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12/10/2008

Falta de sorte.

daniel christino, 11:48 pm
Filed under: Economia,especulativas

O jogador de roleta não terá dúvida alguma em reconhecer que está jogando, mas já o mesmo não sucederá com o corretor de valores. Este último sustentará que a compra e venda ao sabor das altas e baixas da Bolsa fazem parte das coisas sérias da vida, ou pelo menos da vida dos negócios, e constitui uma função econômica da sociedade. Em ambos os casos o fator operante é a esperança do lucro. Mas, enquanto no primeiro caso o caráter puramente fortuito da coisa é geralmente reconhecido (não obstante todos os “sistemas”); no segundo, o jogador ilude-se a si mesmo com a idéia de que é capaz de prever a tendência futura do mercado. Seja como for, é ínfima a diferença de mentalidade entre ambos os casos.

Johan Huizinga, historiador e filósofo holandês, em 1938.

07/10/2008

Pessoas esquisitas e pessoas comuns

yuri vieira, 7:50 pm
Filed under: escritores,especulativas,literatura,livros

Da Ortodoxia, de Chesterton:

“As esquisitices chocam apenas as pessoas comuns. É por isso que as pessoas comuns têm uma vida muito mais instigante; enquanto as pessoas esquisitas sempre estão se queixando da chatice da vida. É por isso também que os novos romances desaparecem tão rapidadmente, ao passo que os velhos contos de fada duram para sempre. Os velhos contos de fada fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Conseqüentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono. Pode-se criar uma história a partir de um herói entre dragões, mas não a partir de um dragão entre dragões. O conto de fadas discute o que o homem sensato fará num mundo de loucura. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça.”

Ortodoxia, G. K. Chesterton, tradução de Almiro Pisetta, Mundo Cristão, 2008.

01/10/2008

Porque admiro o pensamento cristão

daniel christino, 10:22 pm
Filed under: especulativas,Religião

Por isso:

Atenho-me, no caso, ao axioma clássico: ab esse ad posse valet illatio. A filosofia cristã existe. Logo, pode existir, ainda que as fronteiras teóricas desse poder-ser se apresentem, de Clemente de Alexandria à neo-escolástica e a Maurice Blondel, em perpétuo movimento. De minha parte, entrego-me ao exercício de um filosofar que respira, como diria Maritain, em clima cristão ou que tenta aspirar os ares que descem dos altiplanos teológicos. Nesse clima cristão cresce e frondeja a grande árvore do intellectus fidei, a um tempo filosófico e teológico, da qual me sinto pequeno e obscuro ramo e cuja seiva racional se alimenta incessantemente na experiência original da fé como “geratriz de razão” de que fala Etienne Gilson, e que é a experiência primeira e fundadora de todo pensamento cristão.

Henrique C. de Lima Vaz

Estamos todos nós, ocidentais, à sombra desta “grande árvore”. Embora nem todos apreciemos seus frutos.

19/09/2008

E a crise financeira mundial?

daniel christino, 6:33 pm
Filed under: Economia,especulativas

Um ótimo artigo do Financial Times sobre a crise americana e mundial. Obviamente é idiota a tese marxista chinfrim de que o “capitalismo” está em crise, contudo ninguém pode mais diminuir a importância do Estado na regulação da economia. Se o governo conservador foi obrigado a intervir, mesmo agindo sob a cartilha do Estado mínimo, significa que o debate vai muito além da ideologia. O Cláudio, do Gustibus, para variar, organizou um check-list muito bom sobre o problema.

10/07/2008

Muito além do River Raid

daniel christino, 12:05 pm
Filed under: Ciência,especulativas,Games

Eu disse noutro texto que adoro jogar videogame. Essa confissão já me rendeu alguns olhares estranhos na Universidade. “Mas você não tem algo mais importante para fazer?”, diziam. “Não!”, respondia meio injuriado. Embora seja uma chatice jogar “a sério” qualquer jogo de videogame, pensar sobre o impacto das novas mídias sobre os modelos de produção cultural já canonizados é um campo de estudos acadêmicos cada vez mais promissor.

Sem querer entrar numa de “peer-reviewing”, pelo menos não agora, indico dois artigos muito legais sobre como os estudos sobre games atravessam diversas áreas de pesquisa: Dynamic Lighting for Tension in Games e Tragedies of the ludic commons – understanding cooperation in multiplayer games.

O primeiro deles possui uma ligação bastante clara com o cinema e com a narratologia (ou teoria da narrativa). O modo como um jogo explora os efeitos de luz para compor um determinado clima supõe uma noção de narratividade visual muitas vezes importada do cinema. Por outro lado, os games, por trabalharem com um ambiente completamente virtual e manipulável (dentro de certos limites tecnológico de velocidade de processamento e memória), potencializam os usos possíveis da iluminação para criação destes efeitos. Ao contrário do cinema, os games têm controle completo sobre o ambienta no qual a ação ocorre. No cinema, isso só acontece nas CGI (imagens geradas por computador).

There are many lighting design techniques exhibited in theatre, film, architecture and dance that address the role of lighting on emotions and arousal. Currently, game developers and designers adopt cinematic and animation lighting techniques to enrich the aesthetic sense of the virtual space and the gaming experience. For example, game lighting designers manually manipulate material properties and scene lighting to set a mood and style for each level in the game.

O segundo entende o videogame como modelo de interação social, ou seja, discute o modo como um contexto de simulação pode iluminar aspectos comportamentais dos indivíduos. O estudo retira sua força da metáfora do jogo e enfatiza uma das suas principais características: a relação entre os jogadores. Mesmo as brincadeiras de amarelinha ou pique-pega (e brincar é diferente de jogar) podem ser entendidas como simulações. Há um conjunto de regras não-naturais (o termo é controverso) em funcionamento normatizando o modo como a ação pode ou não acontecer. O legal dos videogames é sua capacidade modelar, ou seja, nele possuímos algum controle sobre o ambiente no qual a ação se desenvolve e, por conta disso, podemos isolar ou testar variáveis de modo muito mais preciso. Neste caso os pesquisadores optaram por estudar o modo com o jogo apresenta alguns conflitos e a relação entre a solução destes conflitos e a vida social “real” do indivíduos. Em outras palavras, o artigo pressupõe que a simulação dos games pode nos ajudar a entender melhor a dinâmica social de pequenos grupos. É o caso quando eles estudam a trapaça (cheating) como um dilema social. O game dado como exemplo é o Diablo.

Accounts of cheating in games almost always invoke the eloquent example of Blizzard’s Diablo (Blizzard Entertainment, 1996), among the first truly successful commercial online games. It is generally acknowledged that the gaming experience was seriously affected by the amount of cheating apparent among many participants. In a somewhat informal survey conducted by the gamer magazine Games Domain (Greenhill 1997), 35% of the Diablo-playing respondents confessed to having cheated in the game (n=594). More interesting, however, were the answers to the question of whether a hypothetical cheat and hack free gaming environment would have increased or decreased the game’s longevity and playability. Here, 89% of the professed cheaters stated that they would have preferred not being able to cheat. This response distribution clearly tells of a social dilemma. Arguably, the players queried are tempted to cheat but understanding that this temptation applies to other players as well, would prefer that no-one (including themselves) have full autonomy.

Certo. Os artigos foram linkados a partir do site da Game Studies cuja base de dados encontra-se, hoje, aberta ao público. Há outros tantos em bases de dados restritas. Os games não são apenas diversão interessante, são também objetos acadêmicos relevantes tanto por sua popularidade quando pelas questões que levantam. Estamos muito além do River Raid. Divirtam-se.

26/06/2008

Estudo relaciona descrença religiosa a Q.I. alto.

daniel christino, 11:15 pm
Filed under: Ciência,especulativas,Religião

É possível estabelecer alguma diferença entre fato e valor? Eu, particularmente, não acredito que pesquisas como esta, apesar de baseadas em rigorosa metodologia, pretendam afirmar que os crentes são mais idiotas do que os não crentes. Há, entretanto, correlação, ou seja, de alguma forma a variável “descrença religiosa” altera-se quando a variável “Q.I. alto” é modificada. A discussão toda concentra-se nas variáveis intervenientes.

Eu, por exemplo, acredito muito na observação do professor de Psicologia da London School of Economics, Andy Wells. Inteligência implica uma gama maior de conhecimento, o que significa uma variedade maior de informação sobre várias coisas – inclusive visões de mundo – diversificando as opções antes restritas a crer ou não crer.

O mais interessante nem é isso. Ao relacionar estas variáveis o estudo mostra que não há, nem pode haver, relação causal entre elas. Quem crê em Deus não é mais inteligente ou esclarecido do que quem não crê em Deus. Nossa capacidade de compreender o mundo, nossa faculdade de intelligere como queriam os medievais, não está submetida à aceitação intelectual da idéia de Deus. O pensamento é capaz de conhecer a realidade e o homem capaz de compreender a si próprio mesmo que não acredite num Ser supremo.

Por outro lado, parece que para cada Santo Agostinho há uns 400 idiotas. Deve ser por isso que os pentecostais vivem amplificando seus cultos. Sua inteligência parece associar o volume da voz à capacidade divina de prestar atenção às suas súplicas. Deus deveria providenciar o milagre da elevação do Q.I.

22/06/2008

Viver está ficando perigoso demais…

daniel christino, 2:54 pm
Filed under: Ciência,Cotidiano,especulativas,memória

Quando eu era menino o final de junho geralmente significava duas coisas muito boas: festa junina e férias. As férias, por sua vez, desdobravam-se em vários subtemas (futebol, viagens, brincadeiras de rua, etc.). Dentre estes, o mais desejado e esperado era soltar raia (ou pipa, dependendo do modelo aerodinâmico em questão).

A expressão em si já é deliciosa. “Soltar raia”. Soltar. Deixar ir, liberar. Não eram tanto os constructos de papel e taboca, mas nós mesmos que nos liberávamos na brincadeira. Sujos, soltos e barulhentos corríamos pelas ruas do setor Fama.

A logística da brincadeira era a seguinte: acordávamos lá pelas nove horas da manhã e começávamos a juntar as peças. Papel impermeável, linha, taboca (apanhada às margens do Anicuns ou do Capim Puba), cola, vidro (lâmpadas fluorescentes ou, quando não dava, garrafas de vidro transparente) e plástico para as rabiolas. Depois do almoço nos dividíamos. Um grupo construía a raia ou pipa e outro preparava o cerol.

Fazer o cerol era mais uma questão de força e persistência do que talento. Com uma barra de ferro amassávamos incansavelmente o vidro numa lata de óleo de soja até que não sobrasse nada além de um pó fino – tão parecido com açúcar refinado que o irmão mais novo de um dos moleques adoçou um copo de leite com ele, felizmente tomou apenas um gole antes de perceber que o pó não era nada doce. O cerol era então misturado com cola tenaz e um pouco de água. Aí vinha a parte onde era necessária alguma habilidade. A mistura era feita na palma da mão e aplicada na linha (10) esticada entre dois postes. Era importante dar entre dois ou três “toques” para que a camada de cerol não ficasse muito grossa, dificultando o manejo da raia durante uma “guerra”. O número de toques variava de acordo com a composição do cerol. Eu era bom nisso, apesar de ser uma negação em engenharia de pipas. Meu amigo Gláucio era um construtor muito mais habilidoso.

(Continua…)

21/04/2008

Pela janela

daniel christino, 2:59 am
Filed under: Cotidiano,especulativas,Imprensa

Da janela da minha sala na Universidade eu vejo um recorte geométrico do bosque. De vez em quando passam guinchando alguns macacos-prego, como num documentário do Discorevy Channel. Olham-me com urgência, assustados. Desacostumados ao pasmo sempre renovado de ver, em seu aquário de aridez, um ser humano, parecem interrogar-se sobre a possibilidade evolutiva de um animal tão estranho. E eu observo de volta. Um deles, uma fêmea, traz nas cócoras seu filhote. O macacaquinho se agarra firmemente ao pêlo da mãe, enquanto ela salta de árvore em árvore, agilmente, tentando encontrar alguma lata de refrigerante ou restos de um salgado comido pelas metades.

Numa outra janela piscam anúncios em flash. Dentro dela (ou fora daqui!) alguém me diz que uma menina foi atirada pelo pai e pela madrasta do apartamento onde moravam, no sexto andar. Eu observo os acusados jurarem inocência. Estou espantado. Noutra reportagem o apresentador se pergunta porque o caso mobilizou tanto a atenção das pessoas. Assisto a matéria. Fala um psicanalista, um sociológo e outro psicanalista. Nenhum deles diz nada sobre o repórter nem sobre o programa. O interesse das pessoas é tratado como um fato natural e a peça jornalística que nos convoca a atenção não é tematizada. É como se não estivesse lá, como se fosse transparente.

Sinto-me dentro de um cubo geométrico translúcido. A metáfora das janelas se desdobra em várias faces. Eu vejo os macacos, que me vêem, e vejo os pais da menina que não me vêem e vejo a forma de expressão da manipulação dos interesses, que não quer ser vista. Só não vejo a inocência, só não vejo o humano. A inocência atravessou a janela e se espatifou no gramado úmido.

Talvez o combustível da emoção seja o pathos da morte. Não uma morte qualquer. Não uma boa morte, coroação de uma vida plena. Mas a morte da inocência, o terror. Um pathos egóico, sem dúvida, porque vivido na tensão interior do expectar. Não o pathos da vida, a compaixão, mas o pathos associado, desde Aristóteles, às narrativas trágicas. Muitos de nós vivenciamos a morte de Isabella Nardoni pelas narrativas elaboradas pela mídia, embora ela se esforce para nos convencer de que é apenas uma janela, um meio através do qual algo nos vem ao encontro. Por que esta tragédia – assim como várias outras – nos mobiliza a atenção? Exatamente porque é uma tragédia. Porque o drama nos é apresentado num esquema estruturado de compreensão, cujos elementos nos exigem uma determinada emoção, como num script cognitivo vivenciado milhares de vezes.

Mas o terror, por outro lado, é real. A própria idéia de que a inocência está sob constante ameaça no mundo nos enche de pavor verdadeiro. Quanto mais repassamos, auxiliados pelas reconstituições minuciosamente ilustradas dos portais da Web, o que pode ter acontecido no apartamento, mais nos assustamos com o que nós somos. A forma nos ajuda e nos afasta desta disposição para o terror. Ela trai e adia esta experiência fornecendo um esquema conhecido de interpretação, ela nos torna expectadores; põe grades na janela, nos impendindo uma “queda em si”.

Na verdade se pudéssemos atravessar o palco e espiar as coxias do teatro do simbólico, perceberíamos o caráter farsesco de todo este drama. No jogo absurdo de janelas, caro leitor, algo nos elude. Na transparência entrevemos algo opaco, brumoso, adiáfano. E o que encontramos – perdidos na vertigem do olhar – não é outra coisa senão um enorme e polido espelho. E nele, a nos fitar, nossos olhos enormes de macaco.

10/02/2008

O cidadão americano

daniel christino, 12:22 am
Filed under: especulativas,literatura,Política

Direto do blog do Hermenauta – e das minhas saudosas aulas de Antropologia no curso de Jornalismo da UFG, em 1991.

O cidadão norte-americano  
Ralph Linton, antropólogo 

“O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.

Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário tem a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.

De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente

Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da Europa.

Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano.”

LINTON, Ralph. O homem: Uma introdução à antropologia. 3ed., São Paulo, Livraria Martins Editora, 1959. Citado em LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 16ed., Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003, p.106-108]

11/01/2008

Como você interpreta?

daniel christino, 2:09 am
Filed under: Educação,especulativas,livros

Por conta do doutorado tornei-me uma máquina de ler e escrever. Nada a ver, infelizmente, com o mundo cotidiano. Embora meu tema seja o jornalismo, sua interpretação acadêmica afasta-se bastante do que ocorre no dia-a-dia da redação, embora nunca deixe a distância tornar-se intransponível, ou meu trabalho servirá apenas para calçar mesa.

Dentre as leituras obrigatórias para minha tese está Paul Ricoeur. Num texto sobre a relação entre hermenêutica e ciências sociais há uma passagem muito legal; motivo deste post.

Portanto, de acordo com certo ponto de vista, a hermenêutica é compreendida como a reconstrução de um significado endereçado a um intérprete na forma de uma mensagem. Este tipo de hermenêutica é animada pela fé, por uma predisposição para ouvir, e é caracterizada pelo respeito ao símbolo como forma de revelação do sagrado. De acordo com outro ponto de vista, porém, a hermenêutica pode ser compreendida como a desmistificação de um sentido apresentado pelo interprete sob a forma de um disfarce. Esta forma de hermenêutica é animada pela suspeita, por um ceticismo em relação ao dado, e é caracterizada pela desconfiança em relação ao símbolo, entendido como uma dissimulação do real.

As implicações desta distinção são muito interessantes. Denota não apenas uma diferença de método, mas de maneiras próprias – e até mesmo opostas – de encarar a atividade intelectual e a própria existência. Alguns de nós somos mais propensos a desconfiar, enquanto outros ouvem com maior “caridade”. Obviamente alternamos entre um e outro pólo dependendo do assunto. Não vejo como interpretar proposições políticas senão do segundo modo. Entretanto, não se pode, ao meu ver, entender arte senão do primeiro modo. Em todo caso, ao assumirmos qualquer das posições parecemos já ter escolhido a maneira como nos dispomos em relação ao assunto ou ao autor. Eu, do meu lado, costumo me fiar mais do que desconfiar. E vocês?

25/12/2007

Natal

daniel christino, 1:55 am
Filed under: Cotidiano,Educação,especulativas,interiores,Umbigo

Pelo horário do post vocês já devem imaginar que comi horrores e não consigo dormir nesta madrugada de natal. Então, aqui vai um post cheio de pernil, salada com pesto, arroz com castanhas e trufa (que sobremesa maravilhosa!).

Natal é clima. Natal é família. Natal é surpresa. Este ano ganhei dois presentes incríveis. O primeiro foi da minha esposa, Adriana (um beijo, meu bem). Ela me deu o livro “A cidade e a infância” do escritor português José Luandino Vieira. Estou lendo e adorando. Depois comento mais.

Já o segundo presente veio num e-mail inesperado.

Comecei a dar aulas por impulso, obedecendo a um prazer bem próprio e egoista: eu gostava de conversar com os outros sobre o que eu lia ou estudava, e gostava também de explicar-lhes como eu me sentia ao ler e estudar o que eu lia e estudava. Na verdade eu não me importava muito com o impacto do que eu falava nas outras pessoas. Dava aulas porque me sentia bem fazendo isso. Claro, eu tive alguns professores geniais, dos quais ainda me lembro com muito carinho (Udo, Luis Cláudio, Jordino, Adriano, etc.), mas nunca havia atinado para a intensidade deste tipo especial de relacionamento. Como o Pedro, minhas amizades sempre constituiram laços intelectuais e emocionais muito mais fortes. Meus amigos mudaram minha vida muito mais do que meus professores.

Recebi, ontem, este e-mail de uma ex-aluna da Alfa. Era uma menina meio sonolenta e emsimesmada. Não se saia muito bem nas avaliações e nem participava ativamente das aulas. Parecia meio deslocada em sala, chegava sempre atrasada e me olhava com um ar entre o desprezo e o enfado, pelo menos para mim. Enfim, era uma aluna mediana. Lembro-me dela porque fui convidado como avaliador para sua banca de TCC (trabalho de conclusão de curso). Sinceramente nem me lembro de qual foi o título do seu trabalho – ela se formou em 2005.

Na carta ela diz coisas como “Na primeira aula que assisti na turma de jornalismo da Faculdade Alfa, no segundo semestre de 2001, um professor de cabelos longos, anelados, falava sobre a responsabilidade do jornalista no que ele chamava de “construção da realidade”. Fiquei maravilhada. Até então, não havia experimentado o prazer de assistir a uma aula, do inicio ao fim, sem “piscar os olhos”.

Ou então “Na verdade, eu não gostava de ser eu. No início, o que eu mais gostava era de assistir as aulas desse professor de cabelos compridos. Ele era tão jovem, tão inteligente, tão brilhante. Eu o admirava. Eu o amava. Queria ser notada por ele. Queria merecer sua admiração. Queria retribuí-lo pelo prazer do conhecimento que despertara em mim“.

Era pra eu ficar envaidecido, não é? Só que no seu TCC eu não lhe dei nota 10 – eu, especificamente, porque sua orientadora queria lhe dar 10. Nem me importei com o significado da nota para a garota. Por princípio não avalio pessoas, procuro avaliar a obra apenas – a única evidência objetiva que possuo. Pois é, ao final do e-mail a garota desabafou: Foi nessa fase, já no final do curso, que vi na monografia a única possibilidade de fazer algo que eu realmente me orgulhasse. Na verdade, eu queria meu estimado professor pra me orientar no trabalho, não deu. Mas, tudo bem, trabalhei duro ao lado de pessoas maravilhosas, que me apoiaram e me ensinaram muito… Eu queria, mais uma vez, movida pela vaidade, provar pra todo mundo, o quanto eu era boa. Não medi esforços pra fazer um trabalho nota 10… Virei noites a fio. Eu sonhava com um 10 pra esfregar na cara do mundo. Pra eu me sentir 10.

Sacanagem não é? Ela, então, arremata: Professor, hoje eu entendo: a vaidade era minha. Quando percebi (demorou alguns meses), tive uma profunda vergonha do que fiz. Da maneira ridícula como chorei ao telefone, fazendo chantagem emocional… Achei, então, que não era mais digna do seu respeito e decidi esquece-lo para sempre. Não consegui. Agora, não me importa a nota que você dará para este e-mail. Fiz o que tinha de fazer, da forma mais digna e sincera que pude. Sinto-me livre.

Que coisa maravilhosa e perigosa é ser professor! Havia me esquecido completamente. Tão acostumado eu fiquei com as colas e os plágios, com a preguiça intelectual e com essa maldita estupidez democraticamente distribuída entre as idades e os sexos, que me esqueci do principal: o vínculo humano pressuposto no ato de ensinar. Ela realmente havia me ligado chorando, tentando explicar como aquele ponto (ou pontos) significou a mais avassaladora e sombria derrota que ela jamais sofrera. Fiz ouvidos moucos, não me movi.

Sabe, eu fico feliz da garota se ver, finalmente, livre de mim. Também eu devo aprender a me esquecer.

Feliz Natal

29/10/2007

Le mot juste

yuri vieira, 4:27 pm
Filed under: especulativas,literatura

Talvez eu já tenha comentado isso neste blog: durante muitos anos tive ansiedades mil com o tal “mot juste” – a palavra exata – e a conseqüente paranóia de estar sendo demasiado prolixo. Tudo aumentava quando, ao revisar um texto, eu me apercebia de que, em vez de cortar, eu acabava era acrescentando mais palavras e frases, o que apenas intensificava minha culpa estética e a sensação de estar fazendo tudo errado. No entanto, nesses últimos dois anos, enquanto reviso e reinicio loucamente um livro do qual nada ouso comentar, me dei conta do seguinte: ainda na adolescência introjetei tão fortemente esse princípio do Flaubert que, em algum momento que não sei precisar qual foi, passei a escrever apenas esqueletos sem carne. Ou seja, o tal princípio do “mot juste” passou a atuar a priori: meu texto já nasce cortado. Logo, ao iniciar uma revisão, sempre noto que mais falta ajuntar que retirar palavras. Muitas vezes fico chocado com a excessiva concisão que, se mantida, certamente deixaria o leitor perdido. E, por isso, aos poucos vou adicionando a carne, os nervos e a pele. Hoje, sinto-me mais tranqüilo ao ter essa consciência. E todo o problema agora se resume a não deixar o texto gordo demais, a não lhe dar muito de mamar, porque magro ele já nasceu.

Sou um escritor brasileiro com filhos desnutridos. Por enquanto, a maioria tem morrido durante o parto, o que me dá muita pena. Um dia, terei uma família.

03/09/2007

Second Life, a volta do que não foi

daniel christino, 5:54 pm
Filed under: especulativas,internet,Second Life,sites

Enquanto não me afogo em minhas próprias secreções nasais (argh!!!!) surfo distraído pela Internet e trombo com esta matéria do Estadão. “O fim do Second Life como o conhecemos“. Mas o futuro já acabou? Pensei, entre uma e outra aplicação de Aturgil. Lembrei-me imediatamente de outra notícia, agora do Portal G1, “Atração ‘De volta para o futuro’ é desativada no parque da Universal“. Eu gostava muito desta série, cujo melhor filme é, como quase sempre, o primeiro. A partir de então assisti a tudo que o diretor Robert Zemeckis fez. Discutia-se, há pouco tempo, a possibilidade de mais um filme da franquia, mas a suspensão do brinquedo no parque da Universal jogou um balde de gelo na boataria.

E o Second Life? Bem, as possibilidades iniciais do joguinho (joguinho, joguinho, joguinho) se esgotaram rapidamente a medida que as pessoas iam descobrindo o óbvio. A vida do dia-a-dia é muito chata, seja ela virtual ou não. Segundo a matéria do Estadão

O modelo de exploração se esgotou rapidamente. Levar uma segunda vida ficou chato e sem graça para 80% dos usuários, que abandonaram seus avatares depois da “febre” no início do ano. Hoje, há 9,2 milhões de residentes cadastrados, mas apenas 465 mil estiveram conectados na última semana.

Realmente, ajudar uma senhorita a ficar milionária com bugigangas para alguns tamagochis ultrasofisticados não iria muito longe, mesmo sendo a população mundial pouco atormentada pelo bom senso. A matéria abre flanco para mais uma modificação “revolucionária” (bem, eles não usam o termo, mas o título tem algo de fênix, né não?): a possibilidade de conhecimento gratuíto. Mas meu ceticismo deu o alarme. Querer redefinir o modo de relação das pessoas num ambiente virtual pelo diapazão intelectual é coisa complicada. Em geral nossas relações sociais se pautam pelo emotivo, pelas tonalidades afetivas. Bem esperemos. Ou ele se estabelece ou será mais um joguinho desativado.

25/05/2007

Algumas verdades inconvenientes

1) Sim, Hollywood ficou toda prosa com o filme do Al Gore. Contudo, ninguém me tira da cabeça que o cinema americano – com suas enormes explosões, incêndios e tiroteios – é responsável por pelo menos 50% do efeito estufa. O que quer dizer que, se não fosse o cinema deles, a Terra seria mais fresquinha. Sacou? Sem os filmes do Rambo, do governador Schwarzenegger e, sei lá, sem os filmes sobre a guerra do Vietnã, seria possível até mesmo nevar aqui no Centro Oeste. (Na fazenda da minha saudosa avó materna, geava. O tempo passou, a véia morreu e não geia mais.)

2) O Jornal Nacional mostra uma reportagem falando coisas terríveis sobre a poluição dos rios e a porcaria que são as tais garrafas plásticas e demais dejetos não-degradáveis encontrados em meio à natureza. (São mesmo, principalmente quando muito distantes da possibilidade de serem recolhidos e reciclados.) Em sua locução, a Fátima Bernardes faz a mesma cara de quando o Brasil perde um jogo na Copa, aquele olhar de amiga de defunto recém empacotado. Intervalo comercial: Coca-cola, guaranás x, y, e z. Todos em garrafas PET. Volta o jornal e aparece o William Bonner todo sorridente mostrando uma apreensão de toneladas e toneladas reluzentes de CDs e DVDs piratas sendo esmigalhadas por tratores ou seja lá o que for aquele monstro de ferro e aço. O pátio da polícia federal fica repleto de pequenas montanhas de lixo plástico e… alumínio? Não sei. Sei apenas que não falam nada a respeito do destino de tanto lixo. Por que não? Meu Deus! Por que nããão? À noite, a cabeça cheia de circunferências metálicas de brilhos iriados, os olhos teimam em arregalar-se. Tento dormir. Não consigo.

3) Prosseguindo minha pesquisa no Google, volto a encontrar vários sites se referindo ao aquecimento do próprio Sol. (Sim, basta digitar “solar warming“.) Isso me deixa preocupadíssimo, afinal ninguém parece dar atenção ao tema, o Al Gore não passa nem triscando nele, e o Sol impávido segue sua órbita ao redor do centro da Via Láctea, um colosso a ignorar nossos temores. Porra, penso, cadê a ONU? Alguém precisa multar o responsável pelo Sol, ameaçá-lo com uma comissão de astrônomos e, por que não?, de astrólogos. Caso o Sol prossiga com sua maldade, seria necessário enviar os capacetes azuis para tomá-lo de assalto, invadi-lo e fincar lá a bandeira das Nações Unidas. Hmmm. Sim, sim. É fato, os sacanas dos americanos certamente não cederão os foguetes da NASA. The bastards! Será preciso recorrer à Rússia, um povo muito mais racional…

4) Hugo Chávez acusa os futuros produtores de etanol de roubar terras necessárias à agricultura de alimentação, mas não se dá conta de que, segundo aquele pessoal da ONU que o convidou para xingar o Bush de diabo lá em Nova Iorque, o aquecimento global – responsável pela tal desertificação e pelo desarranjo climático destruidor das hortas das velhinhas camponesas de todo o mundo – é supostamente causado pela queima do petróleo que sustenta seu governo corrupto. Ou será que ele já tem a confirmação de que a culpa é apenas do Sol?

20/05/2007

O que move o movimento?

daniel christino, 2:01 am
Filed under: Cotidiano,Educação,especulativas,Política

Vocês já matutaram sobre a expressão “movimento estudantil”? Pois é. A primeira coisa que me vem à cabeça é a seguinte pergunta: para onde? Já que se move, em qual direção vai? Nos últimos anos tem ido da esquerda para a esquerda, ou seja, não sai do lugar. Segunda coisa: se há movimento, então algo se move, logo, o que está se movendo? O estudante? Só se for para sair de casa e invadir reitorias ou, num passado não tão distante, jogar pedra em presidente. Enfim, será que ainda podemos atribuir a esta expressão algum sentido? Eu acho que sim.

(Continua…)

18/05/2007

Telefones clonados e Oriente Médio

yuri vieira, 2:01 pm
Filed under: Cotidiano,especulativas

Minha irmã, que por mais de cinco anos trabalhou para a Embratel e depois para a Brasil Telecom, me disse que a quase totalidade das ligações feitas por telefones clonados se dirige ao Oriente Médio, principalmente à Arábia Saudita, ao Iraque, à Líbia, aos Emirados Árabes e ao Líbano. “Havia listas e listas com essas ligações”, contou-me ela. Grande parte dessas clonagens são feitas por presidiários a partir de celulares e de suas “centrais telefônicas” piratas. Num belo dia, você abre sua conta telefônica e percebe que alguém fez uma ligação para um desses países que lhe custou a bagatela de R$1500, R$2000 ou R$3000… Peraí! Sobre o que essa gente tanto conversa? Petróleo? Maomé? Aviões?… As únicas ligações clonadas que tinham destino certo eram as realizadas para Lichtenstein, na Alemanha: um serviço de sexo por telefone. Bem, não creio ser essa a especialidade do Oriente Médio…



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