O Garganta de Fogo

blog do escritor yuri vieira e convidados…

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Pela janela

Da janela da minha sala na Universidade eu vejo um recorte geométrico do bosque. De vez em quando passam guinchando alguns macacos-prego, como num documentário do Discorevy Channel. Olham-me com urgência, assustados. Desacostumados ao pasmo sempre renovado de ver, em seu aquário de aridez, um ser humano, parecem interrogar-se sobre a possibilidade evolutiva de um animal tão estranho. E eu observo de volta. Um deles, uma fêmea, traz nas cócoras seu filhote. O macacaquinho se agarra firmemente ao pêlo da mãe, enquanto ela salta de árvore em árvore, agilmente, tentando encontrar alguma lata de refrigerante ou restos de um salgado comido pelas metades.

Numa outra janela piscam anúncios em flash. Dentro dela (ou fora daqui!) alguém me diz que uma menina foi atirada pelo pai e pela madrasta do apartamento onde moravam, no sexto andar. Eu observo os acusados jurarem inocência. Estou espantado. Noutra reportagem o apresentador se pergunta porque o caso mobilizou tanto a atenção das pessoas. Assisto a matéria. Fala um psicanalista, um sociológo e outro psicanalista. Nenhum deles diz nada sobre o repórter nem sobre o programa. O interesse das pessoas é tratado como um fato natural e a peça jornalística que nos convoca a atenção não é tematizada. É como se não estivesse lá, como se fosse transparente.

Sinto-me dentro de um cubo geométrico translúcido. A metáfora das janelas se desdobra em várias faces. Eu vejo os macacos, que me vêem, e vejo os pais da menina que não me vêem e vejo a forma de expressão da manipulação dos interesses, que não quer ser vista. Só não vejo a inocência, só não vejo o humano. A inocência atravessou a janela e se espatifou no gramado úmido.

Talvez o combustível da emoção seja o pathos da morte. Não uma morte qualquer. Não uma boa morte, coroação de uma vida plena. Mas a morte da inocência, o terror. Um pathos egóico, sem dúvida, porque vivido na tensão interior do expectar. Não o pathos da vida, a compaixão, mas o pathos associado, desde Aristóteles, às narrativas trágicas. Muitos de nós vivenciamos a morte de Isabella Nardoni pelas narrativas elaboradas pela mídia, embora ela se esforce para nos convencer de que é apenas uma janela, um meio através do qual algo nos vem ao encontro. Por que esta tragédia – assim como várias outras – nos mobiliza a atenção? Exatamente porque é uma tragédia. Porque o drama nos é apresentado num esquema estruturado de compreensão, cujos elementos nos exigem uma determinada emoção, como num script cognitivo vivenciado milhares de vezes.

Mas o terror, por outro lado, é real. A própria idéia de que a inocência está sob constante ameaça no mundo nos enche de pavor verdadeiro. Quanto mais repassamos, auxiliados pelas reconstituições minuciosamente ilustradas dos portais da Web, o que pode ter acontecido no apartamento, mais nos assustamos com o que nós somos. A forma nos ajuda e nos afasta desta disposição para o terror. Ela trai e adia esta experiência fornecendo um esquema conhecido de interpretação, ela nos torna expectadores; põe grades na janela, nos impendindo uma “queda em si”.

Na verdade se pudéssemos atravessar o palco e espiar as coxias do teatro do simbólico, perceberíamos o caráter farsesco de todo este drama. No jogo absurdo de janelas, caro leitor, algo nos elude. Na transparência entrevemos algo opaco, brumoso, adiáfano. E o que encontramos – perdidos na vertigem do olhar – não é outra coisa senão um enorme e polido espelho. E nele, a nos fitar, nossos olhos enormes de macaco.

Metrô — 17

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Estação Sé, São Paulo

Metrô — 16

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Estação Trianon-Masp, São Paulo

Dante

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Falando em milagres

Já que o Ronaldo resolveu falar sobre milagres – com seriedade, diga-se – deixo aqui minha contribuição nada séria.

Isso é que é milagre, né não?

Isso é que é milagre.

Metrô — 15

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Estação Trianon-Masp, São Paulo

O que é religião?

1ª resposta: olhando por fora:

O que é religião? Como responder essa pergunta sem orar a pedir a ajuda de Deus? Talvez possamos começar nos perguntando o que há de comum entre todas as religiões. Se fizermos essa investigação — e não é tão difícil —, descobriremos, talvez surpresos, que o que há de comum a todas elas curiosamente não é Deus. Ele está de fora de algumas e é plural em outras. Porém, existe uma coisa, um elemento comum que não está de fora de nenhuma religião conhecida, e é ele que nos fornece a chave para compreendermos todas as religiões, inclusive a nossa, caso tenhamos alguma. Trata-se do “depois-da-morte”. Os deuses das várias religiões, divergem infinitamente. Tente comparar, por exemplo, o deus do judaísmo com o deus do cristianismo e você ficará convencido de que jesus e moisés falavam de seres diferentes. No entanto, compare o inferno judaico com o inferno cristão e você verá muita semelhança. Curiosamente, o inferno cristão também se parece bastante com o hades. Mas, pouco importa se eles se parecem ou não, o que importa é o seguinte: o discurso sobre o que há depois da morte está presente em todas as religiões. Todas. Depois da morte há o céu e o inferno, depois da morte há a reencarnação, depois da morte há uma segunda vida, não importa, no momento, qual a sua opção, o que importa é que todas as religiões respondem à questão sobre o que há depois da morte. Assim chegamos a uma definição segura. Não corremos mais o risco de encontrar uma religião e não sabermos mais com o que estamos lidando: religião é um discurso sobre o que há depois da morte.

2ª resposta: olhando por dentro:

O mais interessante é notar que essa definição, não é coerente apenas quando olhamos as religiões de fora, mas também quando as olhamos de dentro. Note só: quem poderia saber o que há depois da morte? Ou alguém que esteve lá ou alguém que conversou com quem esteve lá. Ora, mas todas as religiões são fundadas em experiências nas quais o sujeito, ou vai para o “depois-da-morte”, ou conversa com alguém que está lá. Moisés conversou com Deus, e Deus estava no “depois-da-morte”, por isso mesmo ele podia dizer o que havia lá. Jesus era o próprio Deus e por isso sabia o que havia depois da morte, pois ele mesmo fez aquele lugar. Maomé falou com um anjo, e, sendo anjo, ele também habitava o “depois-da-morte”. Alan Kardec falou com espíritos e eles estavam no depois da morte. Swedenborg falou com anjos e eles estavam no depois da morte. Toda religião é fundada numa experiência sobre-natural na qual o sujeito fundador fala com algum ser que sabe o que há depois da morte, ou então esse sujeito fundador é ele mesmo transportado para o depois-da-morte e volta para nos contar o que há lá. O cristão não vai negar que sua religião lhe revela o que há depois da morte. O judeu também não, o budista também não, o muçulmano também não, etc. E o filósofo ateu também não vai negar que a religião diz o que há depois da morte, com a ressalva de que ele talvez não acredite nisso. Então, quando eu digo que “religião é um discurso sobre o que há depois da morte” não quero reduzir as religiões a isso, pois elas são, obviamente, mais do que isso; quero mostrar qual o traço distintivo da religião, aquilo que ela tem que outras áreas do conhecimento não têm e que a torna o que ela é. Essa definição, como já disse, funciona quando olhamos as religiões a partir de dentro, acreditando nas suas premissas, e funciona quando a olhamos de fora, quando não acreditamos. Você pode não crer em nenhuma religião ou crer simultaneamente em mais de uma, o que você não pode é negar que as religiões – inclusive a sua – dizem o que há depois da morte. E como a morte é um princípio auto-evidente – alguém aí duvida que vai morrer? – podemos dizer que essa definição é filosófica.

Religião e ciência

Agora que sabemos o que é religião fica fácil distingui-la da ciência.

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O mundo pode acabar neste inverno

Tô pensando em comemorar meu aniversário mais cedo este ano. Por via das dúvidas. O motivo: no próximo verão europeu entrará em funcionamento o Hadron Collider – uma espécie de forja artificial para trombadas de prótons. Segundo Walter Wagner e Luis Sancho, que entraram com um pedido de suspensão do projeto numa corte federal do Havaí (os EUA são parceiros da geringonça européia), as conseqüências podem atingir uma escala astronômica. Os argumentos: o funcionamento do acelerador pode gerar um buraco negro em pequena escala ou liberar um tipo especial de matéria quântica que poderia causar uma reação em cadeia e reduzir a terra a um pedaço de “matéria estranha” (seja lá o que isso for). O surreal, entretanto, é que os cientistas, em vista dessas possibilidades, resolveram conferir seus cálculos. Não sei o que é mais assustador. A natureza quase absurda dos argumentos levantados por Walter e Luis para pedir o fechamento do projeto ou o fato dos cientistas responsáveis, em certa medida, levarem estes argumentos a sério. Em todo caso, aproveitem bem este primeiro semestre. Aqui o link para a matéria do NYT

Metrô — 14

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Estação Trianon-Masp, São Paulo

Sertão Filmes

O demo reel da Sertão Filmes, nossa produtora, está no ar agora no You Tube.

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