Algo que venho notando na moçada da minha geração — nasci em 1971 — é que ninguém consegue evitar o impulso de ir ao cinema assistir ao filme The Matrix e — uma vez encerrada a sessão — se eximir de meter o pau — porque todos metem o pau, em geral um pau oco, ainda que cheio de sutilezas irônicas. Tudo bem, concordo que a vida em Zion é uma bela porcaria, mas a história é boa. Até o poeta Bruno Tolentino, com quem assisti ao primeiro filme lá na casa da Hilda Hilst, curtiu o dito cujo. Se bem que ele é suspeito: adora filme de Kung fu, diz que é ótimo para relaxar o cérebro…
Já eu, desde 2000, vinha preparando um ensaio a respeito, mas, devido a várias dúvidas quanto às possibilidades de desenvolvimento da trilogia — e à conseqüente modificação da minha interpretação — decidi esperar até o fim. Há apenas uma característica constante até agora: o gnosticismo expresso pelas idéias e ações dos personagens. Sem entrar em detalhes, por enquanto, digamos que a viagem dos figuras é basicamente a mesma de muitas seitas da idade média ditas hereges: o mundo foi criado e é controlado pelo demo (por um demiurgo), e precisamos nos mandar para o “mundo real”. E isto quer dizer: essa piração não é nova. Bom, pretendo desenvolver isso noutra ocasião. Por enquanto, sugiro que leiam o texto MATRIX CONFUSED, do Jovem Nerd, um artigo inteligente, honesto, sem babação de ovo retardada, que não é bem uma crítica de cinema mas uma investigação sobre o que afinal rola nessa história toda. Tenho essa preocupação porque conheço uma pessoa que acreditou ser o primeiro filme da série apenas uma mensagem cifrada para que ela descobrisse sua verdadeira identidade: ela era o Escolhido… Fico imaginando quantas vezes isso já rolou mundo afora. Tem maluco pra tudo. (Boa parte adora cruzar meu caminho.)
Quanto à possibilidade ou não de se realizar “milagres” no mundo real — discussão inevitável após a parte final do Reloaded — afora os evangelhos e meu singelo artigo sobre Li Hongzhi, leiam o livro “A Autobiografia de um Yogue Contemporâneo“, de Paramahansa Yogananda, escrito nos anos 50 do séc. XX. Há “causos” ali de deixar qualquer irmão Wachowski de cabelos em pé. E, claro, com um acréscimo: todos os “homens e mulheres santos” ali retratados sabem que não são senão veículos da vontade de Deus. E é sério: segundo Yogananda, Bábaji (que já tem mais de 300 anos de idade) e Lahiri Mahasaya são tão poderosos quanto Neo. Mas não saem voando por aí, em meio a um desesperado “amor romântico”, destruindo e matando meio mundo apenas para salvar a namoradinha. Aliás, ainda bem que Jesus não se envolveu nem com Rebeca — vide Livro de Urântia — nem com Maria Madalena…
P.S: Eis outra análise bem interessante.

Semana passada assisti ao documentário dos irmãos Jules e Gedeon Naudet sobre o atentado ao World Trade Center. (Para um documentarista, nada como estar no lugar certo na hora certa – aliás, para os não-documentaristas, hora mais que errada.) Semelhante testemunho só seria rivalizado por alguém que tivesse filmado o naufrágio do Titanic ou, para ser mais exato – já que, indo além do que diz Baudrillard, um atentado terrorista pode parecer mas não é um evento da natureza, é só maldade mesmo -, ou por alguém que tivesse filmado a noite de 23 de Agosto de 1572, a Noite de São Bartolomeu, quando, instigado por sua mãe (Catarina de Médicis), o rei Carlos IX ordenou que se executassem todos os Huguenotes, todos os protestantes que se encontravam em Paris para o casamento de sua irmã com Henrique de Navarra. Morreram cerca de 25.000 pessoas. A grande diferença entre esses atentados de origem pseudo-religiosa estaria apenas na pirotecnia do mais recente, uma vez que este não se igualou ao primeiro, em número de vítimas, por uma mera questão de horário. E o mais interessante é que muita gente pressentiu o acontecimento…
Dizia Jiddu Krishnamurti: “pensar no problema é fugir do problema“. Esse polêmico – mas nada polemista – instrutor indiano costumava dizer que não podemos buscar a verdade simplesmente porque, se quiséssemos mesmo encontrá-la, deveríamos então conhecê-la desde o princípio, caso contrário, como a reconheceríamos se a encontrássemos? Ora, a verdade, diz ele, é – para nossas mentes espaço-temporais – sempre nova, dinâmica, viva, eterna não podendo ser reduzida à memória – que é como o pensamento realiza seus registros – operação que a tornaria portanto temporal, estática, morta. Afinal, o pensamento só é capaz de re-conhecer aquilo que ele já conhecia de antemão. Confuso? Abstrato? Nem tanto. Trata-se antes de um ceticismo metódico, o qual almeja a verdade sobre nós mesmos pelo afastamento do falso, já que é exatamente isto o que ele propõe. Para ele, a verdade é o que é, e não um de nossos desejos, condicionamentos ou projeções, os quais, aliás, não seriam senão imagens de algo já conhecido, temporal e, portanto, falso. Toda idéia, toda ideologia pode até funcionar se a intenção é criar uma máquina ou mecanismo similar (material ou não), mas jamais será benéfica se aplicada às relações humanas ou a de um indivíduo com sua própria consciência. Porque se uma máquina é um meio de se atingir um fim, as relações humanas, por sua vez, não são uma coisa à qual devemos aplicar ou identificar um meio qualquer, seja ele político ou econômico, para se atingir um pretenso fim. Nas relações humanas meio e fim são uma só coisa, uma unidade: se utilizarmos a guerra para chegar à paz, não teremos paz, apenas guerra. Nas relações humanas – ou “mediações humanas” – o meio (do lat. mediu) é não apenas a própria relação mas seu único fim. Krishnamurti afirma reiteradamente: procuremos perceber o ilusório como ilusório e assim, desfeitos todos os véus, a verdade é quem nos encontrará. Pois a vida é um desafio de momento a momento, e a mente precisa estar atenta para reagir de acordo com cada um desses momentos. A verdade nos espera no atemporal.
Outro dia, alguém me enviou um texto sobre idolatria que fez com que me lembrasse novamente do Li Hongzhi, aquele da Falun Gong (óia eu com o cara de novo). Ele diz, em um de seus livros (cito de memória), que, após o assassinato pelo governo comunista chinês dos mestres ortodoxos budistas – segundo ele, os verdadeiros guardiões do esoterismo da “Escola Buda” – os novos templos ficaram vulneráveis a um certo tipo de “vampirismo astral“. Ele afirma que, enquanto a tradição era mantida, toda estátua de Buda de um templo recém inaugurado era, digamos, “linkada” ao mundo astral budista (ou etérico, como queiram) por um desses mestres ortodoxos, o qual detinha o conhecimento de como estabelecer a tal ligação. Isto significa que, sempre que uma pessoa se ajoelhasse diante daquela imagem, sua intenção seria canalizada para os altos planos. (Uma espécie de pára-raios invertido…) Após a morte desses mestres e a conseqüente interrupção dos ensinamentos (rompimento da cadeia mestre-discípulo), os novos templos ficaram com imagens de Buda desprotegidas. Desprotegidas de que? Li Hongzhi afirma ter ouvido de muitos de seus discípulos: “mestre, eu estava meditando no templo blablablá e então meus ‘olhos celestiais’ se abriram e eu vi Buda caminhando por entre os crentes…”