O Garganta de Fogo

blog do escritor yuri vieira e convidados...

Hannah Arendt

Tenho um amigo – professor de filosofia e chefe do departamento de jornalismo de uma universidade – que sempre cita Hanna Arendt em nossas conversas sobre política. Cheguei a pensar, maldosamente, é claro, que ele não pensava com a própria cabeça, mas com a dela. Eu jamais poderia lhe dizer tal coisa, pois ele teria um leque de autores para me acusar de haver roubado o cérebro: Allan Watts, D.T.Suzuki, Spengler, Nietzsche, Goethe, Dostoiévski, Henry Miller, Pauwels e Bergier, Olavo de Carvalho, Fernando Pessoa, Hilda Hilst, etc. Poderia até me chamar de urantiano. Mas a questão é que, ao ler A Condição Humana, de Hannah Arendt, vou observando o que me chama a atenção e, de quebra, o que – pelas conversas que tivemos – parece ter chamado a atenção dele. (Mas isso é algo a ser discutido pessoalmente.) Por enquanto ressalto o que atraiu meu interesse:

“Sempre que a relevância do discurso entra em jogo, a questão torna-se política por definição, pois é o discurso que faz do homem um ser político.” (O que prova que, em nossas discussões, quando falávamos de política, cada qual entendia algo completamente distinto. Daí a necessidade de definir os conceitos previamente.)

“A condição humana não é o mesmo que a natureza humana, e a soma total das atividades e capacidades que correspondem à condição humana não contitui algo que se assemelhe à natureza humana.”

“(…) literatura de ficção científica, tão destituída de respeitabilidade (e à qual, infelizmente, ninguém deu até agora a atenção que merece como veículo dos sentimentos e desejos das massas.” (O que confirma a boa idéia que estou tentando levar adiante num livro que venho escrevendo.)

“(…) se temos uma natureza ou essência, então certamente só um deus pode conhecê-la e defini-la; e a condição prévia é que ele possa falar de um ‘quem’ como se fosse um ‘quê’.” (Daí eu concluo também que, se não adianta especular sobre o que é Deus, necessário é aceitá-Lo – como um quem – e lidarmos com Ele.)

“A mudança mais radical da condição humana que podemos imaginar seria uma emigração dos homens da Terra para algum outro planeta.” (Disso também já estou tratando…)

“A inversão hierárquica na era moderna tem em comum com a tradicional hierarquia a premissa de que a mesma preocupação humana central deve prevalecer em todas as atividades dos homens, posto que, sem um único princípio global, nenhuma ordem pode ser estabelecida. Tal premissa não é necessária nem axiomática; e o uso que dou à expressão vita activa pressupõe que a preocupação subjacente a todas as atividades não é a mesma preocupação central da vita contemplativa, como não lhe é superior nem inferior.” (Concordo. Mas devo dizer também que o único princípio global que nos une é aquele que chega por revelação – daí não ser axiomático – a saber, nossa filiação divina e conseqüente fraternidade humana, já que a fraternidade, sem paternidade, é impensável. Tampouco há paternidade impessoal e paz duradoura sem fraternidade. Logo…)

“A queda do Império Romano demonstrou claramente que nenhuma obra de mãos mortais pode ser imortal, e foi acompanhada pela promoção do evangelho cristão, que pregava uma vida individual eterna, à posição de religião exclusiva da humanidade ocidental. Juntas, ambas tornavam fútil e desnecessária qualquer busca de imortalidade terrena; e conseguiram tão bem transformar a vita activa e o bios politikos em servos da contemplação que nem mesmo a ascendência do secular na era moderna e a concomitante inversão da hierarquia tradicional entre ação e contemplação foram suficientes para fazer sair do oblívio a procura da imortalidade que, originalmente, fora a fonte e o centro da vita activa.” (Bem, a própria Hanna Arendt admite: Jesus não negava a ação e foi Paulo quem colocou a salvação como centro da doutrina. Aliás, o cristianismo não é a religião que Jesus, enquanto homem, seguia e ensinava. É o que dela restou. Quanto à dicotomia imortalidade/eternidade, Ernest Becker discorreu muito bem a respeito. Escrevi um artigo sobre o tema.)

Spam poison

Censura no Acre

“O governo petista do Acre, de Jorge Viana, que tenta controlar a imprensa local com mão de ferro, proibiu a TV Aldeia, oficial, de exibir o programa ‘Roda Viva’ que entrevistou Roberto Jefferson (PTB-RJ), segunda à noite.”
(Do jornalista Cláudio Humberto.)

Isto me lembra o que escrevi semanas atrás: o totalitarismo começa pelas bordas do país. E agora acrescento: e germina dentro da alma dos bandeiras vermelhas…

Medo pânico

“Tenho medo pânico do José Dirceu. Ele é um homem sem coração.”
(Roberto Jefferson, no Roda Viva.)

Terri Schiavo

“Me dêem licença para um comentário rápido. Saiu o resultado da autópsia do corpo de Terri Schiavo. A canalha respirou aliviada. ‘O cérebro dela estava imprestável.’ Logo, o marido não a matou. Em primeiro lugar, matou, sim. E com a ajuda da Justiça americana. A causa mortis foi desidratação. Cortaram-lhe até a água. Em segundo, parabéns, gente boa! Primeiro matam para depois concluir, sem sombra de dúvidas (para eles), que a morte era a melhor solução. Método Mengele de pôr o empirismo a serviço da convicção científica. Em terceiro lugar, os pais queriam cuidar de seu vegetal. Não vejo por que matar de sede uma erva daninha num vaso desde que haja alguém disposto a regá-la. Por último, observo que há mais gente que protesta contra a morte de bebês focas e baleias ou contra o tratamento dispensado aos touros na novela de Glória Perez do que contra o assassinato de Terri. E ela não era um touro, uma foca ou uma baleia. Nem gritar ou se debater ela podia. A morte tem hoje mais defensores articulados e organizados do que a vida. Algo está fora da ordem em nossa civilização.”
(Reinaldo Azevedo, no Primeira Leitura.)

Prozac e Kierkegaard

Enquanto vou lidando com minha depressão pós-perda-do-HD, eis um artigo dos mais interessantes: The Neurotic Artist: Romanticizing Depression. O autor, um psiquiatra norte-americano, expõe suas especulações que podem ser assim resumidas: e se Kierkegaard e Nietzsche tivessem tomado Prozac? O que teria rolado? Perderiam a criatividade, a clareza moral, a inspiração? A depressão é unha e carne com a personalidade criadora? É um aspecto indissociável do temperamento artístico? Por que não se critica também o tratamento de tuberculose, sífilis ou epilepsia enquanto inibidor de uma suposta criatividade associada a todas essas doenças? Confira.

Fodeu!

Acabo de falar com os técnicos: nem meus arquivos de becape foram recuperados!! Embora eu tenha salvo em CD parte dos três livros que vinha escrevendo, perdi ao menos, somando todos, umas noventa páginas que escrevi recentemente, isso fora outros quinze contos – escritos em 98 e 99 para revistas da Editora Price – que demorei a encontrar e cujos disquetes não mais existem. O mais absurdo é que o computador deu pau no dia em que novamente faria um becape em CD. Ai, acho que vou pro quarto brincar de roleta russa…

Meu notebook

Outro dia, li uma entrevista da Lygia Fagundes Telles, na qual ela confessava ter abandonado o computador, uma vez que este “comera o conto” que estava escrevendo. Ri comigo mesmo, “ah, essa geração dos anos 50…”. Para castigar minha empáfia, eu – que feito os construtores da Torre de Babel andei me vangloriando do meu conhecimento técnico – acabei por perder, esta semana, todo o disco rígido onde estavam diversos contos e três livros em andamento. Claro que, com a ajuda de e$peciali$ta$, irei recuperar ao menos meus arquivos de becape. Assim, engolindo em seco e assumindo uma certa humildade, resolvi deixar de lado meu Desktop e passarei a escrever o tal romance em meu novo Notebook. Veja a foto:
Meu notebook
Há algo de romântico em escrever assim. (Aliás, quase todo meu primeiro livro foi escrito num caderno espiral.) As mil e uma garatujas e rabiscos dão uma certa nostalgia e a sensação de que o caderno, digo, o netebook irá parar ao menos no museu dos meus futuros descendentes. “Olha só, coitado do biso, pensava que era escritor…”

Sinhozinho Lula

Em vista das diatribes do Deputado Roberto Jefferson, recheadas dum coquetel de grandes omissões e terríveis verdades, decidi parafrasear uma crônica que escrevi meses atrás que descreve a mesmíssima situação com pequena variação de personagens. Para lê-la, clique aqui.

Marilene Felinto 2

A velhinha de Taubaté existe, mas ainda não é velhinha e tampouco se mudou pra Taubaté: chama-se Marilene Felinto. A figura é tão obtusa que deve ser a única a realmente acreditar na suposta grandeza do governo Lula e do PT. Os demais fãs da estrela vermelha não crêem, apenas mentem para si mesmos, para os outros ou ambos. Aliás, conheci a Marilene Felinto quando ela acreditou que faria – segundo ouvimos lá na Casa do Sol – a “entrevista do século” com a Hilda Hilst. A Hilda, porém, como conhecia a fama da figura, encheu a sala de gente – eu inclusive – e deixou sua nobreza natural ali contrastando com a alma plebéia dessa futura velhinha de Taubaté. Não rolou entrevista do século coisíssima nenhuma. Como poderia? A Hilda não é pra qualquer bico…

Page 207 of 271

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén