blog do escritor yuri vieira e convidados...

Autor: yuri vieira Page 96 of 107

Homem-bomba-flor


Cada vez que vejo uma dessas notícias de “homem-bomba mata não sei quantos”, fico impressionado com a intensidade da piração desses caras. Essa perversão da fé religiosa é pior do que o “se Deus não existe, tudo é permitido” do Ivan Karamazov. É como se eles estivessem dizendo: “Deus existe e foi Ele quem mandou”. Isso é o que dá quando não se faz upgrade num sistema operacional. Jesus fez uma atualização incrível no sistema judáico – “amai a vosso inimigo” – mas essa turma islâmica ainda vive baseada num tipo de COBOL ou Fortran que se recusa a qualquer alteração. Essa confa toda ainda vai dar muito pano pra manga nesse século.

Mas o que eu queria mesmo dizer é o seguinte: se eu fosse artista plástico ou ator, elaboraria um happening cujo título seria “O Homem-bomba-flor”. Colocaria alguém me filmando de longe e entraria – num país islâmico, de preferência – num espaço público qualquer (ônibus, restaurante, feira, etc.) e dispararia uma bomba de ar comprimido que faria um grande estrondo, atirando flores e pétalas para todos os lados. Tudo obviamente coroado por alguns passos de dança à la Gene Kelly e por uma canção do “rei”: “Todos estão surdos”. Seria um upgrade daquela hipponga que colocou uma flor na arma do policial e uma “vingança” ocidental contra a turma da jihad. Claro, seria um risco enorme fazer isso num país muçulmano. Mas, por outro lado, o que seria da arte sem a ousadia?
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P.S.: Hoje, 31/08, várias pessoas – mais de 1000 (!) – morreram pisoteadas em Bagdá. Tudo porque entraram em pânico ao ouvir um boato sobre a suposta aproximação de um homem-bomba. A paranóia chegou ao máximo. Logo, esse happening pode ser muito mais eficaz para matar gente do que um homem-bomba real. Enfim, vou cancelar minha passagem pro Iraque. Protestozinhos de paz e amor só convencem hippies mesmo. O buraco é mais embaixo.

50.000 virgens

Rei Mswati III“Ô cara ishpeeeerto”, disse minha cabeça de baixo a respeito desse Rei Mswati III da Suazilândia. Em 2001, para driblar o avanço da AIDS, o cara proibiu o sexo com mulheres adolescentes, incluindo no pacote a multa de uma vaca – sim, uma vaca – tanto para os homens que transgredissem a lei quanto para as moçoilas que engravidassem. Claro, isso já não valia pro rei gostosão. Este mês, 50.000 adolescentes virgens seminuas – provavelmente loucas para dar o fiofozinho em troca de comida e uma vida folgada – dançaram e cantaram simultaneamente para ele, proclamando seu desejo de se tornar sua 13ª esposa. Ele escolheu uma donzelita de 16 anos, mais nova que sua filha mais velha, de 17.

Ao contrário da minha cabeça de baixo, a de cima continua concordando com Swedenborg: um homem com várias mulheres fica com o Entendimento dividido entre numerosas Vontades e, por isso, não existe de fato uma família, cuja Vontade, aliás, só passa a existir quando expressada pelo pólo feninino do casal nuclear. (Esclarecendo: todo indivíduo é, em essência, Vontade e Entendimento. Mas um casal também pode agir na sociedade como um único ser, feito uma célula e, por isso, também tem sua essência expressa como Vontade e Entendimento. A primeira vem do Amor e corresponde ao pólo feminino. O segundo vem da Verdade e corresponde ao pólo masculino.) Uma unidade formada por múltiplas vontades é igual a uma família esquizofrênica. Ou à família nenhuma, o que só faz sentido ou para um adolescente, ou para quem está na fase da “curtição” ou para um eterno egoistão do tipo Casanova.
“E pra mim!! E pra mim!!”
“Fecha o bico, cabeça de baixo…”

Paulo Hecker Filho

Caramba, fiquei impressionado com o Walmor Chagas interpretando o texto “Oração da Noite”, de Paulo Hecker Filho, sob direção de Eder Santos, na TV Cultura. Acabou de passar. E foi uma beleza. Triste, profundo, patético, tendo lembrado muito minha própria avó que faleceu há pouco mais de um mês. (Eu costumava ouvir suas orações clamorosas no meio da noite, ela, surda, sem perceber que alguém além de Deus a ouvia.) E eu não me lembrava desse Paulo Hecker Filho, que até escreveu telenovelas. Muito bom. Assim como o ator e a direção.

Provas

“Meu Deus, quando uma pessoa confessa, que prova há mais?”
(FHC, sobre Lula e petistas dizerem que “não há provas” da existência do mensalão. Citado por Cláudio Humberto.)

EU NÃO VOU MAIS SUPORTAR ISSO!!!

Cada dia a mais com o Lula ainda no poder, com o José Dirceu à solta e com no mínimo (minimozinho) 100 deputados ainda sem serem cassados não é nada mais, nada menos que a confirmação calcada e recalcada da famosa frase de De Gaulle (encore lui): “O Brasil não é um país sério”. Que talvez equivalha a: “O Brasil é um país de palhaços”. Ou ainda, segundo a turma do Casseta & Planeta: “Ê, povinho bunda!” Não fosse nossa absoluta indolência, seria este o momento propício para quebrar a maldição. Contudo, se o buraco é muito mais embaixo — no cu da alma de cada um –, e por isso trata-se dum problema que levará anos para se resolver, poderíamos ao menos fazer como naquele filme do qual não me lembro o nome: a certa hora, todos colocaríamos a cabeça para fora da janela de nossas casas, sairíamos ao quintal ou à rua e gritaríamos “EU NÃO VOU MAIS SUPORTAR ISSO!!!”. E repetiríamos o grito até acabar o fôlego. Já imaginou que contagiante e espantoso meio mundo gritando isso ao mesmo tempo? Acho que seria o maior flashmob do mundo e o efeito poderia até resgatar uma veleidadezinha de confiança nesse país. Mas o 7 de Setembro tá muito em cima e, em 15 de Novembro, já estarão todos com a barriga entupida de pizza. Parece que o brasileiro típico só sabe gritar “gol” — e apenas durante a copa.

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Atualização de 23/06/2013: E finalmente aconteceu. (Antes tarde do que nunca.)

Uma pinóia

“Em artigo publicado no Globo do dia 21, Miriam Leitão reconhece que ‘houve falha generalizada no sistema de acompanhamento do que se passa no país. Um dos culpados é a própria imprensa… Não vimos que o dinheiro era farto demais no PT para ser de boa fonte’.

“A admissão da verdade, mesmo tardia, pode ser um mérito, contanto que não venha acompanhada de novas mentiras incumbidas de embelezar os erros confessados, dispensando o pecador de tentar corrigi-los e ainda autorizando-o a cometê-los de novo com consciência tranqüila.

“Miriam começa por mentir no uso do verbo. ‘Não vimos’, uma pinóia. Eu vi tudo, denunciei tudo, expliquei tudo, escrevi artigo em cima de artigo, no próprio Globo , para alertar contra a criminalidade petista.

“A resposta de meus colegas veio sob a forma de silêncio desdenhoso, rotulações pejorativas, boicotes, risinhos cínicos com ar de superioridade, supressão abrupta de minha coluna em três órgãos de mídia.

“O mínimo indispensável de honestidade exige, daquele que admite por fim fatos longamente negados, o reconhecimento ao mérito de quem não foi ouvido quando os proclamou em tempo.

“Esse mínimo está infinitamente acima do que se pode esperar de quase todo o jornalismo brasileiro.”

(Mídia anestésica, por Olavo de Carvalho.)

O Exorcista na Casa do Sol

Coloquei mais um arquivo de áudio no meu podcast.

Trata-se apenas da leitura da crônica acima referida, na qual descrevo como foi assistir ao filme O Exorcista, na Casa do Sol, acompanhado pela escritora Hilda Hilst, pelo poeta, ex-professor de Oxford e ex-presidiário da ilha do diabo inglesa, Bruno Tolentino, e mais quinze cães.

Comunidade no Orkut

A comunidade Comédia da vida universitária!, que criei para meu livro A Tragicomédia Acadêmica, já está com 704 membros. Caso você ainda não tenha aderido, fica aqui registrado o meu convite.

Telenovelas, Hilda Hilst, Mário Prata…

A última telenovela a que assisti integralmente – acompanhado pela noveleira de carteirinha, Hilda Hilst – foi “Andando nas Nuvens” (1999), do Euclydes Marinho, com o excelente Marco Nanini e a já gatíssima Mariana Ximenes. A Hilda adorava novelas e, nos dois anos em que morei com ela, esta foi a única a que assistimos quase sem reclamar. Sim, porque, tal qual já escrevi uma vez, novela é como futebol: quem gosta assiste mesmo quando está ruim, sem deixar de torcer pela melhora do time, digo, do enredo. (Na verdade, nessa novela em especial, a única coisa que irritava a Hilda eram meus suspiros cada vez que a Mariana Ximenes entrava em cena. Dizia ela: “Ah, não, Yuri, você agora é pedófilo?” E não adiantava argumentar que eu tinha uma grande tendência a ser um padre tarado e que a linda freirinha já devia ter, à época, mais de 18…) Pois é, depois de “Andando nas Nuvens”, eu, que não sou noveleiro, assisti apenas a alguns capítulos de “Laços de Família“, já que, de certa forma, acabei contribuindo com a produção. Manoel Carlos, o autor, quis homenagear a Hilda e, por isso, colocou o personagem de Tony Ramos, um editor, como amigo pessoal da Poeta Hilda Hilst, o qual inclusive mantinha, num porta-retrato, uma foto da “amiga”. Eis portanto minha pequeníssima participação: o Zé Mora Fuentes e eu escolhemos a tal foto que então escaneei e enviei para a Globo. Foi surreal assistir, acompanhado da Hilda, à cena em que Tony Ramos “finge” conversar com ela ao telefone e, em seguida, toma nas mãos o porta-retrato, dizendo algo do tipo “ah, Hilda, que saudade!”

Se eu fosse você…

“Se eu fosse você, não faria isto…”
“Sério? Então feche os olhos e me dê suas mãos.”
“Que maluquice é essa?”
“Não discuta comigo. Me dê logo as mãos… Isto. Agora grite comigo bem alto: aaaah!!
“Ah!”, e ri.
“Não, com o diafragma, bem do fundo, de dentro, vamos: aaaaaah!!”
“Aaaaaah!”
“Viu? Trocamos; agora eu sou você e você é eu.”
“Tá, muito engraçado.”
“É verdade, só que você se tornou tão eu mesmo, que nem sequer se lembra que era você e até continua, ou melhor, continuo falando. E o que antes era eu agora é você, tão você que já não se lembra de ter sido eu.”
“Sei…”
“Enfim, se você fosse eu, você faria exatamente o que faço, pois, afinal, você seria eu!”
“Tá certo, tá certo…”
E saem, sem notar os sapatos trocados…

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