O Garganta de Fogo

blog do escritor yuri vieira e convidados…

A traição de Judas

Acabei não indo assistir – apesar da insistência do meu bróder, o artista-plástico Juliano Moraes – ao documentário da National Geographic sobre o famigerado Evangelho de Judas. Aliás, creio que ele não ouviu – na festa em que nos encontramos, ocupado que estava em discutir com certo Barbosa sobre “arte crítica”, “crítica de arte”, gnosticismo e “religião enquanto mítica” – o motivo da minha preguiça. Na verdade, após todos os alcoóis, até mesmo eu acabei por me esquecer do meu argumento contra a validade dessa idéia de Judas ter apenas obedecido a Jesus quando de sua traição. Graças ao De Gustibus, veio-me a lembrança e vejo que não fui o único a levantar a questão, aliás, uma questão óbvia. Também o Cláudio – e provavelmente mais alguns milhões de pessoas mundo afora – no blog Se Liga:

Desculpem a minha ignorância nesses assuntos, mas se Judas não fez nada mais que atender a um pedido do próprio Jesus quando o traiu, por que ele se enforcou depois?

Claro que alguém poderá dizer: e quem pode ter certeza se ele realmente se suicidou? Bem, nesse caso darei um sorrisinho pseudo-fundamentalista e voltarei à leitura do meu livro de Urântia, que dá uma boa idéia da piração do revolucionário Judas, o qual esperava ver seu Mestre convertido no Messias político de sua crença e à cabeça duma luta armada pela emancipação do povo hebreu. Judas achava que, feito o Neo da Matrix, Jesus, caso fosse realmente o prometido Messias – àquela altura, devido à aparente contradição de certas atitudes do mestre, Judas já acumulava muitas dúvidas e rancores pessoais -, assim que se visse nas mãos dos seus inimigos, poderia partir pra porrada cósmica. Seu raciocínio era: se o Mestre é quem diz ser, se livrará sozinho de seus perseguidores; se não o é, não terei feito mais que minha obrigação ao livrar o mundo de um falso Messias. Sim, porque esse papo de “meu Reino não é deste mundo” não entrava na cabeça do confuso apóstolo, para quem este mundo era tudo o que de fato existia. Ainda assim, segundo consta, sua traição foi um “chover no molhado”, um ato completamente desnecessário à consecução dos planos do Mestre. Judas se deixou meramente levar pelo orgulho ferido e pela vergonha de participar de um grupo que definitivamente não pretendia aderir à batalha política contra o invasor estrangeiro.

Eis o capítulo 4, do Documento 179 (A última ceia), que trata d’As últimas palavras ao traidor:

Por alguns minutos os apóstolos comeram em silêncio, mas, sob a influência do comportamento jovial do Mestre, logo foram levados a conversar, e a refeição passou a transcorrer como se nada fora do comum estivesse acontecendo que interferisse no bom humor e na harmonia social dessa ocasião extraordinária. Depois de algum tempo, mais ou menos na metade da segunda parte da refeição, Jesus, olhando-os a todos, disse: “Eu vos declarei o quanto eu desejava realizar esta ceia convosco e, sabendo como as forças do mal e das trevas conspiraram para a morte do Filho do Homem, eu determinei compartilhar esta ceia convosco, nesta sala secreta, e um dia antes da Páscoa, pois eu não mais estarei convosco amanhã a esta hora. Eu já vos disse repetidamente que devo retornar ao Pai. Agora a minha hora chegou, e não era necessário que um de vós me traísse entregando-me nas mãos dos meus inimigos”.

Quando os doze ouviram isso, tendo sido tirado deles muito da sua auto-segurança e autoconfiança, com a parábola do lava-pés e com o discurso subseqüente do Mestre, eles começaram a olhar uns para os outros, enquanto em tom desconsertado perguntavam hesitantes: “Serei eu?” E então, quando eles todos se haviam perguntado isso, Jesus disse: “Já que é preciso que eu vá para o Pai, não havia a necessidade de que um de vós se tornasse um traidor, para que a vontade do Pai fosse cumprida. Isso é devido à maturação do fruto do mal, escondido no coração daquele que não conseguiu amar a verdade com toda a sua alma. Quão enganador é o orgulho intelectual que precede a queda espiritual! Um amigo meu de muitos anos, que ainda agora compartilha comigo do meu pão, está prestes a trair-me, este mesmo que agora coloca a sua mão junto comigo no prato”.

E quando Jesus acabou de dizer isso, eles começaram novamente a perguntar: “Serei eu?” E Judas, assentado à esquerda do Mestre, de novo perguntou: “Serei eu?” Jesus, segurando o pão no prato das ervas, passou-o a Judas, dizendo: “Tu o disseste”. Os outros, entretanto, não ouviram Jesus falar a Judas. João, que estava reclinado no divã à mão direita de Jesus, apoiou-se e perguntou ao Mestre: “Quem é? Deveríamos saber quem é que se mostrou infiel à confiança nele depositada”. Jesus respondeu: “Eu já vos disse, o mesmo a quem eu dei o pão empastado”. Era tão natural, entretanto, o anfitrião assim passar um pedaço de pão àquele que se assentava à sua esquerda, que nenhum deles notou isso, ainda que o Mestre o tivesse dito tão claramente. Mas Judas estava dolorosamente consciente do significado das palavras do Mestre ligadas ao seu ato, e tornou-se temeroso de que os seus irmãos estivessem agora também cientes de que era ele o traidor.

Pedro estava bastante agitado com aquilo que tinha sido dito e, inclinando-se para a frente sobre a mesa, dirigiu-se a João: “Pergunte-lhe quem é; ou, se ele tiver dito a ti, dize-me quem é o traidor”.

Jesus colocou um fim àqueles sussurros dizendo: “Entristeço-me de que esse mal tenha acontecido e até este momento esperei que o poder da verdade pudesse triunfar sobre o engano causado pelo mal, mas essas vitórias não são ganhas sem a fé do amor sincero à verdade. Eu gostaria de não ter de dizer essas coisas, nesta que é a nossa Última Ceia, mas desejei prevenir-vos sobre esses sofrimentos e, desse modo, preparar-vos para o que nos espera. Eu vos disse isso porque desejo que vos lembreis, depois que eu me for, de que eu sabia sobre todas essas conspirações maldosas, e que vos preveni sobre a traição feita contra mim. E tudo isso eu faço apenas para que sejais fortalecidos contra as tentações e provações que estão pela frente”.

Depois de falar assim, Jesus, inclinando-se para o lado de Judas, disse: “O que decidiste fazer, faze-o em seguida”. E, quando Judas ouviu essas palavras, levantou-se da mesa e apressadamente deixou a sala, saindo à noite para executar o que tinha decidido cumprir. Quando os outros apóstolos viram Judas apressar-se e sair depois que Jesus falou com ele, pensaram que ele tinha ido à procura de algo complementar para a ceia, ou cuidar de alguma mensagem para o Mestre, pois supunham que ele, tendo servido como tesoureiro, ainda estivesse com a bolsa.

Jesus sabia agora que nada poderia ser feito para impedir que Judas se tornasse um traidor. Ele começara com doze – agora estava com onze. Ele escolhera seis dentre esses apóstolos, e ainda que Judas estivesse entre aqueles indicados pelos próprios apóstolos escolhidos inicialmente, mesmo assim o Mestre aceitara-o, e tinha, até esta mesma hora, feito tudo o que era possível para santificá-lo e salvá-lo, do mesmo modo que havia trabalhado para a paz e a salvação dos outros.

Essa ceia, com os seus episódios de ternura e com os seus toques de brandura, foi o último apelo de Jesus ao desertor Judas, mas esse apelo resultou em vão. Uma vez que o amor esteja realmente morto, a advertência, mesmo quando ministrada da maneira mais cuidadosa e transmitida com o espírito mais bondoso, via de regra, apenas intensifica o ódio e acende a determinação maldosa de efetuar integralmente os próprios projetos egoístas.

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1 Comment

  1. Sempre penso que quando a mídia “solta” algo, é pq. descobriu outros algos mais importantes. Tá todo mundo careca de saber que Jesus pediu a Judas a traição. Isso tá na Bíblia. Agora, o quebra-cabeças a ser montado é o seguinte: por que os poderosos querem que vejamos Judas como alguém cumpridor de sua missão? O que está por trás desse recado subliminar que resolveram soltar, assim, como se fosse novidade.
    Ainda: me preocupa mesmo é o fato de estarem fuçando nas pirâmides, e imagino que você saiba porque.
    Trobeijo!
    Volto breve!

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