Arquivo para a categoria "livros"




26/12/2008

Cora

rodrigo fiume, 11:19 pm
Filed under: escritores,fotografia,literatura,livros

cora

Livraria da Vila, shopping Cidade Jardim, em São Paulo

Todas as Vidas

Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo. Benze quebranto. Bota feitiço… Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo… Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d’água e sabão. Rodilha de pano. Trouxa de roupa, pedra de anil. Sua coroa verde de São-caetano. Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha. Cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de picumã. Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal. Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada. Vive dentro de mim a mulher roceira. -Enxerto de terra, Trabalhadeira. Madrugadeira. Analfabeta. De pé no chão. Bem parideira. Bem criadeira. Seus doze filhos, Seus vinte netos. Vive dentro de mim a mulher da vida. Minha irmãzinha… tão desprezada, tão murmurada… Fingindo ser alegre seu triste fado. Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida – a vida mera das obscuras!

18/10/2008

A razão é uma questão de fé

yuri vieira, 10:57 pm
Filed under: escritores,livros,Religião

Da Ortodoxia, de Chesterton:

Com freqüência se diz que os sábios não conseguem ver nenhuma resposta para o enigma da religião. Mas o problema dos nossos sábios não é que eles não consigam ver a resposta; é que eles não conseguem sequer ver o enigma. Como crianças, eles são tão obtusos que nada notam de paradoxal na jocosa afirmação de que uma porta não é uma porta. Os latitudinaristas modernos falam, por exemplo, acerca da autoridade na religião não apenas como se não houvesse nenhuma razão nela, mas como se nunca houvesse existido razão alguma para essa autoridade. Não vendo a base filosófica da religião, eles não conseguem ver sua causa histórica.

A autoridade religiosa sem dúvida foi muitas vezes opressora e exorbitante, exatamente como todos os sistemas legais (e especialmente o nosso sistema atual) têm sido insensíveis e cruelmente apáticos. É racional atacar a polícia. Mais que isso, é maravilhoso. Mas os críticos modernos da autoridade religiosa são como homens que atacariam a polícia sem jamais ter ouvido falar de ladrões. Pois a mente humana corre um grande perigo concreto: um perigo tão prático quanto o latrocínio. Contra esse perigo a autoridade religiosa foi erigida, certo ou errado, como uma barreira. E contra ele algo certamente deve ser erguido como uma barreira, se quisermos evitar a destruição de nossa raça.

O perigo é que o intelecto humano é livre para destruir-se. Da mesma forma que uma geração poderia impedir a própria existência da geração seguinte com todo o mundo entrando no convento ou pulando no mar, assim um grupo de pensadores pode, até certo ponto, impedir a expansão do pensamento ensinando à geração seguinte que nenhum pensamento humano tem validade alguma. É inútil falar sempre da alternativa entre razão e fé. A própria razão é uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade por mínima que seja.

Se você for simplesmente um cético, mais cedo ou mais tarde precisará perguntar-se o seguinte: “Por que ALGUMA COISA deveria dar certo, mesmo que se trate de observação ou dedução? Por que a boa lógica não seria tão enganadora quanto a lógica ruim? Ambas são movimentos no cérebro de um macaco perplexo”. O jovem cético diz: “Eu tenho o direito de pensar por mim mesmo”. Mas o velho cético, o cético total, diz: “Eu não tenho direito de pensar por mim mesmo. Não tenho absolutamente direito de pensar”.

Há um pensamento que bloqueia o pensamento. Esse é o único pensamento que deveria ser bloqueado. É o mal supremo contra o qual toda autoridade religiosa se voltou. Ele só aparece no final de épocas decadentes como a nossa; e o sr. H. G. Wells já desfraldou a sua desastrosa bandeira. Ele escreveu uma delicada obra de ceticismo intitulada “Doubts of the Instrument” [Dúvidas do Instrumento]. Nela questiona o próprio cérebro, e se esforça para eliminar toda a realidade de todas as suas afirmações pessoais, passadas, presentes e por vir. Mas foi contra essa remota destruição que todos os sistemas militares da religião foram originariamente enfileirados e comandados.

Os credos e as cruzadas, as hierarquias e as horríveis perseguições não foram organizados, como dizem os ignorantes, para suprimir a razão. Foram organizados para a difícil defesa da razão. O homem, por instinto cego, sabia que, se uma única vez as coisas fossem loucamente questionadas, a razão poderia ser questionada primeiro. A autoridade dos sacerdotes para absolver, a autoridade dos papas para definir a autoridade, e até mesmo a autoridade dos inquisidores para aterrorizar: essas são todas sombrias defesas erigidas em volta de uma autoridade central, mais indemonstável, mais sobrenatural de todas — a autoridade do homem de pensar.

Sabemos agora que isso é assim mesmo; não temos desculpa para não sabê-lo. Pois podemos ouvir o ceticismo invadir violentamente o antigo espaço das autoridades, e ao mesmo tempo podemos ver a razão oscilando em seu trono. Na medida em que a religião já desapareceu, a razão vai desaparecendo. Pois ambas têm a mesma natureza primária e autoritária. Ambas são métodos de comprovação que não podem elas mesmas ser comprovadas. E no ato de destruir a idéia da autoridade divina nós já destruímos em boa parte a idéia daquela autoridade humana pela qual efetuamos uma longa conta de dividir. Com um puxão demorado e constante, tentamos tirar a mitra da cabeça do pontífice; e a cabeça dele veio junto com a mitra.

Ortodoxia, G. K. Chesterton, tradução de Almiro Pisetta, Mundo Cristão, 2008.

07/10/2008

Pessoas esquisitas e pessoas comuns

yuri vieira, 7:50 pm
Filed under: escritores,especulativas,literatura,livros

Da Ortodoxia, de Chesterton:

“As esquisitices chocam apenas as pessoas comuns. É por isso que as pessoas comuns têm uma vida muito mais instigante; enquanto as pessoas esquisitas sempre estão se queixando da chatice da vida. É por isso também que os novos romances desaparecem tão rapidadmente, ao passo que os velhos contos de fada duram para sempre. Os velhos contos de fada fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Conseqüentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono. Pode-se criar uma história a partir de um herói entre dragões, mas não a partir de um dragão entre dragões. O conto de fadas discute o que o homem sensato fará num mundo de loucura. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça.”

Ortodoxia, G. K. Chesterton, tradução de Almiro Pisetta, Mundo Cristão, 2008.

02/09/2008

Manuelzão relembra Guimarães Rosa

yuri vieira, 8:19 am
Filed under: escritores,literatura,livros,Podcast e videos

Primeira parte:

Segunda parte:

Terceira parte:

30/06/2008

Lawrence Durrell

daniel christino, 4:50 pm
Filed under: Arte,escritores,literatura,livros

Será que uma frase é suficiente para a gente se apaixonar por um autor?

Como todos os jovens eu decidi ser um gênio, mas felizmente o riso interveio.

Vou comprar alguma coisa desse cara imediatamente.

21/03/2008

Leitura para a Páscoa

yuri vieira, 11:22 pm
Filed under: Livro de Urântia,livros,Religião

Antes de postar o texto abaixo, que trata da última oração de Jesus em presença dos apóstolos, quero lembrar aos leitores deste blog — e a meus colaboradores — que o Livro de Urântia, em português, já está à venda na Livraria Cultura por R$58,88. Segundo o bibliotecário de Alexandria, isto é, segundo meu pai, o preço inicial proposto era de mais de R$90,00, mas após protestos de leitores brasileiros a Fundação Urântia baixou o preço para o referido valor.

Para esta Páscoa, além do texto abaixo — intitulado No Getsêmane — sugiro ainda a leitura dos seguintes documentos: Traição e Prisão de Jesus, Perante o Tribunal do Sinédrio, O Julgamento Diante de Pilatos, Pouco Antes da Crucificação, A Crucificação, O Período Dentro do Túmulo, A Ressurreição, As Aparições Moronciais de Jesus, Aparições para os Apóstolos e Outros, Aparições na Galiléia, As Aparições Finais e a Ascensão, O Outorgamento do Espírito da Verdade, Depois de Pentecostes, A Fé de Jesus.

É importante perceber que a morte de Jesus pela crucificação não teve um significado contundente apenas para nós terráqueos — ou urantianos — mas para todo um universo. Transmissões ao vivo da Paixão de Cristo foram assistidas por inumeráveis seres e, “assim terminou um dia de tragédia e de sofrimento para um vasto universo, cujas miríades de inteligências haviam-se estremecido com o espetáculo chocante da crucificação do seu amado Soberano, em sua encarnação humana; elas estavam aturdidas com essa exibição de insensibilidade mortal e de perversidade humana”.

NO GETSÊMANE

Eram por volta das dez horas dessa quinta-feira quando Jesus conduziu os onze apóstolos saindo da casa de Elias e Maria Marcos, pelo caminho de volta ao acampamento do Getsêmane. Desde aquele dia nas colinas, João Marcos tomara como seu o dever de manter Jesus sempre à vista. João, que estivera precisando de dormir, havia conseguido várias horas de descanso durante o intervalo em que o Mestre esteve com os seus apóstolos na sala superior, mas, ao ouvi-los descendo para o andar debaixo, ele levantou-se e, jogando rapidamente sobre si um manto de linho, seguiu-os pela cidade, passando pelo riacho Cédrão, e prosseguiu até o seu acampamento particular, adjacente ao parque do Getsêmane. E João Marcos permaneceu tão perto do Mestre durante essa noite e no dia seguinte, que testemunhou tudo e ouviu grande parte do que o Mestre disse desde esse momento até a hora da crucificação.

Enquanto Jesus e os onze encontravam-se no caminho de volta ao acampamento, os apóstolos começaram a perguntar-se sobre o significado da ausência prolongada de Judas, e falavam uns com os outros sobre a predição do Mestre de que um deles o trairia e, pela primeira vez, suspeitaram de que nem tudo estava bem com Judas Iscariotes. No entanto, eles não fizeram nenhum comentário aberto sobre Judas, até que chegaram ao acampamento e observaram que ele não estava lá, à espera para recebê-los. Então todos eles cercaram André para saber o que tinha acontecido a Judas; o dirigente deles apenas observou: “Eu não sei onde Judas está, mas temo que ele nos tenha desertado”.

1. A ÚLTIMA PRECE DO GRUPO

Poucos momentos depois de chegarem ao acampamento, Jesus disse-lhes: “Meus amigos e irmãos, o tempo que me resta para passar convosco é muito curto, e o meu desejo é que nos isolemos enquanto oramos ao nosso Pai no céu pedindo força para sustentar-nos nesta hora e daqui por diante em todo o trabalho que devemos fazer no Seu nome”.

Depois de falar assim, ele seguiu pelo caminho até uma curta distância, subindo o monte das Oliveiras, onde havia uma vista plena de Jerusalém, e pediu-lhes que se ajoelhassem sobre uma rocha grande e espalhada, em volta dele em um círculo, como tinham feito no dia da sua ordenação; e, então, enquanto permanecia ali, glorificado no meio deles, sob a luz suave da lua, Jesus levantou os olhos aos céus e orou:

“Pai, é chegada a minha hora; glorifica agora o Teu Filho, para que o Filho possa glorificar-Te. Sei que me deste a autoridade plena sobre todas as criaturas vivas no meu Reino, e eu darei a vida eterna a todos que se tornarem filhos de Deus pela fé. E a vida eterna é que as minhas criaturas Te conheçam como o único Deus verdadeiro e Pai de todos, e que elas acreditem naquele a quem Tu enviaste ao mundo. Pai, eu exaltei-Te na Terra e realizei o trabalho que Tu me deste para fazer. Eu já quase terminei as minhas auto-outorgas junto aos filhos da nossa própria criação; resta-me apenas deixar a minha vida na carne. E agora, ó meu Pai, glorifica-me com a glória que eu possuía Contigo antes da existência deste mundo e recebe-me uma vez mais à Tua mão direita.

“Eu tenho-Te manifestado aos homens a quem escolheste no mundo e que me deste. Eles são Teus – como toda a vida está nas Tuas mãos – e Tu os deste a mim, e eu vivi entre eles ensinando-lhes o caminho da vida, e eles creram. Esses homens estão aprendendo que tudo o que tenho vem de Ti, e que a vida que eu vivo na carne é para tornar o meu Pai conhecido aos mundos. A verdade que Tu me deste, eu a revelei a eles. E eles, meus amigos e embaixadores, sinceramente dispuseram-se a receber a Tua palavra. Eu disse-lhes que saí de Ti, que Tu me enviaste a este mundo, e que eu estou na iminência de voltar para Ti. Pai, eu oro por esses homens escolhidos. E oro para eles, não como oraria pelo mundo, mas como oro por aqueles a quem eu escolhi neste mundo para representar-me, depois que tiver retornado à Tua obra, como eu próprio representei-Te neste mundo durante a minha permanência na carne. Esses homens são meus; Tu os deste a mim; todas as coisas que são minhas, todavia, são sempre Tuas, e tudo o que era Teu, Tu agora tornaste meu. Tu foste exaltado em mim, e agora oro para que possa eu ser honrado nesses homens. Eu não mais posso ficar neste mundo; estou na iminência de voltar à obra que Tu me deste para fazer. Eu devo deixar esses homens aqui para representar-nos e ao nosso Reino entre os homens. Pai, mantém esses homens fiéis, enquanto eu me preparo para deixar a minha vida na carne. Ajuda esses amigos meus a serem um em espírito, como somos Um. Enquanto pude estar com eles, eu cuidei deles e guiei-os, mas agora estou para ir embora. Fica junto a eles, Pai, até que possamos enviar o novo instrutor para confortá-los e fortalecê-los.
(Continua…)

12/03/2008

Na Natureza Selvagem

Livro

Sempre gostei dos livros e do estilo de escrita de Jon Krakauer. Foi em 1999, logo depois de traduzir seu “Sobre Homens e Montanhas” para a Companhia das Letras, que li “Na Natureza Selvagem”, seu relato sobre a história de Chris Mccandless, o jovem que abandonou sua família na Virgínia por uma vida na estrada e de aventuras ao estilo dos personagens de Jack London e inspirado por Thoreau e John Muir.

Ontem, fuçando nas minhas coisas, encontrei um artigo que à época escrevi para o jornal “O Popular”. Seu título é “Selvagem é o Concreto”. Tem um tom nostálgico e meio melodramático que dá uma certa vergonha. Infelizmente, só o tenho em papel, mas se tiver saco vou redigitá-lo para algumas reflexões. Pensar se ainda acredito no que dizia há quase dez anos – afinal, em outros campos, mudei radicalmente. Afinal, todo o mundo se encantou e ainda se encanta com as idéias de Thoreau e com uma certa visão romântica da vida liberta na estrada e junto à natureza.

Outro dia, meu amigo Nelson me ligou no meio da tarde. Saía da sessão de “Na Natureza Selvagem”, o filme de Sean Penn baseado na novela de Krakauer (trailer aqui). Quase fora atropelado na Paulista de tão atordoado. Dizia que saíra do cinema pensando em mim. Vá saber por quê.

Cartaz

O livro me causou forte impacto em 1999, e ontem, na expectativa da estréia do filme aqui no sertão, comecei a relê-lo e já não o consigo largar. As perguntas são sempre as mesmas e seguem essenciais, penso: o que realmente vale à pena? Vale trocar as montanhas pela segurança do cotidiano? Em tempo, eu não considero que tenha abandonado as montanhas, mas por ora tenho outras prioridades, antes de retornar a elas.

Chris largou tudo e foi viver no Alaska, depois de rodar metade dos Estados Unidos – a pé, de carona, de canoa. Morreu de inanição em meio ao inverno rigoroso.

21/02/2008

Lançamento do Livro de Urântia

yuri vieira, 12:33 am
Filed under: Avisos,Livro de Urântia,livros,Religião

Amanhã, dia 22 de Fevereiro, ocorrerá em São Paulo o lançamento da versão em português do Livro de Urântia, livro que leio e releio desde 1997. (Já não era sem tempo.) O livro foi escrito entre os anos 1920 e os anos 1950, originalmente em inglês. Para quem não sabe do que se trata, a melhor introdução é o respectivo verbete da Wikipedia. (Em inglês, pois o verbete da Wikipedia em português deixa muito a desejar.) Meu amigo Rodrigo Fiume, jornalista da Folha de São Paulo e colaborador deste blog, me pergunta se é para ir fantasiado ao lançamento, assim como quem vai a uma convenção dos fãs do filme Guerra nas Estrelas. Bom, Rodrigo, não necessariamente, vá se quiser… 🙂

Para mais informações sobre o evento, clique aqui.

18/02/2008

“Eu sabia que Ele existia”

yuri vieira, 1:44 pm
Filed under: Índios,interiores,livros,Religião

Da obra “O Homem perante o Infinito”, de Mário Ferreira dos Santos:

Reproduzimos a seguir as palavras de Grouard, citadas por Foulquié, expressivas e de grandes sugestões. Pertencem ao livro Souvenirs de mes soixant ans d’apostolat:

“Um índio de Mackensie disse-me um dia:

— Padre, antes de te ter visto, eu sabia que Deus existe.

— Como o sabias? Creio que fui o primeiro a te falar de Deus.

— Na verdade — retrucou — antes de ti, ninguém me havia falado nEle, e contudo eu sabia que há um Deus.

Um dia, quando tinha catorze ou quinze anos, fui à caça com o meu arco e minhas flechas. Conhecia os bosques, os rios, os lagos por onde havia passado, buscando matar alguma caça. Nesse dia, no verão, cheguei à borda de um lago cercado de belas árvores. Patos desciam sobre a água, o sol brilhava no céu sem nuvens; lá longe, montanhas elevavam-se, em variadas alturas. Detendo-me, contemplei tudo isso com um imenso prazer. Subitamente, a idéia me veio: “Quem fez tudo isso? Não fomos nós, nem tampouco os ingleses, pois são homens semelhantes a nós. É preciso que haja alguém mais forte que todos os homens que tenha feito tudo isso”. Vês — acrescentou o índio — eu sabia que essas florestas, esses lagos, esse sol, não haviam sido feitos por si sós. Eu não podia explicar-me mais corretamente. Mas, quando tu nos ensinaste: “Creio em Deus, pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra”, eu compreendi logo e disse a mim mesmo: “Ei-Lo; eu sabia que Ele existia”.

O Homem perante o Infinito (Teologia), Mário Ferreira dos Santos — Editora Logos: São Paulo, 1963.

18/01/2008

A Culpa é do diretor, parte II

pedro novaes, 3:52 pm
Filed under: cinema,livros

Tenho insistido que o maior problema de nossa cinematografia digital, e sobretudo dos curtas que são feitos no Brasil, está na precariedade da direção de atores e no pouco caso com um trabalho mais embasado de preparação de elenco e construção de personagens.
A verdade é que a maioria toma a função do diretor cinematográfico como algo simples e que qualquer um com uma boa idéia pode exercer. Afinal, trata-se meramente de definir enquadramentos e movimentos de câmera, e de dar ordens aos atores, não é verdade?
A função do diretor é dificí­lima. É preciso ser acrobata e conseguir manter dezenas de pratos girando ao mesmo tempo, com a diferença de que, no circo, se um prato cai, só ele se quebra, enquanto, no cinema, se o mesmo ocorre, todo o conjunto naufraga.
Uma má fotografia pode até sobreviver a um filme com ótimas atuações, mas um filme com excelente fotografia e performances ruins é um desastre. Sem atuações críveis, nada se sustenta.
Mas nada me parece mais difí­cil e delicado do que a direção dos atores. Primeiro, porque a direção é quase um casamento, depende de confiança absoluta. O diretor coloca seu bem mais precioso nas mãos do ator – o seu filme – e o ator tem que se abrir e jogar de cabeça no território das emoções, crendo que o diretor saberá guiá-lo neste lamaçal, rumo aos sentimentos corretos para uma boa atuação.
Segundo, porque dirigir atores demanda principalmente intuição e disposição para o risco e o mico. Tem pouco de intelectual e muito de tentativa e erro, de processo, de experiência. Nada nos ensina a fazê-lo, a não ser tentar.
Eu ainda me sinto quase absolutamente desarmado neste território. Ainda não sei fazer pouco mais que pedir resultados – o pior tipo de direção -, mas vou tentando perder o medo.
Apesar de que só a prá¡tica ensina, um pouco de teoria pode apontar o rumo certo e também nos fornecer o impulso de buscar. Daí­, como prometido, a tradução da introdução do livro de Judith Weston “Directing Actors”, um excelente começo sobre este tema.

Baixe o arquivo aqui

11/01/2008

Como você interpreta?

daniel christino, 2:09 am
Filed under: Educação,especulativas,livros

Por conta do doutorado tornei-me uma máquina de ler e escrever. Nada a ver, infelizmente, com o mundo cotidiano. Embora meu tema seja o jornalismo, sua interpretação acadêmica afasta-se bastante do que ocorre no dia-a-dia da redação, embora nunca deixe a distância tornar-se intransponível, ou meu trabalho servirá apenas para calçar mesa.

Dentre as leituras obrigatórias para minha tese está Paul Ricoeur. Num texto sobre a relação entre hermenêutica e ciências sociais há uma passagem muito legal; motivo deste post.

Portanto, de acordo com certo ponto de vista, a hermenêutica é compreendida como a reconstrução de um significado endereçado a um intérprete na forma de uma mensagem. Este tipo de hermenêutica é animada pela fé, por uma predisposição para ouvir, e é caracterizada pelo respeito ao símbolo como forma de revelação do sagrado. De acordo com outro ponto de vista, porém, a hermenêutica pode ser compreendida como a desmistificação de um sentido apresentado pelo interprete sob a forma de um disfarce. Esta forma de hermenêutica é animada pela suspeita, por um ceticismo em relação ao dado, e é caracterizada pela desconfiança em relação ao símbolo, entendido como uma dissimulação do real.

As implicações desta distinção são muito interessantes. Denota não apenas uma diferença de método, mas de maneiras próprias – e até mesmo opostas – de encarar a atividade intelectual e a própria existência. Alguns de nós somos mais propensos a desconfiar, enquanto outros ouvem com maior “caridade”. Obviamente alternamos entre um e outro pólo dependendo do assunto. Não vejo como interpretar proposições políticas senão do segundo modo. Entretanto, não se pode, ao meu ver, entender arte senão do primeiro modo. Em todo caso, ao assumirmos qualquer das posições parecemos já ter escolhido a maneira como nos dispomos em relação ao assunto ou ao autor. Eu, do meu lado, costumo me fiar mais do que desconfiar. E vocês?

08/01/2008

Isaac Bashevis Singer

yuri vieira, 5:44 pm
Filed under: escritores,literatura,livros,Podcast e videos,Religião

Li meu segundo livro desse ganhador do Nobel de 1978, a coletânea de contos “Um amigo de Kafka”. Simplesmente nota dez! Isaac Bashevis Singer é uma prova de que talento, humor, imaginação e religiosidade podem se fundir num mesmo autor e mexer fundo com nossa cabeça. A genialidade desse cara, sublinhada por uma tensão dialética entre fé e despudor, deixaria o judeu “esclarecido” Woody Allen morrendo de inveja. Veja o que ele diz, em poucas palavras, durante seu discurso ao receber o Nobel, sobre o porquê de insistir em escrever numa língua quase morta, o iídiche.

03/01/2008

Capitalismo 3.0

pedro novaes, 6:00 pm
Filed under: Economia,literatura,livros,meio ambiente

Barnes

Resenha do José Eli da Veiga, publicada em O Valor desta quinta, do livro Capitalism 3.0, de Peter Barnes.

A necessidade de criar uma ‘versão 3.0’
Por José Eli da Veiga, para o Valor, de São Paulo
03/01/2008

“Capitalism 3.0 – A Guide to Reclaiming the Commons” – Peter Barnes
Berrett-Koehler Publishers, Inc., R$ 48,77. Com versão eletrônica gratuita em http://www.onthecommons.org

É raro que um livro abra com duas sentenças tão reveladoras de sua mensagem: “Sou um empresário. Creio que a sociedade deve premiar toda e qualquer ação lucrativa que tenha êxito”. Mas são afirmativas que jamais haveriam rendido texto tão estimulante se não tivessem entrado em colisão frontal com outra profunda convicção do autor: “Sei que atividades lucrativas têm insanos efeitos colaterais: poluição, lixo, desigualdade, ansiedade, e pesadíssima confusão sobre o propósito da vida.”

Para complicar, o conhecimento histórico também já o havia convencido que governos – por mais representativos que possam ser – se já não cuidam direito dos interesses dos cidadãos, muito menos podem ser capazes de proteger os interesses de gerações futuras. Principalmente porque tendem a dar muito mais importância aos interesses das corporações privadas. Um problema que na democracia capitalista é sistêmico, segundo Peter Barnes, autor do livro “Capitalism 3.0 – A Guide to Reclaiming the Commons”. (Continua…)

20/12/2007

O Poder da Atração do Fiofó

pedro novaes, 6:19 pm
Filed under: escritores,literatura,livros

Sexo Anal

Olhaí, eu falo e ocêis não m’iscuta.

Se depois eu fizer um filme desse livro e ficar famoso, não vão dizer que eu não avisei. Saiu a edição de bolso do Sexo Anal pela Os Viralata. São só 50 exemplares. Garanta o seu porque daqui a uns anos vai valer ouro. Além de tudo, um excelente presente pro Natal em família.

Novelo de Teseu

pedro novaes, 8:00 am
Filed under: cinema,livros

Gore

Embora voltado para a realidade do cinema independente americano, o “Ultimate Festival Survival Guide”, escrito por Chris Gore, traz informações bastante interessantes também para o nosso mundo aqui embaixo. Entre outras coisas, ajuda a pensar uma estratégia coerente e realista para a busca de festivais adequados a seu filme e propósitos, economizando grana e maximizando as chances de sucesso. Quem já tentou, sabe que enorme labirinto é a infinita miríade de festivais aqui no Brasil e no exterior. Catorze dólares na Amazon, fora o frete.

Vai para a nossa Biblioteca do Cineasta Digital , no Olho de Vidro, blog de nossa produtora, a Sertão Filmes.

14/12/2007

Porque eu não escreveria Virgínia Berlim

pedro novaes, 3:29 pm
Filed under: escritores,literatura,livros

VB

Conforme prometido, li anteontem o Virgínia Berlim, último livro do Biajoni, autor do já incensado Sexo Anal. Servi-me de um copo de uísque e deitei no sofá. O primeiro detalhe bacana é o CD que acompanha o livreto, que conta ainda com as letras, originais e traduzidas, das canções prensadas no disco: uma trilha sonora para a própria história, que tem Bing Crosby, Lou Reed e outros. Uma linda seleção, perfeita para acompanhar o affair de um camarada imobilizado em seu apartamento por um pé cortado e a escriturária Virgínia que irrompe em sua vida e dá título ao livro.

A leitura transcorre fácil, menos de 50 páginas, ao longo de meia hora ou pouco mais. Que não se espere outro Sexo Anal porque VB é bem diferente. Como já se disse por aí, é como se nos fosse permitido espiar um fragmento de uma vida durante algum tempo. É bonito e impactante. Termina-se a leitura com uma tristezinha. Enquanto o Sexo Anal mexe com a gente pelo que tem de cru, violento e libidinoso, Virgínia Berlim emociona de verdade por uma outra crueza, relacionada ao sentido e à banalidade de nossas vidas e das vidas dos outros, e por falar de arrependimento e de falta de respostas. Sexo Anal é irônico e de um excelente humor negro. VB é composto de notas tristes e meio perplexas.

Eu não escreveria VB porque sou idiota e volta e meio tenho uma estúpida tendência à idealização e ao melodramatismo, à autocomiseração e para colocar nos personagens a pena que sinto de mim mesmo, vítima do mundo. O Bia, ao contrário, não tem pena dos seus personagens: eles são feios, têm espinhas e hemorróidas, estrias, peitos caídos, trabalham em repartições e têm vidas comuns e tacanhas. Se isso soa meio Bukowiskiano, o Biajoni se separa do mestre californiano porque suas histórias não passam qualquer rancor. Não há ressentimento com a humanidade. Estão mais pra Almodóvar.

Compra lá.



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