No site do Quino, o criador da Mafalda, encontrei este cartum que me lembrou minha infância de invernos paulistas e verões cariocas. A pergunta do garoto, em português, é a seguinte: “Mamãe, sinto algo, não sei muito bem onde, que não sei o que é. O que é?”
Mês: dezembro 2003 Page 3 of 4
A crescente opressão exercida pelos fundamentalistas islâmicos sobre certos povos pode ser sentida através da leitura de Persepolis, uma HQ de Marjane Satrapi. Em comparação com a protagonista de Satrapi, podemos dizer que Mafalda era feliz e não sabia…
“O que me eriçou foi escutar, uma vez mais, um colega fazer angelismo e celebrar, com uma lágrima nos olhos, esse grande sentimento de fantasia: esperar um mundo todo açúcar e homens com asas. Nos lares, bem entendido, pensavam que se tratava de um nobre coração. Para mim, tratava-se de um representante de venenos. A literatura dispõe muitas vezes para esta segunda profissão.”
“O messianismo é uma doença cíclica do espírito.”
(Louis Pauwels)
“E há apenas um meio pelo qual mudar a vida. Não é que nossa vida comum seja galvanizada por um acontecimento. É que nossa vida comum, por meio da consciência espiritual, deixa de ser vivida de um modo comum. (…) Na realidade, nada nos proíbe de alcançar a serenidade e a plenitude no mundo tal como ele é, a não ser a atmosfera cultural.”
“O materialismo se diz científico, tal como o lobo se dizia avó.”
“Eu acredito que a pior poluição é a dos espíritos que deixam de amar o progresso.”
“Deus acha bem que a Natureza seja moldada para fazer homens.”
(Louis Pauwels)
“‘Mas, diga-me, acredita que uma ordem social ideal seja possível?’
“Vasonofiev olhou Isaac com uma expressão doce. Sim, aquele olhar fixo, inflexível, desligado, também podia encher-se de doçura, tal como sua voz. Falando em voz baixa, com poses, disse: ‘Há algo de mais importante e de mais fundamental do que a ordem social: trata-se da ordem interior. Não existe coisa alguma, mas nada, nada mesmo, que seja mais precioso para o homem do que sua ordem interior. Nem mesmo o bem das gerações futuras.'”
“Há professores que transmitem por atacado suas idéias, que se surpreendem pelo fato de a juventude ter pouco apetite intelectual. Eu surpreendo-me menos. Se tivesse de fazer meus estudos sob o peso da ideologia dominante, confesso que preferiria a moto ou o fliperama. Não teria grande pressa em apreender, para aprender que não existo.”
Estive relendo trechos de um livro imperdível: “A importância de viver”, de Lin Yutang. Embora eu ainda o ache excelente, já não engulo todas as idéias do escritor chinês, principalmente as referentes à religião. (Isso graças à suposta biografia de Lao Tsé, citada anteriormente, cujas idéias me parecem mais verdadeiras.) No entanto, os capítulos que tratam “do senso de humor”, “da dignidade humana”, “da doutrina do indivíduo”, “do sex appeal”, de “envelhecer graciosamente”, ” da arte de estar deitado”, “da arte de sentar nas cadeiras”, “da arte de conversar”, “do chá e da amizade”, “do fumo e do incenso”, “da bebida e dos jogos-de-vinho”, “da curiosidade gratuita”, “do espírito humano”, ” do fato de termos um estômago”, “dos trinta e três momentos felizes de Chin”, “da grandeza”, “das flores e seu arranjo”, de “sair e ver coisas”, da “arte de ler”, da “arte de escrever”, da “volta do senso comum”, etc. e tal são impagáveis. E a tradução é de Mário Quintana.
Meu pai veio se lamentar comigo: a municipalidade – tentáculo estatal – não lhe deu ganho de causa. Dizem que ele invadiu, com uma pequena laje diante da porta de entrada de sua casa, um espaço público. Mentira, as fotos anexadas ao processo provam o contrário. Nunca aquele local foi mais público e bem tratado do que agora: mil e um transeuntes fugindo da chuva se abrigam ali naquele nicho. E o muro não avançou um centímetro sequer. Mas é claro que viver numa cidade sob o julgo do PT é assim mesmo: roubo atrás de roubo. (E o IPTU progressivo vem aí!) O pior é que mais tarde, bem mais tarde, essa corja de politiqueiros e funcionários – cheia de má vontade – ainda vai nos dar o maior dos trabalhos: teremos de contribuir para resgatá-la inteirinha do inferno. (Claro, se a ira não me dominar a ponto de acompanhá-la ao suplício.) Essa gente, quando desencarna, pesa feito chumbo…
Meu período brasiliense (1992-1997) foi o que mais me aproximou da realidade. Provavelmente porque eu nunca me inteirava dos mesquinhos acontecimentos mundiais e tampouco, é claro, das nossas inúmeras besteiras nacionais. Dos fenômenos, apenas o imediato me importava. Do universal, me bastavam as idéias, os conceitos, os princípios, as essências… Daí tanta gente me achar um nefelibata, principalmente os politicamente engajados, que me viam como um alienado. E isso me incomodava? Nadica de nada. Certa feita, cheguei a passar todo um dia achando as pessoas inexplicavelmente sombrias, depressivas, para só entender — por intermédio de um amigo com quem dividia apartamento no Centro Olímpico da UnB — para só entender o que se passava tarde da noite: Ayrton Senna havia morrido. Da mesma forma, em 1994, passei horas e horas folheando livros e mais livros numa biblioteca estranhamente deserta, toda minha. Um dia de leitura paradisíaco. Na lanchonete do subsolo compreendi o mistério: o Brasil acabara de se classificar para a final da Copa do Mundo! Mas como, se eu nem sabia que a seleção estava na semifinal? As pessoas e seus interesses… A realidade é mais em cima e mais dentro do próximo. Desligar a televisão é o primeiro passo para a meditação…
