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Friday, February 17, 2006

No podemos tener amigos!

yuri vieira, 3:37 am
Filed under: Cotidiano, Política, Viagens

O Paulo Paiva, que esteve em Cuba com nossa amiga comum Andréa Leão, é que deveria contar essa história. Mas já que ele está enrolando – e tem mil outras cubanidades para narrar – vou contar ao menos essa, que muito me marcou. Ambos estavam em Havana, hospedados no apartamento de Alexey, um amigo cubano – que conheceram aqui mesmo no Brasil – e se preparavam para ir passar alguns dias com outros amigos do outro lado da cidade. Como Alexey (o amigo) tinha carro, imaginavam que ganhariam uma carona até lá. As malas feitas, a bagagem pronta, ouvem do anfitrião:

“Desculpe, não poderei levá-los, mas vocês vão conseguir um taxi fácil-fácil aí na rua”.

Andréa e Paulo acharam normal, tudo bem, disseram, não queriam incomodar o cara que certamente teria mais o que fazer. Mas Alexey permanecia constrangido, uma expressão de consciência pesada estampada no rosto.

“Olha”, começou ele, “não é porque não quero levá-los ou porque estou muito ocupado para fazê-lo” e olhou pra esposa. “É porque aqui em Cuba”, disse irritado, “nosotros no podemos tener amigos!”

“No les diga eso, cariño…”

“Pero, si es la verdad, ¿por qué no lo puedo decir?”

Andréa e Paulo ficaram espantados, olhando-se de soslaio, ouvindo aquela estranha discussão. A esposa tinha mais admiração pelo sistema cubano que o marido, e por isso preferia fazer vistas grossas a certos “detalhes”.

“O problema é o seguinte”, tornou Alexey. “Se eu colocar vocês dois no meu carro e sair por aí, certamente serei parado na rua por uma blitz e a polícia ou me multará ou me prenderá por estar trabalhando ilegalmente como taxista. Eles nuuunca vão acreditar que vocês, dois estrangeiros, são meus amigos. Se vocês disserem isso a eles acharão que estão apenas tentando limpar a minha barra, tentando condescender comigo. Porque aqui”, e voltou a encarar a esposa, “nosotros no podemos tener amigos!

Paulo e Andréa, temendo pelo amigo (e por uma briga política de casal), foram então buscar um taxi.

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3 Comments

  1. rodrigo fiume escreveu,

    Em contraponto (mas não uma defesa):

    O governo incentiva a carona entre os próprios cubanos. É fácil ver pessoas em Havana pedindo e conseguindo carona, desde que, como você disse, não sejam estrangeiras. Mas acho que isso é mais porque o transporte é ruim (tem um ônibus hilário, puxado por um caminhão; chamam-no Camelo, algo assim) do que por solidariedade ou preocupação ambiental. Veja http://fotola.com/berylium/fiume/document-fiume429673ea6c240.html

    Abs. R.

    Comentário de 17-2-2006 @ 8:04 pm

  2. O Garganta de Fogo » Que coisa mais fofa! escreveu,

    [...] E ainda tem gente que, só porque o comunismo é “uma coisa do passado”, acredita que não é mais uma ameaça. Como se viajar para Cuba fosse uma viagem feita numa máquina do tempo e não de avião. Paulo, pelo amor de Deus, cara, conta logo em mil crônicas como foi a viagem que você fez a Cuba com a Andréa. Cada vez que a encontro, ela me conta mais histórias cabeludas que você parece ou ter deletado ou recalcado. (Será que o Paulo é um agente castrista infiltrado no Garganta?! Ah, essa minha paranóia! Onde está mesmo o meu cachimbo, querida? Pelo menos eu mesmo já contei uma.) Viver em Cuba só não é um inferno absoluto porque os cubanos são seres humanos. Aunque el cochino Fidel Castro todavía esté intentando hacer com que todos allí se vuelvan animales… [...]

    Pingback de 3-5-2006 @ 1:21 pm

  3. O Garganta de Fogo » Quase demitido escreveu,

    [...] Acho que o eDitador terá de demitir o Paulo Paiva do Garganta. O cara foi a Cuba com nossa amiga Andréa Leão, tirou várias fotos (divulgou pouquíssimas), passou por vários apertos e até agora não nos contou nada a respeito. Tanto que, em Fevereiro, eu mesmo tive de narrar um dos inúmeros causos. Em geral, apenas os amantes da ideologia comunista vão a Cuba e, exatamente por acreditarem no que acreditam, voltam contando maravilhas do regime. Tudo mentira ou ilusão, por supuesto. A Andréa, por exemplo, adorou a paisagem, a comida, a música, a bebida, mas, caso fosse uma cubana exilada em Miami, teria sido a primeira a ir comemorar nas ruas a doença do Fidel Castro. Odiou a ditadura e as barbaridades que esta faz os cubanos passar. [...]

    Pingback de 12-8-2006 @ 7:13 pm

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