha ido lá para fazer música. E de fato sua música não encontrava os ouvidos de ninguém, e quando tudo acabava, ele ligava para a mulher e dizia: “Terminamos mais um amor; em breve poderei voltar para casa.”

E foi assim que o Roqueiro Burocrata deixou de ser músico e se tornou apenas um roqueiro burocrata. Mas até hoje ninguém notou a diferença. Nem mesmo ele.

29/04/2008

Critérios

ronaldo brito roque, 8:48 pm
Filed under: Cotidiano,Esportes,Humor,Política

Declaração de Ronaldinho à imprensa:

“Posso curtir um traveco de vez em quando, mas nunca matei meu filho”.

Declaração do ex-prefeito de Nova Iorque:

“Pelo menos eu tenho bom gosto”.

Declaração de Ronaldinho ao ver o traveco sem roupa:

“Nossa, que clitóris grande”.

23/04/2008

Enquanto isso, em Brasília…

ronaldo brito roque, 4:08 am
Filed under: Cotidiano,Política

Entreouvido no Congresso Nacional:

“Posso ter desviado 100 milhões, mas nunca matei um filho meu!”

06/04/2008

O que é religião?

ronaldo brito roque, 3:45 pm
Filed under: Religião

1ª resposta: olhando por fora:

O que é religião? Como responder essa pergunta sem orar a pedir a ajuda de Deus? Talvez possamos começar nos perguntando o que há de comum entre todas as religiões. Se fizermos essa investigação — e não é tão difícil —, descobriremos, talvez surpresos, que o que há de comum a todas elas curiosamente não é Deus. Ele está de fora de algumas e é plural em outras. Porém, existe uma coisa, um elemento comum que não está de fora de nenhuma religião conhecida, e é ele que nos fornece a chave para compreendermos todas as religiões, inclusive a nossa, caso tenhamos alguma. Trata-se do “depois-da-morte”. Os deuses das várias religiões, divergem infinitamente. Tente comparar, por exemplo, o deus do judaísmo com o deus do cristianismo e você ficará convencido de que jesus e moisés falavam de seres diferentes. No entanto, compare o inferno judaico com o inferno cristão e você verá muita semelhança. Curiosamente, o inferno cristão também se parece bastante com o hades. Mas, pouco importa se eles se parecem ou não, o que importa é o seguinte: o discurso sobre o que há depois da morte está presente em todas as religiões. Todas. Depois da morte há o céu e o inferno, depois da morte há a reencarnação, depois da morte há uma segunda vida, não importa, no momento, qual a sua opção, o que importa é que todas as religiões respondem à questão sobre o que há depois da morte. Assim chegamos a uma definição segura. Não corremos mais o risco de encontrar uma religião e não sabermos mais com o que estamos lidando: religião é um discurso sobre o que há depois da morte.

2ª resposta: olhando por dentro:

O mais interessante é notar que essa definição, não é coerente apenas quando olhamos as religiões de fora, mas também quando as olhamos de dentro. Note só: quem poderia saber o que há depois da morte? Ou alguém que esteve lá ou alguém que conversou com quem esteve lá. Ora, mas todas as religiões são fundadas em experiências nas quais o sujeito, ou vai para o “depois-da-morte”, ou conversa com alguém que está lá. Moisés conversou com Deus, e Deus estava no “depois-da-morte”, por isso mesmo ele podia dizer o que havia lá. Jesus era o próprio Deus e por isso sabia o que havia depois da morte, pois ele mesmo fez aquele lugar. Maomé falou com um anjo, e, sendo anjo, ele também habitava o “depois-da-morte”. Alan Kardec falou com espíritos e eles estavam no depois da morte. Swedenborg falou com anjos e eles estavam no depois da morte. Toda religião é fundada numa experiência sobre-natural na qual o sujeito fundador fala com algum ser que sabe o que há depois da morte, ou então esse sujeito fundador é ele mesmo transportado para o depois-da-morte e volta para nos contar o que há lá. O cristão não vai negar que sua religião lhe revela o que há depois da morte. O judeu também não, o budista também não, o muçulmano também não, etc. E o filósofo ateu também não vai negar que a religião diz o que há depois da morte, com a ressalva de que ele talvez não acredite nisso. Então, quando eu digo que “religião é um discurso sobre o que há depois da morte” não quero reduzir as religiões a isso, pois elas são, obviamente, mais do que isso; quero mostrar qual o traço distintivo da religião, aquilo que ela tem que outras áreas do conhecimento não têm e que a torna o que ela é. Essa definição, como já disse, funciona quando olhamos as religiões a partir de dentro, acreditando nas suas premissas, e funciona quando a olhamos de fora, quando não acreditamos. Você pode não crer em nenhuma religião ou crer simultaneamente em mais de uma, o que você não pode é negar que as religiões – inclusive a sua – dizem o que há depois da morte. E como a morte é um princípio auto-evidente – alguém aí duvida que vai morrer? – podemos dizer que essa definição é filosófica.

Religião e ciência

Agora que sabemos o que é religião fica fácil distingui-la da ciência. (Continua…)

24/02/2008

Editando Bíblias

ronaldo brito roque, 4:28 pm
Filed under: Política,Religião

Um dia eu acordei e percebi que estava sem dinheiro. Fiquei chocado, pois isso nunca tinha me acontecido. Papai havia me sustentado na juventude, depois arrumei facilmente um emprego de funcionário público — por que as pessoas acham tão difícil passar em concurso?— e ainda fiz alguns trabalhos para editoras e jornais, como freelancer. Eu nunca tinha passado pela situação constrangedora de receber uma fatura de cartão e não ter como pagar.

Então olhei para o teto e pensei: preciso ter alguma idéia brilhante. Fiquei aguardando alguns minutos em meditação, até que a idéia apareceu, rápida e clara, luminosa e precisa como reflexo de prata.

Peguei o catálogo, procurei pelo número de uma conhecida igreja protestante da região, e marquei uma entrevista com o pastor.

Chegando lá, fui direto ao assunto:

— Olha, senhor pastor, não sei se eu deveria fazer isso, mas é que trabalho numa gráfica e esta semana recebemos um pedido de cinco mil exemplares de Bíblias Católicas. Como sou protestante, fiquei preocupado. Será que eles estão convertendo tanta gente assim? Por que será que precisam de tantas Bíblias?

O pastor agradeceu muito pela conversa e disse que em breve voltaria a falar comigo. Na mesma semana ele me ligou, encomendando duas mil bíblias protestantes. Repassei minha encomenda à gráfica, e adicionei minha comissão ao preço final.

Imediatamente liguei para a paróquia e marquei uma entrevista com o padre. Disse que as igrejas protestantes estavam tendo um crescimento vertiginoso. Mencionei o jornal da Igreja Universal, com tiragem cada vez maior, e a recente encomenda de duas mil bíblias protestantes na minha gráfica. O padre agradeceu meu alerta e disse que ia conversar com o bispo. Tive o cuidado de deixar o meu cartão, e dizer que, como eu era católico, faria de bom grado um desconto de vinte por cento, caso eles viessem a negociar comigo. Na semana seguinte – a administração da Igreja Católica é mais lenta – recebi um telefonema do bispo encomendando o trabalho. Tive o cuidado de exigir um depósito como sinal, pois já tinha ouvido falar que esse pessoal de batina é meio descuidado com finanças.

Assim meu negócio foi crescendo. Mas eu sentia que ainda não era hora de parar. Sentia que podia ir mais longe.

Meu amigo Marcel Bilucas dirigia uma pequena ONG a favor do aborto. Apesar de modesta, a ONG contava com mais de 20 funcionários, que realizavam tarefas de muita importância, como pegar os filhos de Marcel na escola, pagar suas contas, etc. Liguei para ele, e mencionei as encomendas católicas e protestantes, disse que estava havendo um revival do cristianismo, como mostrava o sucesso inesperado do filme do Mel Gibson.

— Se continuar desse jeito, eles logo vão chegar ao poder, e aí adeus ONG’s laicas.

Marcel era um homem inteligente. Percebeu rapidamente o tamanho do problema, e ficou desesperado. Felizmente eu tinha a solução. Minha proposta era lançar uma coletânea de artigos de renomados ateus, denunciando toda a falsidade e charlatanismo das religiões. Esses “renomados ateus”, graças a Deus, estavam todos mortos e não nos cobrariam os direitos autorais. Eu, como ateu militante, e sócio de uma nova gráfica, cobraria apenas os custos da edição. Alguns livros seriam vendidos, outros distribuídos em escolas públicas, trabalho mais do que justo, já que era necessário prevenir as crianças contra a ilusão entorpecente da justiça divina.

Marcel ficou comovido com minha atitude, e disse que não era justo eu lhe cobrar apenas os custos. Ele levantaria dinheiro público e pagaria a gráfica e meus honorários com o maior prazer.

O livro “Deus — Uma ameaça” foi um sucesso, e muitos artistas compareceram à festa de lançamento (também patrocinada com dinheiro do estado). Marcel ficou contente com minha atuação e combinamos que reuniríamos artigos de gente famosa da mídia para mais uma coletânea no ano seguinte. Disse que esse trabalho tinha de ser pelo menos anual, não podíamos deixar a idéia morrer no número um. Fiquei contente, apenas lamentei que os autores que ele mencionou – intelectuais e jornalistas – estavam vivos e teríamos de lhes pagar os direitos autorais. Mas Marcel tinha conexões na política e talvez conseguisse mais dinheiro do estado.

Tirei umas férias em Cabo Frio e foi lá que descobri Henrique Shuzman, um cabalista do maior calibre, ainda desconhecido do grande público por mera falta de oportunidade. Falei-lhe da importância de divulgar a religião judaica em nível mais abrangente. Se o cristianismo voltasse a crescer – mencionei o filme de Mel Gibson – quem poderia garantir que os judeus não perderiam direitos nos estados cristãos? Henrique era um homem inteligente, compreendia a importância da guerra cultural. Em pouco tempo me mandou seus manuscritos, os quais eu mesmo revisei e mandei editar. O faturamento da editora já me permitia pagar o bufê da festa de lançamento.

Nesse meio tempo larguei o emprego de funcionário público. Pode parecer loucura, mas minha presença na editora rendia mais dinheiro. Procurei me aproximar de diversas entidades religiosas, mostrando a importância da guerra cultural para expandir os horizontes da religião e atrair mais fiéis. O pessoal da comunidade muçulmana encomendou uma edição luxuosa do Corão. Fiquei tão emocionado que quase me converti, mas lembrei que isso me deixaria em dificuldades com meu amigo Belucas e aí, adeus dinheiro do estado. Também tive relações estreitas com o pessoal da Ubanda, e fiquei surpreso com sua consciência da importância de difundir os valores e símbolos da cultura negra.

E foi basicamente assim que consegui dinheiro para pagar várias faturas de cartão de crédito. Um dia notei uma coisa interessante. As mesquitas muçulmanas da minha cidade ficavam próximas a uma igreja protestante. Tive uma idéia um pouco macabra, e tentei evitá-la. Mas um dia as faturas voltaram a me incomodar e tive de colocar a maldita idéia em prática. Liguei para os protestantes e falei:

— Olha, isso pode parecer estranho, mas os muçulmanos estão se armando. Tenho uma importadora de armas, e eles encomendaram 60 peças de mão esta semana. Estou avisando porque sou protestante e detestaria ver a nossa igreja em dificuldades…

Na mesma semana eles me ligaram de volta.

Ah, Deus sabe o quanto eu amo a diversidade religiosa.

26/12/2007

Como acabar com a pirataria?

ronaldo brito roque, 11:41 pm
Filed under: cinema,Cotidiano,tecnologia
Resposta a uma questão atual

Como acabar com a pirataria?

Antes de responder essa pergunta, precisamos responder outras.

Você quer acabar com a pirataria? Existe vantagem na pirataria?

Não sou cineasta, nem produtor de cinema, por isso gosto muito da pirataria. Adoro poder ir à esquina ao lado e comprar alguns dos meus filmes favoritos. Na locadora eu pagaria mais caro e ainda teria o trabalho de devolver. No pirata eu pago mais barato e não preciso me preocupar com o dia da devolução. E o que é melhor: o filme vem sem aquelas capinhas ridículas. Sempre achei as capinhas desnecessárias, porque (1) fazem o DVD ocupar mais lugar e (2) toda informação que vem nelas pode muito bem vir dentro do DVD. Compro um DVD interessado no filme que está lá dentro, a capinha não me interessa. Se ela for substituída por um envelopinho de plástico, tanto melhor. Menos matéria e menos espaço a ocupar.

Então eu pergunto: você quer acabar com a pirataria? A resposta é não. Queremos um DVD mais barato e não queremos voltar para devolver.

O pirata nos presta um bom trabalho, e queremos lhe pagar pelo trabalho, como fazemos a qualquer profissional. Não queremos que o pirata acabe. Se as pessoas se preocupassem mais em criar e menos em perseguir, o mundo estaria melhor.

Por outro lado, queremos que o cineasta ganhe algum dinheiro, do contrário ele não poderá sobreviver e fazer mais filmes legais. Também queremos que os donos de locadora sobrevivam de alguma forma. Eles são nossos amigos e estamos cansados de ouvir suas lamentações.

Então surge a solução total!

Vamos transformar as locadoras em centros de distribuição de filmes. Você vai lá com um DVD e eles copiam para você! Assim os dois saem ganhando. Ele ganha porque vai poder cobrar pelo trabalho, e você ganha porque não precisará voltar para devolver. Ele também pode vender o DVD virgem, o que o levaria a ganhar um troquinho a mais.

Depois o estado vai lá e cobra os direitos autorais dos donos de locadoras! Notem que isso é infinitamente mais fácil e viável, pois é mais fácil fiscalizar e punir um sujeito que está sempre no mesmo lugar que um nômade. A fiscalização só existe sobre um determinado espaço, é por isso que os ciganos não querem ter um lugar fixo. Se um sujeito tem um lugar fixo, você pode reunir um grupo e puni-lo (esse grupo, na modernidade, se chama polícia). Se um sujeito não tem lugar fixo, fica mais difícil puni-lo. Assim fica dada a solução. Não se deve acabar com a pirataria, pois gostamos do bem que ela nos faz. Devemos é legalizar a pirataria, ou seja, cobrar os direitos autorais depois que o sujeito fez a cópia. E o melhor jeito de fazer isso é nomeando o sujeito que faz a cópia, sabendo onde é o lugar que ele trabalha, onde é a casa dele, etc.

O estado não existe para proibir a atividade criativa, ele existe para cobrar um troquinho do cara depois que ele criou.

Se eu fosse dono de locadora, lutaria pela implementação desse sistema.

15/11/2007

Hoje não

ronaldo brito roque, 5:05 pm
Filed under: Cotidiano,literatura

Hoje ele não quer chupar peitos — nem os mais redondos e firmes. Não quer ver uma mulher de quatro, não quer ouvir gemidos suaves (quase verdadeiros), nem se debruçar sobre um corpo macio depois da descarga cansativa e aliviante. Ele não quer ir ao banheiro se livrar da camisinha, nem ficar abraçado na cama, imerso no cheiro misto de suor e látex. Não quer vê-la se vestindo, nem puxá-la de volta, alegando uma incapacidade qualquer para deixá-la. Ele não quer reiniciar as carícias, e se orgulhar de poder excitá-la novamente.

Quando ela telefonar, ele não vai atender — seja ela quem for! Ele quer a paz de uma cama vazia, o silêncio de um livro antigo, o inapelável cheiro de roupa suja de um quarto de solteiro. Pensamentos vagos vão lhe ocorrer, talvez até lembranças de uma infância descalça e triste, que ele já nem sabe se teve realmente. Um suave arrependimento vai lhe perturbar por algum tempo, depois ele vai expurgá-lo num sonho levemente torturante, como uma música clássica. Aos poucos ele vai se reconciliar com seu corpo, seus quilos a mais, seus cabelos que já começam a escacear sobre a testa.

Mas ela não vai entender. Vai se sentir rejeitada, ultrajada na sua obscura dignidade de fêmea. Vai relembrar um velho namorado, que a amava muito mais, e não a deixava sozinha nos fins de semana. Vai tentar acreditar que quer ligar para esse ex-namorado e marcar um encontro naquele restaurante afastado, perto de um motel. Depois vai pensar que toda a farsa não terá sentido se não for, de alguma forma, descoberta por ele. Então vai ficar algumas horas tentando criar um plano para que tudo — o encontro clandestino, a tarde no motel — chegue ao conhecimento dele e o faça arrepender-se como um mártir desesperado. Mas em pouco tempo ela vai lembrar que não é boa em planejamento, e vai desistir da idéia. Deitada, em frente à televisão, vai sentir seu desejo se diluir como o sal se dilui em água. E os dois vão dormir, cada qual em sua cama, o sono morno de uma noite de outubro.

No outro fim de semana, aí sim, eles vão transar e gozar como rãs patéticas. E esse domingo de ausência será tão insignificante que não restará sequer na lembrança. Sem fotos, sem testemunhas, sem conseqüências, será um nada dentro do vazio, uma gota de chuva caindo num lago, uma sombra encontrando a paz definitiva da escuridão. Até que um dia o corpo dele vai relembrar o desejo de uma cama vazia. Agora casado, ele irá procurar um hotel modesto no centro da cidade. Ela vai relembrar um antigo namorado, vai acreditar que quer dar um telefonema. E tudo se repetirá, com a monotonia infalível dos domingos.

28/10/2007

Um Deus sem nome

ronaldo brito roque, 7:46 am
Filed under: Cotidiano,literatura,Religião

Em frente à universidade havia uma pracinha com playground, e Cátia me perguntou se podia levar o Flavinho. Enquanto eu estivesse no debate, ela brincaria com ele na pracinha, depois poderíamos passar no shopping e comer uma pitsa. Imediatamente concluí duas coisas: ela não queria cozinhar naquela noite, e não queria assistir ao debate. A primeira não me incomodava muito, porque uma pitsa seria de fato melhor que a comida requentada de Cátia. Mas a segunda, confesso que me perturbava um pouco. Era um dos debates mais importantes da minha vida, e ela simplesmente não queria estar presente. Se quisesse, poderia deixar Flavinho com uma amiga, ou até com mamãe, que não gosta de perder a novela, porém não chega ao ponto de nos negar um favor desses. Mas ela não estava nem aí. Tenho certeza que ela achava que passar a tarde num playground, com uma criança de seis anos, era mais importante que assistir à minha exposição sobre qual era a religião verdadeira, a única que poderia nos abrir as portas do céu e salvar nossas almas do inferno. Já havia algum tempo que eu estava percebendo que Cátia não ligava para teologia. Para ela, muito mais importante que discutir a natureza das religiões era ter tempo para ficar com Flavinho e dinheiro para comer fora. Isso me decepcionava brutalmente, porque para mim não podia haver coisa mais importante que descobrir qual religião levaria realmente à salvação da alma, e não a uma aparência de salvação que terminasse por nos deixar na mão de satanás. Mas Cátia parecia pensar que a teologia e a filosofia eram simplesmente uma diversão requintada para homens que não sabiam dançar. Essa conclusão ia me decepcionando à medida em que ficava mais nítida; e eu ia procurando mais e mais debates e conferências nos quais as pessoas pelo menos parecessem valorizar meu trabalho.

Mas não havia por que contrariá-la, e concordei com a história de pracinha e pitsa. Segui cabisbaixo para o auditório, na esperança de que pelo menos ali eu encontrasse alguém mais interessado no que eu tinha a dizer. Às vezes eu lamentava o fato de Jesus não ter se casado, e não ter nos legado instrução nenhuma sobre como lidar com as mulheres. Nessas horas me ocorria uma enorme vontade de dar uma olhada no Corão e ver o que Maomé dizia sobre elas — afinal, ele tivera quatro. Mas eu imediatamente afastava essa curiosidade, interpretando-a como tentação infernal.
(Continua…)

23/10/2007

Mirante

ronaldo brito roque, 2:47 pm
Filed under: literatura

Eles chamam esse lugar de mirante, mas eu confesso que nunca vi nada daqui. A cidade e as estrelas estão sempre encobertas por nuvens, ou distantes demais pr’eu distinguir uma coisa da outra. Eu só vejo os carros parados ao meu lado e seus faróis cortando a neblina. Lígia me disse que já viu até estrela cadente, mas isso bem que pode ser coisa da cabeça dela. Mulher sempre tem uma necessidade de fantasiar, de enxergar alguma coisa mística e melosa onde existe apenas a mecânica previsível da vida na sua repetição morosa e cansativa. Ela, por exemplo, não tem mulher mais previsível. Eu sabia que ela só ia me dar depois que eu falasse em casamento, eu sabia que os boquetes e punhetas seriam só no início, para garantir o compromisso. Depois que ela se sentisse segura, a coisa ia virar um feijão-com-arroz tão maçante que eu só não terminaria porque o comodismo quase sempre acaba falando mais alto que a paixão. O comodismo é lento, mecânico, repetitivo, ele não liga de ficar dez anos fazendo a mesma coisa. Ele nos ganha pela paciência. Quando eu reclamo da Lígia, acho que no fundo estou reclamando é dessa mesmice em que ela acabou me trancando. Casa, faculdade, festa, casa da sogra, casa, faculdade. Todo mundo sempre falando as mesmas frases, rindo das mesmas piadas, reclamando das mesmas coisinhas que eles podiam mudar a qualquer momento, e não mudam porque não querem. Eu sinto que tudo isso veio dela. Se não fosse a sua enorme necessidade de fazer tudo sempre igual, sua ambição convicta por casamento, cachorro e casa de praia, talvez eu estivesse em outro mundo, mais brilhante e gostoso, mais excitante, mais ameaçador, talvez; mas um lugar onde eu certamente me sentiria mais vivo. Quando eu quero transar no estacionamento do shopping, quando eu quero gozar na boca ou nos peitos, quando eu insisto para ela me masturbar no banheiro de uma festa qualquer, acho que no fundo eu quero apenas protestar contra essa mesmice. Quero que ela entenda que não suporto essa rotina. Não quero passar a vida trabalhando para esperar as férias e comendo minha mulher para matar o desejo que eu sinto por outra.

Acho que era nisso que eu pensava naquela noite, quando vi o casal no carro ao lado. Eu buscava alguma coisa que nos libertasse, a mim e à Lígia, dessa vidinha rasa, desse feijão com arroz que além de tudo é sem tempero. Eu reparei que ela também estava olhando para eles e isso me excitou de uma forma inesperada e estranha. Eu fiquei me perguntando se Lígia teria vontade de transar com outro cara, de saber como é o sexo com outro corpo, outro cheiro, outro pau. Por um lado isso me excitava, porque, se fosse verdade, ela pelo menos não seria a garota tão certinha e maçante que eu pensava ser. Haveria na alma dela algum gosto pela transgressão, pelo diferente, pelo novo. Por mais estranho que isso possa parecer, acho que eu ia gostar mais dela se descobrisse isso. Mas por outro lado, não deixo de confessar que senti certo medo. E se ela gostasse de trair? E se começasse a fazer isso com freqüência, relegando nosso namoro a segundo ou terceiro plano? Isso me daria liberdade para trair também, mas eu gostava de transar com Lígia, gostava da sua pele lisa, do seu cheiro forte e acanelado de morena. Não queria perdê-la. Fiquei olhando de soslaio para ela, e vi que ela não tirava o olho do casal. Meu medo e minha excitação aumentavam. O cara já estava tirando a roupa da garota, notei que ela também olhava para mim, não dava para saber se era de vergonha, ou se queria mesmo que eu os visse — talvez isso a excitasse. Tirei também a roupa de Lígia. Ela, sem-graça como sempre, ficou reclamando que alguém poderia ver. Procurei fazer algum barulho para que o casal nos visse. Eles a princípio pareceram não notar, depois a garota falou alguma coisa no ouvido do cara, e ele olhou para o nosso lado. Quando viu Lígia semi-nua, seus olhos brilharam. Lígia é alta, bonita, tem os cabelos longos e lisos que essas meninas pagam muito para ter. Seu rosto afinado e seus olhos pequenos contrastam com uma boca carnuda e bem desenhada. Como se não bastasse, é naturalmente magra, não precisa comprar revistas sobre dieta e malhação. Enfim, uma mulher que meu dinheiro podia pagar (não é hora de falar da importadora de papai, mas sei o quanto isso me ajuda com as mulheres). Senti que o sujeito ficou fascinado ao olhar para ela, seus peitos redondos e brancos refletindo a luz alaranjada de vapor de sódio. Senti também a pontada de ciúme. Olhei para a namorada dele, e ela me encarou com um olhar agressivo, desafiador. O cara, por sua vez, fez um sinal com os punhos fechados, como se dissesse “Fode logo, rapaz. Fode essa menina que eu quero ver”. Olhei para Lígia, ela tinha cruzado as mãos sobre os peitos, estava assustada, mas pressenti certa excitação no jeito fixo com que ela olhava o rapaz. Ele também a olhava, e a namorada dele me encarava com aquele olhar desafiador. De repente percebi o que eu tinha que fazer. Eu sabia que Lígia ia me criticar até o fim, mesmo que ela gostasse, nunca iria admitir. Mas eu estava decidido, não dava para voltar atrás. Além disso no fundo eu sentia que Lígia e eu tínhamos de passar por aquilo de qualquer jeito. Se não fosse daquela vez seria outra. Então que viesse logo, que enfrentássemos o desconhecido que não encontramos na casa da sogra e nas festas de natal.
(Continua…)

20/10/2007

Iceman

ronaldo brito roque, 7:36 pm
Filed under: internet,literatura

Na internet ninguém tem filhos, nem estrias, nem cicatriz de cesariana. Eu também era apenas um nome bonitinho — Iceman —, algo que sugeria vagamente meu desprezo pelo mundo, mas não delatava minha barriguinha, minhas pernas magras e os comprimidos contra calvície. Quando nos encontramos é claro que isso veio à tona, e ela pensou em acabar tudo, pegando meu telefone e prometendo ligar qualquer dia. Mas eu era advogado, tinha um Audi e pagaria sem dificuldade uma pousada em Cabo Frio ou Búzios. Ela costumava sair com jovens bonitos, que esbanjavam cabelo e bíceps, mas eles viviam de pequenas pontas em novelas e eventos, tinham no máximo um Pálio, e não persistiam quando descobriam o garoto. Por isso ela teve uma pequena vertigem quando insisti em pagar a conta. Estava ao mesmo tempo revendo seus conceitos de homem ideal e se perguntando qual seria a melhor hora para falar em Daniel — se antes ou depois da primeira foda. Decidiu que depois era melhor, assim já teria me mostrado aquelas habilidades especiais que ela não aprendera na escola — nem com os pais — e justamente por isso considerava seu poder mais autêntico e confiável. Foi aliás lembrando desse poder que ela encontrou segurança para já falar em como gostava de Cabo Frio e seu mar calmo e esverdeado. Eu, que nunca dei a mínima para praia, afirmei terminantemente que amava Cabo Frio e seu mar calmo e esverdeado. Eu amaria o mar, a areia e até as palmeiras de qualquer lugar se a mulher que me acompanhasse tivesse a delicadeza de me dar, em troca da viagem, o merecido deleite sexual. Ela era jovem e muito bonita — a cicatriz de cesariana era insuspeitável naquele momento — e me parecia que a troca valeira a pena.

De fato valeu. Uma pequena cicatriz não faz diferença nesses momentos, a não ser pela interrogação que suscita. Ela me falou de Daniel, da pertinácia da sua bronquite e do seu desprezo inabalável a tudo que não estivesse diretamente ligado a jogos de computador. Falou das intermináveis horas-extras que ela fez para pagar o cursinho de inglês, enquanto ele matava aula para freqüentar uma lanhouse. Para arrematar, acrescentou que o estado precisava buscar mecanismos mais eficientes de controlar os jovens, antes que eles se tornassem marginais, drogados e pais solteiros. Como toda brasileira, ela achava que qualquer problema devia ser de alguma forma resolvido pelo estado, cabendo aos cidadãos apenas o dever imprescindível de ir à praia e ver televisão.

Não foi difícil perceber que aquele menino era a chave para dominá-la. Se eu me aproximasse do garoto, se o fizesse repetir algumas frases em inglês, se conseguisse convencê-lo da utilidade de ter um maldito diploma, ela se apegaria tanto a mim, desejaria tanto a minha permanência na sua vida, que talvez chegasse até mesmo a sentir algum prazer quando estivesse me chupando. Foi por isso que decidi comprar o playstation no natal; foi por isso que mencionei o fato de os fabricantes de games serem formados numa faculdade chamada “ciência da computação”; e foi ainda por isso que paguei a conta do oculista e os óculos ridículos que davam o contorno definitivo daquela cara de néscio.

E foi assim que eu vivi o delicioso prazer de ter razão. Valéria me amou intensamente, suportou bravamente meus gritos e momentos de cólera, me chupou algumas vezes na sala, quando o rapaz estava trancado no quarto, cantando alguma gordinha pelo msn. Pensei várias vezes em abandoná-la, mas descobri que de vez em quando eu também gostava da sua companhia. Ela era a única namorada de quem eu não precisava esconder as garrafas de Red Label. Ela foi a única que ficou comigo depois que os médicos me explicaram o que era pancreatite aguda.

O menino é que nunca me engoliu. Depois que se formou, arrumou um emprego numa multinacional, e disse que não queria mais nos ver. Explicou que gostava muito da mãe, só que não suportava sua condescendência com meu autoritatismo. Mas de vez em quando ele escreve pedindo algum dinheiro e Valéria se lembra de como ser carinhosa e usar uma lingerie. Acho que somos uma família.

02/09/2007

Crônica de um almoço improdutivo

ronaldo brito roque, 7:58 pm
Filed under: Cotidiano

O cara que trabalha na Caixa Econômica precisava ir ao Detran. Ele pensou: na hora do almoço eu vou. Mas, quando chegou ao Detran, o funcionário do Detran também estava almoçando. Ele esperou o funcionário do Detran voltar, mas o homem não voltou a tempo, e ele teve de ir embora sem resolver seu problema.

O funcionário do Detran precisa ir ao Tribunal de Justiça. Ele pensou: na hora do almoço eu passo lá. Mas, quando chegou ao TJ não tinha ninguém para atendê-lo. Todos estavam almoçando. Ele ficou esperando algum funcionário voltar, mas ninguém chegou a tempo, e ele perdeu seu horário de almoço.

O funcionário do TJ precisava resolver um problema na Caixa Econômica Federal. Ele pensou: na hora do almoço eu passo lá. De fato, ele foi lá na hora do almoço. Havia uma fila interminável, e só um caixa estava atendendo, porque os outros tinham ido almoçar. Ele ficou um tempão na fila e não conseguiu resolver o que queria. Ele perdeu seu horário de almoço. Oh, que triste.

Um dos caixas da Caixa Econômica precisava ir à C&A. Ele pensou: na hora do almoço eu vou. Quando chegou a hora do almoço, ele foi à C&A, e foi prontamente atendido. As empresas inteligentes têm turno de 12h às 18h. Quando você chega lá na hora do almoço (entre 12h e 14h), tem gente para te atender.

Porque as estatais também não fazem esse turno? Porque os gerentes de estatais são burros.

Porque os bancos em geral não fazem esse turno? Porque os gerentes de banco são burros. Muita gente preferiria trabalhar das 12h às 18h. Seria mais produtivo. Quando uma pessoa usasse seu horário de almoço para resolver alguma coisa, ele encontraria funcionários para atendê-lo, em vez de guichê vazios.

Mas quem, numa estatal, está preocupado com a produção?

Os bancos em geral deviam trabalhar das 12h às 18h ou, sei lá, das 14h às 20h. Mas eles trabalham justamente na hora em que ninguém pode ir ao banco. Não é ridículo?

Participe da campanha “horário inteligente”. Vamos sugerir que os bancos trabalhem das 12h às 18h. Será mais produtivo para todo mundo.

Como faremos isso? Vamos entrar nos saites dos bancos e colar este texto. Quem sabe não tem algum gerente de banco que já trabalhou na C&A e tem uma vaga idéia do que é produtividade.



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