O Garganta de Fogo

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Stanislaw Lem partiu para Solaris

Pois é, morreu o Stanislaw Lem, conforme noticiou o Yuri ali embaixo. Este escritor polonês, autor de mais de 30 livros, escreveu o clássico de ficção-científica Solaris, duas vezes adaptado para o cinema, por Andrei Tarkovski e por Steve Sodebergh. Entre os dois filmes, fico com o livro, uma das obras literárias que mais me angustiaram e impressionaram até hoje.

Antes de mais nada, fundamental ressaltar, Solaris está longe da ficção-científica tradicional, embora se passe num tempo futuro ignorado e envolva viagens espaciais, pesquisas cósmicas e relação com uma inteligência extra-terrestre. Além de ser um thriller psicológico impossível de se largar após o primeiro capítulo, é um livro que se coloca profundas questões sobre os limites da razão e da Ciência, sobre a natureza do conhecimento e do inconsciente.

Kris Kelvin, um cosmonauta, é enviado a uma estação espacial que flutua sobre o planeta-oceano Solaris para investigar estranhos acontecimentos. Experimentos realizados pela tripulação, na tentativa de entender algo sobre a natureza daquele oceano vivo, tiveram como resposta o envio de “visitantes” pelo planeta a cada um dos habitantes da estação: réplicas em carne, osso e consciência de figuras do passado de cada um. A ex-noiva suicida de Kelvin aparece em seu quarto; Snow tem um visitante estranho; Gibbarian, o comandante da estação, se suicidara depois da visita de uma mulher.

Para além das inquietantes perguntas que essa situação limite coloca, a enormidade de Solaris vem do contexto em que toda esta loucura acontece. Os seres humanos conhecem Solaris há séculos e, no entanto, este estranho planeta-oceano não se dá ao conhecimento pela via da razão e da Ciência. Há bibliotecas e bibliotecas de estudos e informações produzidas sobre o planeta por gerações e gerações de toda uma “Ciência Solarista”, como a denominam, e, entretanto, é como se tudo continuasse no zero. Teorias e teorias foram construídas ao longo dos anos apenas para que novas informações ou novos comportamentos da parte do próprio planeta as jogassem por terra.

O grande oceano de Solaris é vivo e encontra-se em constante movimento, produzindo formas fractais gigantescas que se expandem pela atmosfera para depois se desfazerem. E tudo isso encara a todos como um insolúvel e insondável mistério. Por outro lado, no entanto, os humanos, são sondáveis para o próprio planeta, como demonstra o envio dos visitantes. Esta inversão de papéis e o confronto com uma ontologia que nos transcende são a raiz da profunda angústia que o livro inspira.

É uma obra absolutamente monumental. A edição brasileira atual é da Relume Dumará. Na Saraiva tem. A Livraria Cultura, por sua vez, tem Solaris em inglês e outros livros de Lem. Se você já leu, este site, da Washington State University, tem um interessante roteiro de estudo e discussão de Solaris.

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1 Comment

  1. Solaris é o melhor livro de ficção científica que já li. SE o Yuri estiver certo, Stanislaw Len está agora em Solaris, ao lado de Platão e Freud, batendo um papo animado.

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