O Garganta de Fogo

blog do escritor yuri vieira e convidados…

Categoria: escritores Page 19 of 31

Amigos e bibliotecas

Sempre que me hospedo com meus amigos acabo por também visitar e revirar suas bibliotecas. No apê do Rodrigo Fiume “bati um papo” com o Caio Fernando Abreu, com o Nélson Rodrigues e, principalmente, com o Rubem Braga, que muito me agradou. Fiz questão de ler esse último – do qual conhecia muito pouco – depois que o Alex Cojorian e o Bruno Borges me disseram que sou um bom cronista. Se o sou, devo me remeter a um mestre, pensei, para voltar a me sentir ruinzinho e ter um motivo para continuar melhorando. Dei muita risada com o Rubem Braga, principalmente com as crônicas da borboleta amarela (dica do Rodrigo) e a da viagem a Casablanca. É como ler um irmão mais velho cheio de gênio e humor. É o tipo do cara que, num futuro que fatalmente virá, valerá a pena encontrar do outro lado para saber das novidades do universo.

Na casa do Dante, voltei a curtir um Emerson – seu Homens Representativos, seu relato do encontro com Wordsworth e Carlyle – e as Obras Completas do Monteiro Lobato, da qual escolhi um volume de entrevistas e introduções que ele escreveu para livros alheios. Eu não tinha noção da importância do cara para a indústria editorial brasileira. Antes dele, não havia edições com mais de mil exemplares e as livrarias de todo o país não passavam de quarenta. Essas edições levavam anos e anos para escorrer por aí, num ritmo de conta gota. E o Monteiro Lobato, indignado com essa situação das mais primitivas – sua editora não conseguia crescer – teve uma idéia das mais cibernéticas: escreveu para quase duas mil agências de correio de todo o Brasil, a solicitar endereços das respectivas casas comerciais locais, não importando se fossem livrarias, papelarias, quitandas ou açougues. Redigiu então uma carta (quase um manifesto) na qual propunha a consignação de livros, sublinhando o aspecto de mercadoria do mítico objeto. Assim, em menos de dois meses, as livrarias passaram de quarenta para mil e duzentas e ele chegou a publicar uma tiragem de cinqüenta mil exemplares de “Reinações de Narizinho”, que esgotou em menos de um ano. Daí para frente, o mercado livreiro, no Brasil, nunca mais foi o mesmo.

Artistas: os únicos que trabalham?!

A Hannah Arendt sempre aparece com um “detalhe” conceitual para mudar nossa ótica das coisas. Hoje descobri que os únicos humanos que ainda trabalham, segundo ela, são os artistas, o que deve chocar muita gente. (Vide A Condição Humana.) Os demais ou estão na atividade do labor (a maioria, incluindo os profissionais liberais) ou da ação. Bem, o labor seria a atividade humana condicionada pela necessidade, tendo, portanto, como finalidade única a manutenção da nossa vida biológica. O trabalho seria a atividade que cria o mundo “artificial” em que vivemos, ou seja, a atividade propriamente humana. Já a ação seria a atividade mediada pelo discurso, aquela que ocorre entre humanos sem mediações de ordem material. Para Arendt, depois que a esfera social engoliu a esfera privada e a pública, o consumo – característica própria do nosso corpo, cujo metabolismo é um perene consumo de recursos – o consumo tornou-se regra e, hoje, consumimos bens e serviços tal como um corpo absorve e metaboliza água e comida. Daí a maior parte das atividades humanas estarem representadas pelo labor. Já a arte é, digamos, um luxo, não é necessária à manutenção da vida material. Segundo essa lógica creio que se poderia afirmar que arte não é profissão e que quem tem por ofício “produzir” arte não tem nada de artista. Rilke certamente concordaria com ela. (Bom, poderia entrar em outros aspectos, mas estou viajando e esqueci o livro em casa…)

Não se irrite!

Os dois, no boteco:

“Eu sempre sigo o conselho do Fernando Pessoa.”

“Que conselho?”

“Aquele: ‘Irritar é também uma forma de agradar. Toda criatura que gosta de mulheres sabe disso e eu também o sei’.”

“Por que ele diz eu também? Ele era bicha por acaso?”

“Homossexual talvez, bicha não.”

“Pois então! Ele tinha era um caso com o Álvaro de Campos…”

“Eram a mesma pessoa, idiota!”

“Claro que não, eles só inventaram essa história de heterônimo pra não chocar a sociedade. Ficava um sentando no colo do outro.”

“Que absurdo! Você só fala merda.”

“O Ricardo Reis adorava uma suruba gay. Os três não saiam da quinta do Caeiro…”

“Puts, quanta besteira…”

“Que foi? Tá irritado, é? Não posso falar assim do seu mestre?”, disse o outro, colocando a mão no joelho do primeiro.

“Qué isso, meu chapa? Pirou, é?”, e deu um empurrão no companheiro de mesa, que caiu estatelado para trás, um copo na mão, às gargalhadas.

José Luis Mora Fuentes

Em 1999, eu já morava com a escritora Hilda Hilst (sim, ela de novo) por cerca de um ano, quando veio juntar-se a nós o escritor José Luis Mora Fuentes, amigo dela desde 1968, que, em época pregressa, já havia residido por mais de 15 anos ali na Casa do Sol. Nós dois já nos conhecíamos desde Setembro de 1998, quando também conheci sua esposa, a artista plástica Olga Bilenky, mas eu não imaginava que iríamos dar tantas risadas em comum. Sim, porque, apesar de um excelente primeiro contato, havíamos trocado, via email, não apenas palavras amistosas, mas muitas farpas, advindas não apenas de diferenças de cunho político e do meu trabalho no site oficial da Hilda, mas, sobretudo, de sua preocupação com o bem estar da nossa amiga. Talvez ele achasse um tanto quanto contraproducente eu passar a maior parte do tempo em conversas mirabolantes com a Hilda, ou em leituras, em detrimento dos assuntos práticos da casa. Mas é que meu senso pragmático foi sempre meio ruinzinho mesmo…

Bem, acontece que o mais interessante da coisa toda é que, além de ser um escritor premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), o Zé Luis foi, durante alguns anos, um dos roteiristas responsáveis pelas histórias do Louco, personagem do Maurício de Souza. Minha geração, que nos anos setenta tinha o mundo da Turma da Mônica como uma realidade paralela, da qual os quadrinhos eram as notícias que chegavam, sabe muito bem o quão louco era o Louco. E alguém já imaginou o que seria conviver com um de seus roteiristas? Passei um ótimo segundo ano ali na Casa do Sol. Nunca dou tanta risada como quando converso com o Zé Luis. Basta passar uma tarde juntos e todas as farpas que trocamos são imediatamente esquecidas. Eu dizia pra Hilda: “Poxa, o Zé já tá me dando umas broncas de novo”. E ela: “Por que você acha que dei o apelido de Sapo pra ele? Você já apertou um sapo? O Zé é ótimo e querido, mas não o aperte não, Yuri.” Mas ela não sabia que eu só o apertava cada vez que, de alguma forma inconsciente e involuntária, em geral por omissão em questões de ordem prática, a apertava. O amor deles um pelo outro sempre foi muito grande. Prejudicar a Hilda era o mesmo que ingerir o curare do Zé. Mas sempre terei a vantagem de ser um escorpiano, outro sujeito bem venenoso. E quem se lembra da fábula do Sapo e do Escorpião sabe como ela termina. O famigerado artrópode prefere perder a vida a perder a ironia, prefere morrer a renunciar à oportunidade de dar uma sacaneada.

(Tá vendo, Zé, da primeira vez você não deixou, mas agora contei pra todo mundo: o apelido dele é Sapo, gente!)

Filmes de Kung Fu

Quando criança, eu adorava o seriado Kung Fu, com David Carradine, que revi prazeirosamente no Equador, em 1989, durante o programa de intercâmbio estudantil. Eu ainda não sabia que o filme fora um projeto pessoal do Bruce Lee – outro herói da minha infância – o qual, a princípio, estava presente no casting como intérprete do protagonista. (E, se soubesse da troca, em nada seria afetado meu interesse.) Mas os produtores norte-americanos erraram feio ao concluir que um ator chinês não criaria identificação junto ao público ocidental. Logo, descartaram a proposta e Bruce Lee morreu antes de ver realizado o seu sonho.

Outro que curte filmes de Kung Fu é o poeta Bruno Tolentino. “São as minhas novelas”, me disse ele, referindo-se à escritora Hilda Hilst, que costumava assistir telenovelas como forma de “relaxamento”. Na Casa do Sol, em 1999, eu o convenci a assistir “Matrix”, na Direct TV. Assistimos juntos. E ele aprovou as coreografias e a estória. (Refiro-me apenas ao primeiro filme.) Disse ele: “Esse filme certamente faria o Olavo (de Carvalho) escrever umas boas páginas…”

Segundo Li Hongzhi, líder da Falun Dafa, muitos pretensos mestres e professores de Kung Fu são desafiados à noite, enquanto dormem, por verdadeiros mestres já falecidos. Lutam no astral em ambientes tão virtuais e de força de gravidade tão baixa quanto os do filme Matrix. E esses egocêntricos lutadores, após apanhar a noite inteira, despertam na manhã seguinte com os ossos moídos, os músculos doloridos, a memória do sonho embaralhada. Já fizeram algum filme com este argumento? Duvido.

Telenovelas, Hilda Hilst, Mário Prata…

A última telenovela a que assisti integralmente – acompanhado pela noveleira de carteirinha, Hilda Hilst – foi “Andando nas Nuvens” (1999), do Euclydes Marinho, com o excelente Marco Nanini e a já gatíssima Mariana Ximenes. A Hilda adorava novelas e, nos dois anos em que morei com ela, esta foi a única a que assistimos quase sem reclamar. Sim, porque, tal qual já escrevi uma vez, novela é como futebol: quem gosta assiste mesmo quando está ruim, sem deixar de torcer pela melhora do time, digo, do enredo. (Na verdade, nessa novela em especial, a única coisa que irritava a Hilda eram meus suspiros cada vez que a Mariana Ximenes entrava em cena. Dizia ela: “Ah, não, Yuri, você agora é pedófilo?” E não adiantava argumentar que eu tinha uma grande tendência a ser um padre tarado e que a linda freirinha já devia ter, à época, mais de 18…) Pois é, depois de “Andando nas Nuvens”, eu, que não sou noveleiro, assisti apenas a alguns capítulos de “Laços de Família“, já que, de certa forma, acabei contribuindo com a produção. Manoel Carlos, o autor, quis homenagear a Hilda e, por isso, colocou o personagem de Tony Ramos, um editor, como amigo pessoal da Poeta Hilda Hilst, o qual inclusive mantinha, num porta-retrato, uma foto da “amiga”. Eis portanto minha pequeníssima participação: o Zé Mora Fuentes e eu escolhemos a tal foto que então escaneei e enviei para a Globo. Foi surreal assistir, acompanhado da Hilda, à cena em que Tony Ramos “finge” conversar com ela ao telefone e, em seguida, toma nas mãos o porta-retrato, dizendo algo do tipo “ah, Hilda, que saudade!”

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Até tu, Dostoiévski?

Até tu, Dostoiévski?

Tá difícil, Nélson…

“No ano 2010, o Brasil será maior que os Estados Unidos, a Rússia e qualquer outro. O Brasil é que dirá a grande Palavra Nova.” (Nélson Rodrigues)

Quer estrelar um best-seller?

Essa é boa, os caras não param de inventar moda. Em Setembro, escritores do porte de Stephen King e John Grisham irão leiloar os nomes de seus personagens. Assim, um ricaço poderá comprar o privilégio de ver seu nome – ou de um amigo, parente, etc. – num dos personagens de seus próximos livros. O dinheiro será doado a uma organização que promove a liberdade de expressão. Alguém ainda duvida da incrível capacidade que os norte-americanos possuem de garantir seus valores?

O primeiro Site Oficial de Hilda Hilst

O Wayback Machine é realmente incrível. (Como já disse no post anterior, é o mecanismo que está arquivando todos os sites da web desde 1996.) Entre outras coisas, encontrei até mesmo a primeira versão do site que fiz pra escritora Hilda Hilst, quando ainda morava com ela (1999). Também está lá, o site que fiz pra Casa do Sol. A foto deste último é do meu amigo, o fotógrafo Dante Cruz. O salmo, que pode ser lido ali, foi selecionado de comum acordo por mim e pela Hilda.
Ah, eu amo a internet… 😀

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