04/03/2007

Linhas Tortas

daniel christino, 2:35 am
Filed under: Cotidiano,escritores,este blog,literatura

Quando comecei a escrever para o blog corri à livraria mais próxima e comprei o livro. Quem dera eu tivesse 10% da capacidade do Graciliano para a ironia fina! Desisti muito cedo de ser escritor, em alguma medida por conta do texto que segue. Foi uma porrada bem dada no meu ego.

O literato em esboço é um sujeito que tem sempre no cérebro um pactolo de idéia e que ordinariamente não tem na algibeira um vintém.

É poeta na acepção vulgar da palavra – é desocupado. Anda com a cabeça no ar, como convém a um indivíduo que faz versos. Através da fumaça branca de seu cigarro percebe vagamente alguma coisa muito brilhante e muito grande a acenar-lhe. É afoito, ri muito, gesticula em excesso, fala alto, principalmente a respeito de sua pessoa.

Agrada-lhe falar de sua pessoa.

Não almoça todos os dias, mas todos os dias escreve algumas tiras.

Explora tudo. Com a agilidade de um símio, passa das complicadas e impenetráveis veredas de Gabriel d´Annuzio às largas estradas que Balzac abriu.

Não tem idéia fixa… perdão, tem uma idéia fixa, uma idéia que o persegue, que o atormenta, que o não deixa um instante – está plenamente convencido de que tem valor, um valor incalculável, e sente viver num desgraçado planeta que não o admira. Lamenta a imbecilidade dos homens, que lhe não erguem altares.

Porque ouviu dizer alguns que é preciso ser audaz para vencer, leva a audácia ao extremo. É arrogante, sentencioso, decisivo.

Não dá sua opinião sobre coisa nenhuma – afirma, preleciona, dogmatiza. Não admite que se lhe contraponham argumentos. Intolerante como S. Policarpo.

Fala em Artre com unção, afetando assim uns modos de sumo pontífice em brochura. Está sempre a referir-se aos contos que publica nessa gazeta, aos sonetos que tem mandado àquela revista, às crônicas que lhe têm rendido um êxito considerável, a romance que elabora. Segundo sua asserção, os jornais que lhe estampam os produtos são publicações muito bem orientadas, redigidas por cintilantes talentos. Tem no fundo da mala e na gaveta de sua banca de trabalho vastos artigos repletos de elogios a suas lucubrações e cartas panegíricas assinadas por grandes homens, imensos. Por modéstia, não ostenta essas provas de seu mérito.

Diz: “Ruy tem merecimento, não há dúvida” – como quem diz: “É um menino que promete”.

Não vive só. Detesta o isolamento que o obriga a sopitar a ânsia de andar apregoando as concepções do seu potente cérebro.

Ordinariamente pertence à camarilha de algum corifeu intelectual, que recebe pomposo nome de Mestre, criatura sobrenatural, possuidora de predicados que não podem ser compreendidos pela percepção romba do vulgo, entidade impecável que está infinitamente distante dos aguilhões da crítica quase sempre manejadas por indivíduos invejosos.

Se um simplório qualquer pronuncia o nome de augusto do Mestre irreverentemente sem bater nos peitos, sem dobrar os joelhos, sem agitar o turíbulo, ele, o dogmático, o altivo grande homem em gérmen, esmaga, anatematiza, fulmina o herege estúpido. Forma, com outros caldatários desse poderoso Paxá das letras, uma espécie de cenáculo, uma enérgica instituição que tem dois objetivos – exaltar condicionalmente as produções de seus membros e vilipendiar sistematicamente todas as obras de indivíduos estranhos à seita.

Assim, cada um dos sócios da comunidade encontra sempre quem o enalteça, despendendo grande cópia de adjetivos ruidosos. O sócio elogiado deve por amabilidade e por gratidão retribuir todos os encômios recebidos, afirmando que o sujeito que o honrou é simplesmente um gênio.

Para isso escreve um artigo no qual introduz sagazmente vários sinônimos dos qualificativos que lhe foram aplicados.

É inútil dizer que o artigo será cortesmente e generosamente recompensado.

Por semelhante processo, com modo, suave, todos são grandes, pelo menos a seus próprios olhos.

Entretanto, é comum observar-se que uma criatura que hoje, em público, faz apologia de um colega, pode amanhã asseverar convictamente, entre íntimos, que o mesmo colega é uma cavalgadura…

Coisas da vida! Dizem que há pessoas que se parecem com os cataventos.

O intelectual embrionário gira, e gira muito. Questão de conveniência.

Não me parece fácil fazer-lhe a psicologia. Mas estou convencido de que se Theophrasto fosse vivo, poderia acrescentar algumas páginas a seus Caracteres.

Tudo isso para descobrir, muito tempo depois, que a mesma coisa acontece na Universidade e em outros lugares mais cintilantes. Não há como dar a volta em Graciliano, ele é parada obrigatória, sempre.

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