O Garganta de Fogo

blog do escritor yuri vieira e convidados…

Você empurraria o gordo?

Segue abaixo o artigo do meu amigo, oftalmologista, colega de mestrado e editor Flávio Paranhos publicado pelo O popular.

Há uma discussão interminável entre a filosofia e a ciência quanto à natureza da ética, que pode ser resumida da seguinte forma. Do lado dos filósofos: “Do ‘assim é’ não se pode derivar o ‘assim deve ser’”. Do lado dos cientistas: “Se do ‘assim é’ não se pode derivar o ‘assim deve ser’, do que, então, se derivará?!”. Os filósofos denunciam a falácia naturalista, os cientistas, a falácia da falácia.

A questão se é legítimo que se derivem normas morais a partir da observação de dados experimentais objetivos (ou mesmo comportamentais subjetivos, de toda forma empíricos, ou seja, baseados na experiência e não na pura especulação teórica) seria resolvida facilmente se limpássemos o meio-de-campo: ética normativa de um lado, ética descritiva de outro. Negar a utilidade da ciência para a compreensão do comportamento moral humano (ética descritiva) é ser ingênuo e turrão (quer ofender um filósofo ou um cientista? Chame-o de ingênuo que ele sobe nas tamancas). Por outro lado, derivar normas disso é outra coisa.

Um recurso muito utilizado pela turma da psicologia que se interessa pelo assunto são os chamados dilemas morais. Há inúmeros deles, alguns retirados da vida real, outros da ficção, e outros ainda montados experimentalmente para testar hipóteses em amostras de populações. A escolha de Sofia (lembram-se do filme, com Meryll Streep?) é célebre: à uma mãe é dada a chance de escolher um dos filhos pra salvar dos nazistas. Se não escolher, morrem os dois, se escolher, morre só um. Isso mesmo. Uma das características dos dilemas morais é que são muito sacanas. Testam o limite, sem dó. Não há saída honrosa. Não há qualquer saída. Quem viu o filme sabe o que aconteceu com Sofia.

O que me traz aqui é outro dilema moral. Foot & Thomson propuseram o “Problema do bondinho”. Numa bela manhã de domingo, você está passeando e vê que um bondinho está desgovernado e indo direto pra cima de cinco trabalhadores. Feliz ou infelizmente, você está exatamente no lugar do controle do bondinho e basta apertar um botão pra desviá-lo. Só que se você fizer isso, ele vai direto pra cima de outro trabalhador. Então? Você mata um, ou mata cinco? Antes que queira bancar o espertinho já vou dizendo que a opção “gritar e alertar os trabalhadores” não está disponível (eu avisei, dilemas morais são sacanas).

Agora uma variação, proposta por Cushman, Young & Hauser. Você está passeando numa ponte e vê o tal bondinho desgovernado em direção aos cinco trabalhadores. Só que desta vez não há botão pra apertar. Só uma coisa pode parar o bondinho, algo muito pesado. E há uma pessoa muito gorda ao seu lado. Não será difícil, pois o parapeito é baixo.

Se você não hesitou em matar o trabalhador sozinho em vez dos outros cinco, na primeira hipótese, mas deixou os cinco morrerem, na segunda, fique tranqüilo. É o que a grande maioria fez. Se respondeu diferente, cuidado, você pode ser um psicopata e não saber. Melhor checar.

Voltaremos a esse assunto em breve, com a perspectiva das neurociências.

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13 Comments

  1. bruno costa

    Humm… não acho um bom exemplo não, esse último. Muito fantasioso, e não se poderia generalizar que qualquer um teria mesmo a certeza de que empurrando o gordinho salvaria os cinco trabalhadores. Ele poderia ter apenas um pé ou braço decepado, ou pior, bater a cabeça na rua e morrer, sem descarrilhar o bondinho do Cushman, Young & Hauser. Eu pensaria: “E se eu acabar matando o gordinho E os cinco trabalhadores?”. Não se pode negar isso, sob pena de tornar o exemplo totalmente artificial e inverossímil. Claro, nessa indecisão, eu acabaria matando os cinco trabalhadores, mas em minha consciência, teria matado 5, e não 6 pessoas. Daniel, vc não acha que os exemplos, para que deles se possa extrair conclusões confiáveis devem ser tirados da vida real ou de situações possíveis e verossímeis? Por que o sujeito não pode gritar para os cinco trabalhadores?

  2. Ronaldo Brito Roque

    Cara,

    que texto interessante!
    Obrigado por postar esse texto.

    Caso se trate de uma cidade grande, eu mato os cinco. Caso se trate de uma cidade pequena, eu mato o um.

    Aqui, no Rio, por exemplo, tem muita gente. Se morrerem cinco pessoas, ou quinhentas, não vai fazer a menor falta. Meu padeiro vai continuar trabalhando, e terei acesso a pães. Se meu padeiro morrer, outro toma o lugar dele. Meu entregador de pitsa vai continuar trabalhando, e terei a cesso a pitsas. Se ele morrer, outro tomará o lugar. Dele. Meu taxista continuará trabalhando e terei acesso a lugares linginquos. Se ele morrer, outro tomará o lugar dele. Numa cidade grande, cinco ou cinqüenta pessoas podem morrer, e isso não faz diferença. É por isso que quando dizem que 50 mil pessoas morrem por ano no Brasil, eu nem ligo. Moro numa cidade com 10 milhões de habitantes. 50 mil é nada para a gente. Aliás, se morresse mais gente seria até melhor, pois os imóveis baixariam de preço.

    Porém, numa cidade pequena, a coisa é diferente. Se morrem cinco pessoas. Uma delas é o padeiro e outra é o leiteiro. Isso significa que vc passará um bom tempo sem pão e sem leite (até outra pessoa tomar o lugar deles). Numa cidade pequena, menos gente é igual a menos acesso a bens, por isso a morte é muito mais doída numa cidade pequena que numa cidade grande, onde o morto faz falta apenas para a família dele.

    Assim, se estivéssemos numa cidade grande, eu mataria cinco. Se estivéssemos na cidade pequena, eu mataria o gordão, pois não gosto de gordos.

    Abraços,
    Rbr

  3. É graças a posts como este — e a comentários como o do Ronaldo aí acima (ou aquele do Bruno) — que me pergunto para quê insisto em manter este blog… (suspiro)

  4. O senso de humor do Ronaldo deve estar estragado ou então sintonizado em um frequencia extraterrestre.

  5. * “uma freqüência” (ando meio disléxico ultimamente)

  6. Bruno, eu acho que os dilemas forçam a barra porque estão menos preocupados com a verossimilhança do que com a solidez dos fundamentos morais implícitos nas situações-modelo. Até onde podemos esticá-los e o que isso nos diz sobre nossa moralidade?

    Ademais, do ponto de vista argumentativo, uma tese, caso seja realmente universal, deve valer para cada caso imaginável de aplicação. Do mais simples ao mais complexo. O que está por trás do exemplo do gordo? Se existe algum caso no qual a morte deliberada de uma pessoa inocente é justificável. Se existir, então a vida não é um valor absoluto e universal e haverá circunstâncias nas quais este valor deverá ser relativizado. Por outro lado, se você resolver não matar o gordo, você se sentira responsável pelas mortes decorridas da sua omissão? Veja só, o segundo caso discute o argumento fundamental do dilema da delação. Você vê um grupo de jovens comprando maconha ou pó na praça perto da sua casa. Você liga para a polícia denunciando? Se não ligar, você é co-responsável pela violência decorrente do tráfico de drogas? Insinua-se, neste exemplo, a relação entre princípios e conseqüências (ou responsabilidades). Os princípios podem até ser divinos – ou ditados por Deus – mas as conseqüências são claramente humanas.

    O post do Ronaldo, longe de ser bobinho, toca noutro ponto bastante espinhoso. Se a vida é um valor absoluto – e não relativo – porque suportamos tão bem o fato de que outras pessoas estão morrendo (de fome, de frio, assassinadas, etc.) mortes não-naturais enquanto vivemos nossa vida? Lembrei-me de um episódio de “Além da Imaginação” que o Yuri adorava contar nas mesas de bar, sobre um casal que recebe uma caixa com um botão vermelho e toda vez que apertavam o botão, alguém desconhecido deles morria. Então tomaram a caixa de volta, e disseram ao casal que a entragariam a alguém que não os conhecia.

    Yuri (suspiro), por favor, faça a gentileza de me dizer o que há de errado com o post (bocejo)?

  7. Rosa

    Isso, Daniel! No post do Ronaldo lê-se exatamente isso. O entregador de pizza e o taxista existem sob a perspectiva dele. Se morrerem outros farão pelo Ronaldo o mesmo. Assim é para o taxista e o entregador de pizza, se o Ronaldo fosse empurrado do bondinho (mesmo não sendo gordinho e não gostando deles), haverá sempre passageiros ou famintos na madrugada. A vida do Ronaldo seria tão irrelevante pra eles quanto a deles parece ser pro Ronaldo.
    Voltando ao bondinho, a vida dos cinco vale menos que a minha ou daquele um que deveria ser salvo? Aqueles cinco poderiam ser os amigos do Garganta e aquele um o Fernandinho Beira-mar. Ou vice-versa. Isso faria diferença do ponto de vista moral? Uma vida vale mais que a outra? Então a vida não é valor fundamental absoluto, é relativo?
    É isso que essas estorinhas tentam fazer desde os gregos, é uma espécie de ensaio pra vida. E são muito mais importantes do que parecem. Nos dias de hoje, ao menos nos fazem pensar a respeito de vez em quando, já que vivendo em lugares com “vidas” em excesso, ao que parece elas perdem a importância, a singularidade, a especialidade com que deveriam ser percebidas. Somos todos anônimos, números. Com excessão das “celebridades”, claro! Porque essas “vidas” subiram um degrau acima e podem ser apreciadas em tempo integral, elas participam das outras “vidas”. Será por isso esse despero pela celebridade? Se escaparmos da multidão, o entregador de pizza e o taxista sentiriam a nossa falta? Ou somente se eu fosse uma celebridade “legal”? Ou uma celebridade “controvertida”? (Desculpem, estou fugindo do assunto).
    Pensem num médico plantonista de um hospital referência na Grande Recife num fim-de-semana prolongado que coincide com greve dos profissionais de saúde do Estado (exagerei? Lembrem-se que esses dilemas são sempre muito sacanas!)! O dilema moral dele, incluindo decisões sobre quem recebe atendimento e quem morre esperando, dura TODO o plantão e não há tempo pra discussão ou consulta. A única saída pra essa “vida” é tomar vários Lexotan e meia garrafa de uísque (com muita sorte depois que o plantão acaba!).
    Beijos pra todos

  8. filipe

    daniel,
    faço coro às indagações da rosa. parâmetros como “e se os 5 fossem amigos do garganta e o um fosse fernandinho beira-mar” fariam diferença do ponto de vista moral?

    o problema do plantonista tb é muito bom. acho até q não precisava forçar tanto uma situação, rosa (fim-de-semana prolongado e greve). depois q meu pai faleceu na UTI de um hospital (nao é o melhor da cidade mas tb não é uma referência), fiquei sabendo por um amigo funcionário do local, q era prática comum suspender o funcionamento das máquinas e do tratamento médico caso o plantonista concordasse q o caso ja era “perdido”. assim aconteceu com meu pai, segundo meu amigo fulaninho, e nao precisou-se de greve nem de fim de semana prolongado nem de nenhuma particularidade exceto o caos em q se encontra o serviço público de saúde. assim acontece com uma tuia de gente poraí. ce sabe, o estado não tá muito disposto a gastar dinheiro com esse tipo de paciente e os médicos precisam sempre recorrer a cursos de humanização para lembrarem-se q “meche com gente”.
    esse tipo de dilema moral poderia ser bizarro noutros tempos. nao hj em dia.

  9. Respondendo sua pergunta, filipe: sim, faria toda a diferença. Porque nos engajaria na situação, tornando-a menos formal. Por exemplo, se eu surpreendesse um ladrão apontando uma arma para o Yuri e eu tivesse que matar o ladrão para salvá-lo, eu…(pausa para a reflexão)…bem…mataria o ladrão antes que ele matasse o Yuri. Porque eu conheço o Yuri e ele é meu amigo. Mas e se o Yuri estivesse, em legítima defesa, a ponto de matar o assaltante, eu mataria o Yuri? Não. A princípio não. Na verdade, dá para discutir isso por horas.

  10. Paulo Paiva

    Daniel, a estória do botão vermelho era contada por mim. Nem todas as estórias foram contadas pelo Yuri. Humpf!!!

    E, na situação apresentada pela Rosa, eu mataria o fernandinho beira-mar sem pensar um segundo.

  11. Giancarlo

    Respondendo ao primeiro dilemma, analisando o problema sob uma visão humanista, como podemos julgar-nos capacitados para escolher quem deve viver ou não? Não se trata aqui de uma questão de números, mas de valores. As 5 pessoas possuem direito à vida com o mesmo peso que o outro 1.

    Neste pensar, qualquer julgamento nosso é inválido e incompleto, situado em um plano de escolhas inferior, dualístico e imperfeito, em contraste com um plano superior, chamado “Destino”. Deveríamos então nunca influir nas ações da mãe natureza, e deixar que seja feita a chamada “vontade de Deus”. Mas como bem relata a literatura religiosa de várias formas, fomos expulsos do paraíso justamente por não agir assim.

    Bom, feita esta assumpção, concluo que julgamos sim os outros e o mundo, de acordo com nosso relativismo humano dualístico. Neste caso olho com naturalidade o comentário do Ronaldo. Está cheio de Ronaldos aí fora. Eles só não se manifestam porque vivem em uma sociedade castrada pela moral cristã.

    Agora, quanto à MINHA decisão, ainda não sei se estou aqui para agir alterando o curso da história ou me colocar ao serviço de um desígnio maior. Se me deparasse com a situação, deixaria os 5 morrerem por indecisão.

  12. Giancarlo

    Completando o terceiro parágrafo: “moral cristã hipócrita”

  13. aron

    situação familiar?

    um navio cheio de detentos e outro cheio de civis. ambos estão cheios de bombas, e cada um tem o detonador do outro.

    eles tem uma hora para detonar o outro, se o fizerem, podem fugir. se ninguém agir, ambos explodem.

    acho que a situação d’O Cavaleiro das Trevas cabe bem nesse tópico que acabei de descobrir.

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