16/06/2006

A culpa é da sociedade

yuri vieira, 1:33 am
Filed under: Cotidiano,Humor,Política,teatro

Um filme que vezenquando costuma voltar à minha mente é o Monty Python Live at the Hollywood Bowl. Trata-se da filmagem duma série de esquetes apresentados num teatro da Califórnia pelo engraçadíssimo grupo inglês. Na verdade, a cena que interessa aqui é a do assassinato do Bispo de Leicester, reconhecido graças a uma tatuagem na nuca. Enquanto o casal que o encontra discute se é melhor chamar a polícia ou a Igreja, o filho intervém: “Chame a Polícia da Igreja”. Dito e feito, vem ao palco um par de policiais em trajes eclesiásticos em busca de indícios que possam delinear ao menos um suspeito. Interrogam, pois, diversas testemunhas – da forma mais gaiata possível – e, incapazes de descobrir qualquer prova mais substancial, caem de joelhos e pedem a Deus que lhes dê uma luz, que lhes aponte o assassino. Então, diante do estupor dos demais personagens e das gargalhadas da platéia, surge do alto do proscênio uma mão enorme com o indicador em riste a apontar para a cabeça do homicida: “FOOOI EEELE!!!”, brada uma voz profunda e cavernosa. Num átimo, a Polícia da Igreja voa sobre o culpado que, à guisa de defesa, não diz senão que sempre foi um injustiçado e que “a culpa é da sociedade”. Os dois Policiais da Igreja, convencidos de que ele tem razão, passam a interrogar os demais: “Você faz parte da sociedade? Sim? Então está preso. E a senhora? Também é um membro da sociedade? É? Está presa. E você garoto?” E, assim, toda a sociedade vai parar na cadeia…

Bem, os últimos acontecimentos aqui no Brasil apenas corroboram o fato de que é exatamente este o processo pelo qual estamos passando. Esse discurso politiqueiro que prima pela “justiça social” substituiu completamente o ideal de “sociedade justa”, onde cada indivíduo precisaria seguir basicamente a regra de ouro: não fazer ao próximo o que não gostaria que lhe fosse feito. No entanto, essa deturpada justiça social não é senão o modo pelo qual as responsabilidades individuais são diluídas na coletividade, uma vez que, segundo essa gente revolucionária, o indivíduo não tem qualquer valor e muito menos existência real. Como algo desprovido de existência pode assumir responsabilidades? Nessa perspectiva, só a coletividade tem peso nas equações e, sendo a nossa sociedade uma produtora de criminosos, é ela própria a verdadeira criminosa. Se os coitadinhos do PCC, do MLST e do PT podem sair por aí matando, depredando e corrompendo, a culpa não é deles, mas da sociedade que supostamente os forjou, afinal não são capazes de tomar decisões por si mesmos, não possuem livre-arbítrio individual, são um único monstro com milhares de cabeças. E, claro, sua mãe e responsável é a maledetta sociedade.

Por isso, se você é da sociedade, se você faz parte dela, mais dia menos dia estará atrás das grades, sejam estas grades as da sua casa ou prisão, sejam elas as das fronteiras do seu estado, cidade ou país, sejam elas as dos limites do que pode ser pensado, criado, informado, expressado, consumido. Porque os amantes do estatismo e do coletivismo querem fazer a sociedade espiar suas culpas o mais profundamente possível. Para eles, a sociedade é criminosa e não merece a liberdade. O que você acha que Cuba é afinal? Uma sociedade presa, uma sociedade no xadrez. Se seus cidadãos fossem livres, não precisariam fugir em balsas e bóias até Miami. Não ficariam tão isolados do mundo, sem internet e demais meios de comunicação independentes. (Já imaginou? A TV oficial de Cuba se chama TV Rebelde!!!) Os “cidadãos” cubanos têm comida e remédios? Prisioneiros sempre têm essas coisas. Exceto a liberdade de ir e vir.

Enfim, quer botar toda a sociedade na cadeia? Vote no Lula, apoie Fidel Castro e Hugo Chávez, ache lindos o PCC, o MST, o MSLT, o PT e entidades semelhantes. Viva o mal feito! Mas não se esqueça: inocentar culpados é incriminar inocentes. Um dia, isso lhe será cobrado.

Posts relacionados

Mais posts:

« « O poder da mente| Frase de cinema — 8 » »




6 Comments

  1. Paulo Paiva escreveu:

    Yuri, lembrei de nossas conversas no FICA! Muito bem escrito!

    Comentário de 16-6-2006 @ 5:57 pm

  2. daniel christino escreveu:

    Eu não resisto. Yuri, eu gosto bastante da regra de ouro, mas essa formulação tua tem um problema. Ela não nos diz como agir corretamente. Levada ao extremo – ao absurdo – ela significa: não faças nada e serás virtuoso. Um homem dormindo obedece à regra de ouro, mas será que ele é realmente virtuoso? Por outro lado, você está negando a existência da sociedade ou apenas afirmando que ela é a reunião de vários indivíduos? E quais seriam as implicações disso? A base da democracia é a capacidade dos indivíduos funcionarem como uma coletividade referenciada em valores fundamentais. Tomar a piada do Monty Phyton como séria implica uma teoria da interação dos indivíduos que possa, ao mesmo tempo, explicar a ação individual e a formação de instituições e não acho que se possa fazer isso sem o conceito de sociedade ou mesmo “desintegrando-o” como você fez. Bem, mas isso é apenas o que eu acho. 😉

    Comentário de 17-6-2006 @ 1:28 pm

  3. daniel christino escreveu:

    Correção…fui injusto no post anterior. O Yuri não procura desintegrar a idéia de sociedade, na verdade ela permanece lá, escondida. O texto tem outro objetivo que não havia percebido: criticar o sociologismo como explicação para a violência brasileira. Neste ponto concordo com o Yuri. Não há explicação fácil para o problema. Mas a relação indivíduo-sociedade ainda está na base do problema. Basta assumir que a formação de cada indivíduo depende do teor das relações sociais nas quais ele está mergulhado. Por incrível que pareça, a noção de indivíduo depende completamente da noção de coletividade assim como o diferente só aparece se contrastado com o mesmo. Por isso o indivíduo é uma ficção tanto quanto o social. A não ser, é claro, que você acredite na alma…:)

    Comentário de 17-6-2006 @ 1:36 pm

  4. yuri vieira escreveu:

    Vou confessar uma coisa, Daniel: depois que escrevi o primeiro parágrafo desse texto, eu já estava com tanto sono que o restante saiu apenas num embalo do tipo “ai, deixa eu terminar pra ir logo pra cama”. De fato, não quis ir tão longe na análise. Qualquer hora voltarei ao tema. A idéia era simplesmente dizer que esses radicais que lutam pelo “social” não querem senão punir a tal sociedade ao mesmo tempo que a inculpam por seus próprios crimes. A loucura é que eles não conseguem mesmo perceber que também eles são indissociáveis do restante da sociedade e que, por isso mesmo, apenas ampliam os crimes que seus membros cometem. São apenas masoquistas inconscientes travestidos de sádicos justiceiros.
    Abração!

    P.S.: Pensei que vc iria aparecer no FICA, cara.

    Comentário de 18-6-2006 @ 4:19 pm

  5. O Garganta de Fogo » Alemanha X Grécia escreveu:

    […] Outro dia comentei por alto – no texto A Culpa é da Sociedade – sobre o filme Monty Python Live at the Hollywood Bowl. Esqueci de dizer que, entre os atos da apresentação, o grupo humorístico inglês projetava alguns curtas-metragens impagáveis. O Márcio Santana Sobrinho me enviou o link de um deles, veja: […]

    Pingback de 12-7-2006 @ 8:20 am

  6. O Garganta de Fogo » Ê, Cubão! escreveu:

    […] e curtir um totalitarismo ninguém topa. Fidel en el culo ajeno es refresco. Envie por email | Imprima Mais posts:« « Diplomacia demerda| […]

    Pingback de 9-8-2006 @ 4:17 am

Sorry, the comment form is closed at this time.




Add to Technorati Favorites



Blogarama - The Blog Directory








79 queries. 0,685 seconds. | Alguns direitos reservados.