blog do escritor yuri vieira e convidados...

Mês: fevereiro 2007 Page 2 of 5

O islã segundo Wafa Sultan

Al Jazeera entrevista a psicóloga Wafa Sultan:

O Labirinto do Fauno

labirinto-do-fauno-poster11t.jpgBelo filme. Embora se apóie em contos de fada, não é um filme infantil. É pesado, rude, violento.

Mãe e sua filha se mudam para uma área de conflitos na Espanha, durante a guerra civil. A mulher está grávida do comandante militar encarregado de extinguir os rebeldes. Na mansão, a menina descobre um labirinto de pedras.

O Labirinto do Fauno, do mexicano Guillermo del Toro, tem uma trama criativa. Os atores são muitos bons e o visual é bonito. Recebeu 6 indicações ao Oscar: filme estrangeiro, roteiro original, trilha sonora original, fotografia, direção de arte e maquiagem.

Na verdade, o filme trata da crueldade humana. Mostra-a sem concessões. E quando a realidade é o inferno, resta a fantasia.

Sem despedida

A vida é amarga, mas não é amarga como um bom café. Ela é chata, pequena, mesquinha. Depois dos dezesseis anos todo sonho já vem com o carimbo de Sonho Impossível. Mas eu sou teimosa: eu sonhei assim mesmo. Eu quis enxergar um charme especial naquele cabelo grisalho, e não apenas o sinal de que ele mentia a idade. Eu quis acreditar na ex-mulher de Petrópolis, nas razões mais do que justas para um divórcio repentino; eu quis ser compreensiva, e imaginar uma megera que só se preocupava com academia e botox. Quis ver um amor paternal na forma como ele falava da cocker spaniel, no carinho e na dedicação que eu pensei que um dia seriam para mim. Naquele hotel em Cabo Frio, eu chupei como uma profissional, eu abri as pernas em cima da mesa, depois ainda fiquei me perguntando se eu tinha sido perfeita. Ah, como eu queria acreditar que eu tinha sido perfeita! Quando as flores começaram a chegar, eu pensei: “Até que não foi tão difícil. A proposta e o anel vêm depois”. Ainda havia nos meus olhos cansados, um resquício de comédia romântica que me fazia pensar em anel, em dança de salão, em palavras de filmes antigos. Naquela manhã constrangedora, ele disse que seu único vício era o café, e eu quis acreditar também nessa bobagem. Os filmes não me ensinaram dos outros vícios, da capacidade para mentir, do desprezo inabalável que um homem pode sentir, mesmo depois de dois anos. Isso eu tive de aprender aos tropeços, entre um riso fingido e uma manhã de ressaca, um orgasmo fingido e um telefone que não toca. Mas eu sou teimosa: eu sonhar vou apesar de tudo. Eu vou acreditar que ele temia me perder para alguém mais jovem, que ele gaguejava quando falava minha idade para os amigos, que ele escondia os famosos comprimidos azuis no bolso interno do paletó. Semana que vem eu já vou olhar aquelas fotos com outros olhos. Vou acreditar no meu próprio riso falso, vou jurar para uma amiga que eu fui feliz. E esse choro irritante de hoje, esse silêncio, que não me deixa perguntar onde eu errei, vai ser só mais uma lembrança, indigesta como a porra que engoli em Cabo Frio. E quando outro homem falar em cocker spaniel, quando eu vir uma
gravata de seda e outro dedo sem aliança, os meus olhos vão estar prontos para mais poesia, e a minha boca, para mais sêmen. Porque, eu sou teimosa, eu vou sonhar de qualquer jeito, até que a realidade me atenda, nem que seja por piedade do meu desespero.

O polêmico aquecimento global

Rolou, no correr da semana passada, uma discussão interna entre os colaboradores deste blog, via email, a respeito do aquecimento global. Na verdade, participei mais enquanto observador – não tenho acompanhado esse tema com a devida atenção -, mas meus colegas de nome bíblico (Pedro, Paulo e Daniel) andaram medindo os bigodes. Paulo e Pedro já trabalharam nessa área por anos, tendo o Paulo sido superintendente do Parque Ecológico de Goiânia e o Pedro, geógrafo e consultor na área, além de cineasta, com documentários tratando do assunto circulando por aí. Ah, vale dizer que ele também traz os genes do pai, o jornalista Washington Novaes, com anos e anos de dedicação ao debate ambiental. Já o Daniel é mais como o autor deste post, imagino: assim como eu fui um militante da Fundación Natura, no Equador, foi ele membro de um grupo de militância ambiental anos atrás. Enfim, na referida discussão, meu único comentário foi: vcs deviam ter escrito isso tudo no blog. Já que ainda não vejo sinais do debate por aqui, aproveito para dar a deixa ao sugerir a leitura do post do Pedro Sette Câmara, Václav Klaus sobre o aquecimento global, no blog O Indivíduo.

Sobre ciência e religião III

Eu deveria gerenciar os temas vinculados à discussão em seus respectivos posts originais e não pentelhar a área principal do blog com comentários sobre comentários dos comentários. Mas fiquei com pregüiça e resolvi colocar tudo num último post – que é último apenas porque não vou mais postar sobre isso, não porque resolvi a questão. Deveria também continuar o post anterior (o nº 2), mas como houve desdobramentos bastante interessantes, optei por comentá-los. Vamos lá.

O DC-6 do John Wayne

Dia 28 de fevereiro será reprisado, no Telecine Cult, o filme Um fio de esperança (The High and the Mighty) (1954), protagonizado por John Wayne. Trata-se, salvo engano, do primeiro filme a explorar o drama de passageiros e tripulação de um vôo comercial em pane. Ou seja: é o avô da série de filmes Aeroporto dos anos 70, que, nos anos 80, desembocou em Apertem os cintos o piloto sumiu. Bom, minha intenção não é tratar exatamente do filme, mas sim do avião Douglas DC-6 utilizado nas filmagens.

Esse avião foi comprado em 1957 por uma das maiores empresas brasileiras de aviação à época, a Lóide Aéreo Nacional, da qual meu pai foi funcionário. Em 1961, o presidente Jânio Quadros foi informado de que o coronel Marcílio Gibson Jacques – veterano da Segunda Guerra e um dos proprietários da Lóide – estava contrabandeando motocicletas para o Brasil em caixas que supostamente traziam peças de avião. Filmes como O Selvagem, com Marlon Brando, haviam alavancado o interesse por motos, mas os impostos cobrados pelo governo brasileiro tornavam a compra desse sonho de consumo mais sonho que consumo. Jânio Quadros fez então aquilo que nossos políticos chamam de política, a saber, colocou o coronel Gibson contra a parede: ou ele vendia por uma quantia irrisória a Lóide Aéreo para a Vasp (uma autarquia do governo paulista) ou iria para a prisão por contrabando. Assim, neste mesmo ano, a Vasp, para espanto do mercado, comprou sua rival várias vezes maior e mais cara que ela própria. Mas essa é uma outra história…

O DC-6 do filme tornou-se, pois, propriedade da Viação Aérea de São Paulo, com quem permaneceu até mais ou menos 1968, quando então a Vasp passou a adquirir apenas jatos da Boing. O avião, aliás, tinha uma placa de metal logo à entrada da cabine: “Este avião serviu como palco do filme Um fio de esperança, protagonizado por John Wayne”. Em 1968, já funcionário da Vasp, meu pai tentou vender o avião para uma empresa de Buenos Aires, que preferiu adquirir um dos Vickers Viscount da empresa paulista. Hoje, se o avião ainda existir, deve pertencer a alguma empresa do Peru, Bolívia ou Colômbia – meu pai não se lembra quem ao certo o comprou. Em meio à desordem dos nossos aeroportos, isto talvez signifique que não somente a Vasp, mas também todo um leque de companhias de aviação nacionais, realmente perdeu seu último fio de esperança…

O Troll nosso de cada dia

O Pedro Novaes publicou esta semana a mensagem que recebemos de um dos nossos Trolls. Eu havia deletado o comentário do figura e ele então o reenviou via formulário de contato. Quem tem blog sabe o que é um Troll: um troglodita ignorante que vem berrar e nos xingar em nossa própria casa (home), acreditando que, por sermos defensores da democracia, isto será aceito de bom grado. O Rafael Arcanjo publicou um ótimo texto sobre o tema. (Tal como ele, eu também já detectei, pelo IP, comentários fakes em que o Troll faz um novo comentário, sob diferente identidade, apenas para apoiar um seu comentário anterior. Ahahaha. Esses caras são muito otários.)

Mais vegeto que vivo?

“Como é que ousaram dizer que eu mais vegeto que vivo? Só porque levo uma vida um pouco retirada das luzes do palco. Logo eu, que vivo a vida no seu elemento puro. Tão em contato estou com o inefável. Respiro profundamente Deus. E vivo muitas vidas. Não quero enumerar quantas vidas dos outros eu vivo. Mas sinto-as todas, todas respirando. E tenho a vida de meus mortos. A eles dedico muita meditação. Estou em pleno coração do mistério.”

Clarice Lispector, em A Descoberta do Mundo

Religião — a parte simples e a parte complexa

“and the historical sense involves a perception, not only of the pastness of the past, but of its presence.” (T. S. Eliot)


A parte simples:

O sexo gera filhos. Se você duvidar dessa afirmativa, não será difícil verificá-la. Pegue uma mulher. Durante dez anos, faça apenas sexo anal com ela, e não deixe que nenhum outro homem a penetre. Deixe que os outros a vejam, toquem-na, beijem-na no rosto, na boca, mas não deixe que ninguém faça sexo com ela, e você mesmo só fará sexo anal com a coitada. Você verá que ela não vai engravidar. Depois volte a fazer sexo normal com ela. Se você e ela forem saudáveis, e ela não tomar anticoncepcionais (não a deixe tomar anticoncepcionais!), você verificará que sexo engravida.

Pegue outra mulher. Tranque-a numa cela ou num palácio. Chame-a de “Virgem Divina” se você quiser, (mesmo que ela não seja virgem), mas não deixe que ninguém faça sexo com ela. Durante toda a vida da pobre mulher, faça com que ela permaneça trancada, com acesso apenas a outras mulheres. Você verificará que a pobre nunca vai engravidar. Então ficará provado. A geração de filhos depende do sexo. A mulher que não faz sexo não engravida, a mulher que faz sexo engravida. Depois você vai descobrir que é o sêmen que engravida e não propriamente o sexo, mas isso já é um aperfeiçoamento da experiência; por hora basta o sexo mesmo. O importante é notar que a ciência fala sobre essas coisas: as coisas que podem ser refeitas e verificadas por qualquer ser humano. Podem ser experiências complexas ou simples, mas mesmo quando se especula sobre a velocidade dos quarks ou a expansão permanente do universo, nenhum cientista espera que as experiências que verifiquem suas teorias possam ser feitas apenas por ele mesmo. Muito pelo contrário, em ciência, uma experiência só tem validade se puder ser refeita por outra pessoa e levar aos mesmos resultados que a experiência inicial. A característica da verdade científica é que ela pode e deve ser verificada enquanto estamos vivos. Mesmo que isso exija o manuseio de instrumentos complexos e uma inteligência fora do comum, o fato é que a ciência fala sobre as coisas que todos nós podemos conhecer, e, se conhecermos, conheceremos antes da morte.

Agora, já que falamos em sexo, vamos falar sobre o adultério. O adultério é pecado, quer gere ou não gere filhos. Quando traímos, entristecemos a pessoa amada, e isso é pecar contra a caridade, não apenas no cristianismo, mas também no judaísmo e no islamismo. Maomé disse que podemos ter quatro esposas, mas não que poderíamos trair essas esposas com uma mulher solteira ou com a mulher de outro. O adultério é um pecado relativamente grave (no islamismo é punido com a pena de morte) e, quando reiterado sem arrependimento leva ao inferno. Essa última parte é que é importante para este estudo. O adultério leva ao inferno. O sexo por amor, dentro do casamento, leva ao céu. E onde fica o inferno? Onde fica o céu? Não sabemos nem temos como saber, pois, só os conheceremos depois da morte.

Não sei se vocês estão entendendo onde quero chegar. A diferença radical entre religião e ciência não está no modo como elas dizem as coisas, está no assunto de que elas tratam. A ciência trata de coisas que podemos conhecer enquanto estamos vivos. A religião fala do que vai nos acontecer depois da morte. Não existe religião que não fale no que há depois da morte. Se existe, mostre-ma, por favor.

Então a ciência vai falar coisas como: o sexo gera filhos. A religião fala coisas como: o adultério leva ao inferno. As duas afirmativas falam sobre sexo. Só que a primeira fala sobre algo no sexo que pode ser verificado por qualquer ser humano enquanto ele está vivo. A segunda fala sobre algo no sexo que não pode ser verificado por um ser humano vivo. Não se pode ser adúltero, ir para o inferno, e depois voltar para dizer que os padres tinham razão.

(Atenção: não confunda as coisas. Não venha me dizer: “mas você está partindo do princípio de que o inferno existe, e isso, em si mesmo, não é um princípio verificável”. Não estou partindo do princípio de que o inferno ou o céu existam, estou partindo do princípio de que a morte existe. E isso sim, é verificável. Se você acha que não vai morrer, você é um boboca.)

Sobre ciência e religião II

Tentarei, neste post, responder as provocações feitas pelo Yuri, Paulo, Ronaldo Brito Roque e Frederico ao meu post sobre a relação entre ciência e religião.

Em primeiro lugar, tentarei traduzir o problema em termos argumentativos. Para fazer isso, precisarei inferir argumentos a partir do que foi postado pela galera; o que sempre inclui uma boa dose de subjetividade e risco. Se houver incompreensão da minha parte acerca dos pontos de vista assumidos por vocês, avisem.

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