blog do escritor yuri vieira e convidados...

Autor: yuri vieira Page 106 of 107

Avestruz é pirâmide

No começo deste ano, em Alto Paraíso de Goiás (Chapada dos Veadeiros), enquanto ajudava o Pedro Novaes a rodar seu documentário, conheci um norte-americano que trabalha com finanças em Wall Street. (Que lugar pra encontrar um cara desses!) Pois é, falamos a respeito da famigerada Avestruz Master e ele me disse: “Ostridge? É pirâmide. Lá na America também tem isso. Mais cedo ou mais tarde quebra…” E eu que já estava pensando em me meter nisso. Tenho amigos que compraram carros, apartamentos e casas com o tal “investimento”. Mas a pirâmide já deve estar ruindo… (Será que se o negócio quebrar mesmo – o cara é de Nova York mas é humano, pode estar errado – quem tiver ganhado dinheiro com isso, mesmo acreditando ser pirâmide, como alguns que conheço, merecerá ficar com peso na consciência? Dinheiro com karma…)

Welcome, SPAMMER!

“It’s man against machine. The machines are hunting for us, and will deliver a fatal payload of spam when they catch us. InstantReplay has joined the blogospheric war against email address-harvesting bots by adding a SpamPoison button. Sexy, isn’t it? Just like the Matrix.”
InstantReplay


Enjoy our special meal

Censura de blogs

Não, o Lula ainda não começou a censurar blogs, mas o Irã sim. Blogueiros iranianos solicitam nossa solidariedade. Querem nosso apoio para protestar contra o governo iraniano que anda bloqueando blogs e sites. Vamos assinar esta petição (leia abaixo). (Eu já assinei.)

Não sei se vcs sabem, mas uma delegação diplomática enviada por Lula à ONU apresentou uma moção, juntamente com a China, Cuba e Tunísia (países autoritários), defendendo o controle da Internet. (Diversos sites não podem ser acessados destes países. Só na China, milhares de cybercafés foram fechados em poucos meses.) Para quem tentou expulsar um jornalista estrangeiro, criar um controle externo para o Judiciário, calar o Ministério Público, controlar a produção audiovisual e tachou jornalistas brasileiros de covardes, porque não aceitam ser censurados pelo PT, não custa nada imitar ainda dessa forma seus ídolos ditadores. No Irã, a liberdade de blogar está ameaçada. Espero que todos possam dar seu apoio realmente. Uma mão lava a outra.

Para maiores informações, clique aqui.

Os chatos dos irmãos Caruso

Estou chocado: não existe nenhum site chamado “Eu odeio os irmãos Caruso”!!! Será possível que ninguém ainda percebeu que esses caras não têm a mínima graça? Meu Deus, há anos já que dou uma chance ao Paulo Caruso — sou gente boa — e tento encontrar pelo menos um sorriso em suas charges da revista Isto É, mas é impossível, o resultado chega a ser deprimente.

Às vezes penso que, se eu fosse um deputado do PDT, do PT (ou sei lá o quê), talvez eu até conseguisse um esgar dublê de sorriso. Mas não adianta, mesmo que você se interesse por política não achará graça alguma. Os caras desenham muito bem, fazem ótimas caricaturas, mas são incapazes de roteirizar por si mesmos. (Bom, verdade seja dita: o Chico é menos ruim que o Paulo.) E afinal, quem? Mas quem mesmo já conseguiu rir daquelas animações pentelhas durante o Jornal Nacional?? Parece até coisa do Andy Kaufman, que fazia piadas para que apenas ele mesmo desse risadas, mas não é: o Paulo é tão bobo (ou ishperto, vai saber) que acredita ser, para os outros, realmente engraçado!

E o pior de tudo: ele e o irmão ainda cantam (com uma voz cavernosa tão terrível quanto a minha), tocam piano e se acham compositores! Caraca, é realmente incrível. Em 2002 ou 2001, sei lá, assisti a uma apresentação desses dois lá no Teatro Nacional de Brasília. (Aliás, não fosse esse “show” e eu nem me daria ao trabalho de escrever este texto, afinal, chargista ruim é um elemento da natureza, há em todos os cantos.) Enfim, havia um estrangeiro com quem conversei que, mesmo falando um ótimo português, não entendia por que aquilo era engraçado para os demais. Do Monty Phyton qualquer um no mundo inteiro pode rir, mas desses dois? O show deles é puro engajamento político, pura catequese revolucionária, uma coisa chatérrima, e se você não souber as últimas fofocas daquele deputado do qual nunca ouviu falar… onde encontrará motivo para rir? Quando o artista é bom, por mais elementos políticos que ele venha a injetar em suas obras, elas acabarão por sobreviver a estas ideologias e convicções, o que, claro, não é o caso deles. E o “show” dos caras, em Brasília, não passava de um monte de frases feitas e comentários que só um militante da UNE poderia achar graça. (É evidente que muita gente — sim, muita gente, a maioria da minha querida UnB — ria, mas com aquele tipo de riso inteligentinho e cínico, saca?, o mesmo com que aquele apresentador rechonchudo e de óculos do Jornal Nacional finge achar graça das animações. Eu e minha querida Míriam Virna, com quem fui ao tal “show”, ficamos de cara com a deformação causada pela política no senso de humor das pessoas.)

Mas, enfim, o problema dos Caruso é que, no fundo no fundo, eles são é uns operários do desenho que, por rebeldia ideológica, não aceitam um patrão que pudesse lhes dar um par de boas idéias para realizar. Vezenquando podem até acertar — a evolução é para todos — mas o que esses figuras deveriam mesmo fazer é ir trabalhar para o Maurício de Souza…

[Ouvindo: Night in Tunisia – Miles Davis]

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Esclarecimento:

Entendam bem: não sou nem um palerma e muito menos tenho preguiça de pesquisar, de ler. Eu respeito o traço dos Caruso, já disse, eles desenham muito bem. Mas mesmo entendendo as piadas logo de cara, ou após me informar sobre as últimas fofocas políticas, continuo achando os caras sem graça. É uma questão de narrativa e, por que não dizer?, de estética. Não conseguem fazer cócegas no meu entendimento. E se o objetivo de uma charge é apenas fazer pensar, ao invés de fazer rir, tanto pior, porque ao final só me vem um pensamento: por que essa charge está na seção de humor da revista? E, aliás, só achei que mereciam um “Eu odeio…” depois de assistir ao vivo ao show da dupla. É de lascar, pura propaganda lulística, revolucionária não no sentido da revolução armada, claro, mas no da eterna mania de achar que o Estado pode transformar nossa vida pra melhor, ou seja, uma balela. Se não fosse por isso, tudo bem, realmente tem gente mil vezes pior do que eles por aí. Mas é que eu sempre pensei que um chargista deveria ser o mais imparcial possível. Quando um político faz uma besteira, merece dois tratamentos dos Caruso: se for, por exemplo, o Lula, é tratado com um carinho servil; se for algum idiota não petista, aí sim, o cara é mesmo idiota. E, enfim, esse “eu odeio…” não pretende ser um atentado pessoal, já que a conotação raivosa do termo “odiar” fica diluída no já famoso “eu odeio qualquer coisa” presente em vários sites da Internet. É apenas uma crítica. Vai saber, os caras devem ser gente boa pessoalmente, o que não quer dizer que sejam tão bons na charge quanto o Angeli, o Glauco, o Laerte, o Henfil, o Millôr, etc., que são engraçados sem precisar de temas exclusivamente políticos, que são engraçados além de nos fazer pensar. (Principalmente o Henfil, é claro, que já me fez dar vexame na Biblioteca da UnB e da UFG, deixando-me roxo de tanto rir.) Na verdade, meu erro foi dar uma abordagem de crítica de arte àquilo que não é arte de forma alguma. Por isso pego pesado. (Sem falar que eu havia tomado uns dois cafés e assistido, no Jornal Nacional, a uma certa animação que muito me desanimou…)
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P.S.: Escrevi o esclarecimento acima após receber uma mensagem, bastante educada e sentida, da esposa de um dos irmãos Caruso. Desculpe se fui duro, J., mas o sentimento despertado em você por minha crítica é mais ou menos aquele que uma charge deveria causar à elite política que nos comanda. Com uma única diferença: fazendo rir aos demais.

Deixe-os com o Che

E não é que até Jesus “me deu uma dura” através do Livro de Urântia? Veja o que ele diz no Documento 141, quando Simão tenta tirar uma “idéia errada” da cabeça de um futuro prosélito:

yuri vieira, yuri v. santos, etc.

Já que curto mesmo brincar com essas coisas, vou verificar se esse negócio de numerologia tem alguma coisa a ver mesmo. Jorge Ben mudou para Jorge Ben Jor porque a somatória deste dá 11, um número fodão. (Jorge Ben dava 4, um número fodinha.) O yuri vieira dos santos, que também dá 11, foi yuri v. santos por algum tempo, que dá 3, e agora voltou a ser 11, só que assinando apenas yuri vieira. (Talvez o Ryoki Inoue, meu primeiro editor, estivesse certo nesse ponto – ele não gostava do trocadilho “yuri vê santos”.) E só.

Dogville, um filme duro de roer

O filme Dogville é interessante na forma, ótimo na escolha dos atores e um enorme desperdício dramático. Poderia ter sido uma obra trágica, mas o diretor – contaminado pelo mais ingênuo nietzscheanismo – preferiu transformá-lo numa piada de humor negro. Arma uma enorme e absorvente arapuca durante dois terços de projeção para ao final não pegar senão dois patos: eu e você. E olha que estava indo muito bem. Aquele carinha, o “escritor” do filme, por exemplo, é digno de todo desprezo, uma soma de fraqueza moral sem tamanho com uma incapacidade de reconhecer fatos óbvios, evidentes. (Personagem muito comum hoje em dia nos meios intelectuais.) E o mais louco é que ele, numa cidade sem um pastor, sem um padre, de igreja vazia, se arvora em guia humanista dela, uma espécie de prefeito moral. O cara é um político puro e não deseja senão legislar sobre a vida dos seus vizinhos, mudar o mundo para melhor, isto é, para seu próprio conceito de “melhor”. E, claro, aparece uma linda mulher. Para apimentar as coisas, como sempre.

Tom, o escritor, parece bonzinho – e aí, Suplicy, beleza? – e usa a mulher como objeto de uma experiência sociológica, para ajudá-lo na importante tarefa de melhorar o mundo. E a coitada se ferra legal, é óbvio, até mais do que se tivesse votado no PT. Vira escrava, vira depósito de esperma coletivo. E o escritor ainda diz que a ama… Esse escritorzinho não passa de uma mistura de Pôncio Pilatos (governador que se deixa dominar pelos súditos) com Judas Iscariotes (um traidor filho-da-puta). A tragédia poderia ser elaborada a partir daí. Afinal, ¿como permitir que fossem feitas tais coisas com uma mulher que se diz amar? No entanto, se não gostei do “sentido” do filme é porque ele é tão obra de arte quanto meu conto “Matando um mosquito com um tiro de canhão“: uma boa construção estética que se perdeu ao transformar-se em piada sofisticada. No entanto, modéstia à parte, a piada dele é pior que a minha, afinal, não sabe rir de si mesma.

Repito: von Trier tinha tudo na mão para fazer uma excelente obra trágica, mas, por ser um niilista bobo, criou um enredo digno de um adolescente. Em vez de causar o pathos, uma catarse essencial qualquer, ele dá vazão a que nos regozijemos num sórdido sentimentozinho de vingança. “Bem feito”, pensam os aborrescentes-adultos, “trataram mal a gostosa, se foderam… Ahahaha!” (Até eu dei muita risada, afinal, ¿não era uma piada?) O relativismo moral ali é completo, ninguém tem um chão para justificar suas ações, nem mesmo a pretensamente compassiva Grace (imagine, Graça!!). Ao menos ela, se realmente tivesse amor no coração, poderia ter sido uma heroína trágica, à maneira de Catarina de Alexandria. Mas não, ela não via a situação de cima, mas apenas por um prisma mental distorcido: era uma dissimulada “super-mulher”. Por isso digo: a compaixão, o serviço ao próximo baseado unicamente num sentimento humanitário qualquer, num humanismo de papel, só pode desembocar nas ações dessa personagem: chumbo e fogo. Grace aguenta, aguenta, aguenta e, de repente, percebe: são todos como cães, não podem agir de outro modo, logo, vamos exterminá-los. Uma Zarathustra assassina. Nazista. Ridículo. Se esse filme é um filme de maturidade, eu então sou um matusalém. Daria um bom roteiro para o South Park. Para que rolasse um elemento trágico ali, alguém deveria ter a alma de aço, não aquele monte de geléia espiritual. Se não isso, um que pelo menos tivesse consciência de sua fraqueza, como Hamlet, ou de sua maldade, como Ricardo III, ou seja, que ao menos não pecasse contra a própria inteligência. Até Don Quijote é um trouxa com uma alma de aço. Assim como o Idiota, de Dostoiévski. Dogville deveria se chamar Dogfilm, porque é o filme do Cão. É o filme de um mundo onde Moisés, o portador do decálogo, não existiu senão como cachorro (¿lembra-se do nome do cão? Moses!!!), um mundo no qual o primeiro mandamento – “amará ao Senhor seu Deus sobre todas as coisas” – soou simplesmente como au au au au… Ninguém ouviu nada.

Cuidado, Mano Brown!

disse aqui uma vez e repito: Mano Brown, cuidado, de coração, não vá se meter com política. Para este país se reerguer, precisa ser puxado de cima, não pela política, que é do mundo, que é daqui de baixo, mas pelo espírito, que é do Alto. É preciso guardar-se contra a lábia açucarada dos políticos, tenham eles saído do povo ou de uma elite qualquer. No final das contas, não sabem o que fazem. Quando dizem que querem reformar a sociedade, na verdade, “apenas” almejam reformar o homem, e não libertá-lo. O homem já está pronto e a prisão está dentro de cada um, não no mundo. Você tem voz, Mano Brown, e muita gente costuma ouvi-lo, portanto, cuidado, não se deixe usar.

Eu sou do Jardim Prudência, de uma travessa da Avenida Cupecê, e aí cresci, na Zona Sul paulistana. Senti por muitos anos o cheiro da represa Billings e da Guarapiranga nos dias de muito calor. Talvez tenhamos disputado a mesma corrida de carrinho de rolimã, não sou um alienígena. Eu conheço essa região e sei das tentações. Inclusive a da política. Em 98, levei o carro de um amigo a uma oficina do Campo Limpo para trocar a bomba d’água. Ao lado, havia um terreno baldio cercado por muros e, sobre o muro da frente, alguns garotos, rindo e jogando pedras lá para dentro. Eu conversava com o mecânico, surpreso por ele ter a mesma opinião que eu: a revista Planeta não é mais aquela… (Ele tinha uma coleção de Planetas igual à do meu pai, desde os anos 70!) E então chegou um mano, o mesmo que acabara de conversar com os garotos, fazendo-os descer do muro. Perguntei o porquê de toda a euforia. “Você não sabe?”, me disse, “venha dar uma olhada”. De um buraco no muro, vi: um cara, em decúbito dorsal, a garganta e os pulsos cortados, o peito estourado. Puts!, soltei, o que foi que rolou? E o mano: “Dívida de tráfico, véio, não pagou, dançou”. E a polícia?, perguntei. “Ah, daqui a pouco eles tão aí, pra recolher o presunto…”

Claro, tudo isso deixa a gente revoltado, querendo mudanças já. E a gente pensa na política, em alguém consertando (e concertando) as coisas de cima para baixo. Pensa que, se os tentáculos do Estado nos abraçassem e protegessem, ficaríamos melhor. Mas não se engane: quanto maior for o Estado, mais longe estaremos do seu líder, seja ele benévolo ou não. E nenhum líder jamais poderá “derramar seu espírito sobre toda a carne” dos seus subalternos, jamais poderá saber tudo o que pensam e fazem no dia a dia, jamais poderá influenciá-los beneficamente de dentro para fora, não importando quantos espiões, informantes, corregedores e investigadores tenha, não importando qual ideologia defenda. Logo, quem controlará o poder dos pequenos ditadores periféricos? Afinal, não são eles a manifestação do próprio Estado, os efeitos das causas elaboradas no alto escalão? Quem com eles pode? Só Deus poderia, se assim eles quisessem, se assim O aceitassem. Mas estamos cansados de saber que o poder corrompe e que o que tem de ser, será. Nenhum Estado jamais reformará a sociedade, jamais salvará o homem do que quer que seja. Nem mesmo um Estado teocrático, desses que se utiliza da Palavra para justificar suas injustiças e arbitrariedades. A questão é dificílima, não é qualquer molusco político que a resolverá. Dificílima porque não depende de um projeto coletivo, mas da vontade de cada indivíduo.

Enfim, para o país, para o mundo se reerguer, só é necessária uma coisa: confiança. E confiança só existe entre irmãos. Outro dia escrevi a um amigo agnóstico: confiamos um no outro porque vivemos juntos experiências que aproximaram nossos corações. Beleza. Mas como iremos confiar em quem vive do outro lado do Atlântico? Não basta uma ideologia humanista, muita gente já morreu por não se encaixar neste ou naquele conceito de humano. Aliás, não basta qualquer ideologia, afinal nada matou mais no século XX do que as ideologias. Tampouco basta uma religião, muita gente já cometeu atrocidades em virtude da oposição a suas crenças. Para que alcancemos essa fraternidade, e consequente confiança mútua, necessitamos da experiência íntima de termos um Pai espiritual, um Pai de todos. E só. É o único jeito. Uma vez disse ao Ricardo Cruz, editor da Revista da MTV: “Quinho, quero entrevistar o Mano Brown”. E ele: “Pô, velho, vai ser difícil, a gente já tentou pra caramba, o cara não confia na MTV”. E eu: “Mas eu quero conversar sobre Deus, religião, moral, sobre essas coisas.” “Se você conseguir, beleza, mas não boto muita fé não…” Por que isso, Mano Brown? Porque você não conhece quem é aquele que irá entrevistá-lo, não sabe se é seu mano. Vivemos em mais uma época do filho contra pai e pai contra filho. É um época ótima para os políticos: se aproveitam da desconfiança geral no próximo para vender suas receitas de prosperidade. Receitas que dizem basicamente o seguinte: vamos politizar todas as relações humanas. Daí o crescimento do Estado e de seus mecanismos de vigilância para além do necessário. E tal expansão — devido a uma desconfiança básica no próximo — depende diretamente disto: do secularismo, da ausência de uma instância sagrada. Se um líder de governo for um cego espiritual, estamos perdidos. Se for um cego guiando outros cegos, meu Deus, será o fim.

Por isso é que lhe digo, Mano Brown, cuidado com os políticos, não importa quem sejam. Fica com Deus e vigie. A César o que é de César.

Personal Antropologist

Há alguns meses, encontrei um amigo no casamento de uma amiga comum. Ele é antropólogo e estava acompanhado de uma “jovem liderança indígena” – o Ripa, que aparece no filme “Cronicamente Inviável” -, ou seja, um índio Xavante que sabe se aproveitar muito bem do apoio de ONGs e demais organismos internacionais. O que me chamou a atenção foi o fato de meu amigo estar com uma roupa puída, a gola encardida e o tal índio estar vestido como um VJ da MTV, sem falar do lindo celular e demais apetrechos tecnológicos. Em certo momento meu amigo me disse: “Ele vai à Europa, talvez me leve junto…” E aí tive um insight: meu amigo agora é um Personal Antropologist Tabajara!! No futuro, imagino, todo índio terá o seu, todo índio finalmente terá sua chance de ser um patrão…

Pornográfico eu?

Bom, agora além de várias outras coisas fui também tachado de “pornográfico”. Seria cômico se não fosse ridículo. O publisher – revista muderna não tem editor, tem publisher – da Lounge The Magazine me brifou, solicitando um roteiro com apelo sexual para a HQ KamaLoka. Queria algo ousado, saca?, afinal é uma revista para essa gente simpática que adora uma penumbra, um sofá, uma bebidinha e uma música envolvente. Talvez um narguilé também, mas aí já entraríamos em controvérsias. Uél, acontece que eu e o Arthur Garcia, o ilustrador, entregamos a seguinte página. O publisher a rotulou de pornográfica e não a editou! Eu diria que a única coisa pornográfica na tal HQ seria a reação de horror moral da personagem Nara, afinal, parece que não há nada mais obsceno hoje em dia do que ter peso na consciência…

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