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Friday, January 13, 2006

Pão em coreano

yuri vieira, 10:31 pm
Filed under: Religião,exteriores,interiores,Índios

Assisti ao filme coreano citado pelo Pedro NovaesCasa Vazia, de Kim-ki Duk – ainda em São Paulo. Também gostei apesar da forçação de barra do final. (Nossa, sensação mais esquisita, acho que nunca havia escrito forçação na minha vida, imagine, uma palavra com dois c-cedilhas!) Na mesma semana em que o assisti, fui a uma festa com o Sunami Chun, diretor-presidente da Monkey Lan House. Lá, o Chun me apresentou “Marcelo”, assim entre aspas porque, na verdade, “Marcelo” era da Coréia do Sul e, depois de quase dois anos no Brasil, decidiu adotar um nome que, além de ser “sexy para as mulheres”, não fosse impronunciável por seus amigos brasileiros. Misturando português com um tanto de inglês (de Tarzã), conversamos longo tempo sobre seu país, seu cinema atual, sua história, a língua, a influência chinesa, japonesa, portuguesa e assim por diante. Porém, como neste exato momento estou com meu módulo baiano ativado, e por isso estou com uma preguiça de rachar o chão, me limitarei a descrever apenas alguns pontos desse papo. (Atenção, baianos, não estou sendo preconceituoso: realmente herdei alguns legítimos genes baianos dos meus avós paternos e, tanto como o Caymmi, sei do que falo.)

Seul é uma cidade praticamente do tamanho de São Paulo, com cerca de 10 milhões de habitantes e uma área metropolitana com 20 milhões, mas com uma grande diferença: lá você não vê miséria, pobreza, favelas. Trata-se duma enorme cidade de classe média, em toda a sua gama de sutis diferenças. Cheguei a imaginar um experimento científico para uma dessas pessoas que acreditam ser a violência um fruto exclusivo da pobreza: passar alguns meses atravessando a cidade, de ponta a ponta, a pé. Caso o hipotético cientista encontre playbadboys semelhantes aos que encontrei na Vila Madalena, o resultado haverá de ser dos mais interessantes…

Ao pensar nessa travessia, imaginei o que esse peregrino poderia comer. “Pão, claro”, concluí, “ninguém pode negar pão a um peregrino”. Então indaguei ao Marcelo:

“Como se diz pão em coreano?”

“Pão.”

“Sim, pão, como se diz?”

“Pão.”

“Pois é, pão, como digo pão em coreano?”

“Já disse: pão.”

“Pão?! A mesma palavra?”

“Sim, foram os portugueses que, no século XVI, ensinaram os coreanos a fazer pão.”

E ele disse que há um outro pão, chamado “castero”, também herdado dos navegantes lusos: “Os coreanos provaram um pão de sabor e formato diferente, mais caprichado, e então perguntaram aos portugueses: ‘e este, como se chama?’, e apontaram para a iguaria. Os portugueses, acreditando que gostariam de saber que forma o pão imitava responderam: ‘Castelo’. Incapazes de pronunciar o erre, repetiram: ‘Castero’. E assim se chama o tal pão até hoje, inclusive no Japão.

Marcelo contou ainda sobre o primeiro contato dos coreanos com o cigarro, também levado pelos portugueses. No começo, achavam que era um remédio e os pais, quando uma criança tinha dor de dente, dor de cabeça ou algo assim, deixavam-na dar uma tragadinha.

“Você, que não é adicto, já deve ter notado que, quando um não-fumante dá uma tragada num cigarro, sente então uma tontura, uma zonzeira agradável. Para os coreanos, o cigarro era uma espécie de anestésico. Hoje, com exceção das mulheres, todos os coreanos fumam. Cigarro, lá, é considerado coisa de homem. (Não pensei em dizer isto naquele momento, mas será que, na Coréia, apenas os homens precisam se anestesiar?)

O cigarro também lhe trouxera seu primeiro choque cultural logo que chegou ao Brasil. Foi comprar uma maço e, já no quarto do hotel, ao abri-lo deu com a foto horrenda dum feto destroçado pela mãe fumante: soltou um grito contido e deixou a caixa ir ao chão. “Gente mais estranha”, pensou.

Depois, enquanto comentávamos as diferenças étnicas entre os povos da Ásia, relatei a surpresa que o Ricardo Calaça, um amigo antropólogo, teve diante da reação dos xavantes à presença de japoneses em sua reserva: “Irmãos!”, disseram os índios cheios de sorrisos. Os brasileiros ali presentes, em sua maioria brancos, morenos ou negros, acostumados a serem tratados com desconfiança e certo desdém, ficaram, digamos, magoados com aquele critério racial para categorizar fraternidades. Marcelo, pois, sorriu e me contou sobre uma pesquisa levada a cabo por antropólogos coreanos – sobre a qual o Chun me falara por alto – que provava haver conexão genética entre os coreanos e algumas etnias indígenas do Brasil.

“Todo coreano”, dizia ele, “nasce com uma mancha ligeiramente esverdeada na parte inferior das costas. Os chineses não têm isso, nem os japoneses. Mas esses antropólogos descobriram índios brasileiros que nascem com o mesmo fenótipo, com a mesma mancha…”

A seguir – fazendo referência à minha crônica Ideogramização Global – perguntei ao Marcelo se os coreanos, tanto como os japoneses, também utilizam o zhongwen (kanji, no Japão), o sistema de escrita por ideogramas. “Sim”, disse ele, e confirmou o que eu e o Washington Novaes, pai do Pedro, havíamos conversado noutra festa: a escrita em ideogramas está fadada a se alastrar por todo o planeta, uma vez que, quando um texto é escrito em ideogramas, e apesar de ter sido gerado mentalmente em determinada língua, é facilmente lido por uma pessoa que não saiba bulufas daquele idioma. Basta saber ler ideogramas e você compreenderá qualquer texto deste planeta em sua própria língua, sem qualquer necessidade de tradução. (Na verdade, ler ou escrever em ideogramas independe de qualquer linguagem fonética, mas isto quando se está só. Quando você precisa dizer a alguém o que está escrito, ou o que deve ser escrito, em ideogramas, uma língua entrará na jogada. Ainda não praticamos a telepatia, a pura transmissão de idéias. precisamos dos sons, dos fonemas.)

“Essa almofada nas suas costas, Yuri, tem um ideograma. Deixa eu mostrar pra você o que significa.” E, surpreso com a sincronicidade – estávamos em Perdizes, bairro de São Paulo, no apartamento duma amiga do Chun -, lhe passei uma almofada amarela com um ideograma preto. Obviamente, fiz uma daquelas brincadeiras mentais que costumo fazer comigo mesmo e, por supuesto, com Deus: “eis o meu destino”.

“Veja só: aqui você tem dois sinais em baixo e um maior em cima. Este aqui à esquerda, formando este arco, é como um braço que, com o punho fechado, descansa sobre a cintura, sendo este risco oposto ao braço a linha do tronco dum homem. É a posição de descanso do guerreiro e, por isso, significa força.”

“Hum, saquei.”

“Este outro sinal, à direita, é formado por um par de dois pequenos símbolos: este de cima é um martelo e, abaixo dele, você vê uma bigorna. Juntos significam trabalho.”

“Puts, cara, que louco, agora eu vejo.”

“O símbolo da força em conjunto com o símbolo do trabalho simbolizam o poder. Já este outro maior, sobre ambos, necessitaria duma explicação mais longa. Por isso vou direto ao ponto: significa alcançar, atingir. Enfim, o ideograma completo significa ‘o poder de alcançar’ ou, numa só palavra, ‘sucesso’. Você estava sentado sobre o seu sucesso…”

“Posso levar isso a sério no âmbito das minhas atividades literárias?”, perguntei.

“Se você tiver talento, que é uma expressão da força, basta trabalhar… Se não tiver, não fique impressionado, este é o ideograma mais difundido nas lojas de decoração.” E rimos. Mas Deus sabe que eu não sabia disso…

Finalmente fiquei interessado em saber por que ele havia escolhido o Brasil para morar. Não podia ser simplesmente por achar que o mercado para Massively Multiplayer Online Role Playing Game (MMORPG) – é o que a empresa dele produz – que o mercado brasileiro era o ideal para ele.

“Eu sou católico”, disse ele, “queria saber como era viver num grande país católico”.

Fiquei de cara: “Sua família é toda católica?!”

“Não, apenas eu. Metade da população coreana é cristã, mas não exatamente católica. São protestantes. Os demais são budistas.”

“Mas por que logo o catolicismo?”

“Não sei dizer. Talvez porque eu, quando mais jovem, quizesse ser diferente de todo mundo que eu conhecia. Eu era rebelde como todo adolescente. Mais tarde cheguei à conclusão que este caminho solitário me levaria a novas revelações, a revelações que a maioria talvez ainda não tivesse acesso.”

“A revelações ou… à Revelação?”

“Para mim tanto faz. Dei a volta ao mundo para encontrar algo que me trouxesse uma certeza para o que acredito.”

“Sei.”

“Por que essa cara? Por acaso você teria algo a me revelar?”

E eu: “você já ouviu falar do Livro de Urântia?”

:wink:

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5 Comments

  1. Anonymous escreveu,

    Imagine se você não estivesse com o módulo baiano ativado…

    Comentário de 14-1-2006 @ 9:33 am

  2. Anonymous escreveu,

    Pra vc ver como são as coisas: se preguiçosos os baianos fazem o que fazem, imagine se não o fossem…
    :)

    Comentário de 14-1-2006 @ 11:20 am

  3. Anonymous escreveu,

    Que cara ladino!

    Comentário de 14-1-2006 @ 11:59 am

  4. Anonymous escreveu,

    [...] Já escrevi algumas vezes sobre o futuro dos ideogramas chineses, que certamente conquistarão todo o mundo. (Veja este artigo e estes posts:Pão em coreano e As línguas do futuro.) O que eu não sabia é que Schopenhauer já previra o mesmo há mais de um século: Nós desprezamos os ideogramas chineses. No entanto, como a tarefa de toda escrita é evocar conceitos mediante sinais visíveis na mente alheia, apresentar à vista, em primeiro lugar, apenas um sinal equivalente ao sinal audível e fazer com que ele se transforme no único portador do próprio conceito representa, evidentemente, um grande desvio: com isso, nossa escrita por letras é apenas um sinal do sinal. Poderíamos então nos perguntar qual vantagem teria o sinal audível em relação àquele visível, a ponto de nos fazer deixar o caminho direto da vista à mente para tomar um desvio tão grande, como o de fazer o sinal visível falar à mente alheia apenas por meio do sinal audível; enquanto seria obviamente mais simples, à maneira dos chineses, fazer do sinal visível o portador direto do conceito, e não o mero sinal do som; tanto mais que o sentido da vista é sensível a modificações ainda mais numerosas e delicadas do que o da audição e, além disso, permite que as impressões sejam dispostas uma ao lado da outra, o que as afeições da audição, por sua vez, não são capazes de fazer, pois são dadas exclusivamente no tempo. Os motivos aqui indagados poderiam ser os seguintes: 1) por natureza, recorremos em primeiro lugar ao sinal audível para exprimir, antes de tudo, as nossas emoções, mas em seguida também os nossos pensamentos: desse modo, chegamos a uma língua para o ouvido antes de pensarmos em inventar uma língua para a vista. Após um certo tempo, porém, é mais rápido reduzir esta última, quando ela se torna necessária, à língua para a audição do que inventar ou, respectivamente, aprender uma língua totalmente nova, ou melhor, de gênero totalmente diferente para a vista, tanto mais que logo se descobre que a infinidade de palavras pode ser reduzida a pouquíssimos sons e, portanto, ser facilmente expressa. 2) A visão é capaz de abranger modificações mais variadas do que a audição, no entanto, nós não somos capazes de reproduzi-las para a visão, como o fazemos para a audição; sem a ajuda de certos instrumentos. Também nunca seríamos capazes de produzir e mudar os sinais visíveis com a mesma velocidade com que, graças à agilidade do órgão da língua, conseguimos fazer com os audíveis, como igualmente comprova a imperfeição da linguagem de sinais utilizada pelos surdos-mudos. Portanto, isso faz com que, por natureza, a audição seja o principal sentido da língua e, conseqüentemente, da razão. Mas então os motivos pelos quais, nesse caso excepcionalmente, o caminho direto não é o melhor são, na verdade, apenas externos e acidentais, que não surgem da essência da tarefa. Por conseguinte, se considerarmos a questão de um ponto de vista abstrato, puramente teórico e a priori, o procedimento dos chineses permaneceria como sendo o que de fato está correto; de modo que se poderia acusá-los somente de um certo pedantismo se tivessem deixado passar certas circunstâncias empíricas que pudessem sugerir outro caminho. Entrementes, a experiência também revelou um mérito extremamente importante da escrita chinesa. Na verdade, não é necessário saber chinês para conseguir exprimir-se nesta língua; cada um a lê na própria língua exatamente do mesmo modo como lê nossos sinais numéricos, que em geral representam para os conceitos numéricos o que os sinais da escrita chinesa representam para todos os conceitos; e os sinais algébricos têm essa mesma função até em relação aos conceitos abstratos de grandeza. Por isso, conforme me asseverou um comerciante inglês de chá que havia estado cinco vezes na China, a escrita chinesa é em todos os mares índicos o meio comum de compreensão entre comerciantes das mais diversas nações, que não usam nenhuma língua comum. Tal comerciante estava aliás firmemente convicto de que um dia essa língua se difundiria em todo o mundo, em virtude dessa sua peculiaridade. Um relato que concorda plenamente com essa opinião encontra-se em J.F.Davis, em sua obra The Chinese, Londres, 1836, cap.15. [...]

    Pingback de 26-6-2006 @ 11:27 pm

  5. Anonymous escreveu,

    [...] Quanto ao formato retangular, nada o impede de lançar um livro circular. O problema verdadeiro é a palavra escrita, que desde sempre é bidimensional. Não há nenhum código capaz de portar tanta informação quanto a palavra. A única exceção, conforme já escrevi aqui e aqui, são os ideogramas chineses. Que também pouco se incomodam se estão sendo inscritos numa superfície quadrada, circular, oval, etc. É provável que essa provável “escrita 3D” idealizada por ele não exista no planeta ainda. Até os cegos lêem em pontos dispostos em duas dimensões. Não dá pra fugir da palavra. A não ser dando um passo para trás e criando uma interface que não apenas apresente ambientes 3d mas que também atenda à fala. Trê dimensões espaciais e uma temporal, já que a palavra se dá no tempo. Um ambiente 4D, o nosso próprio ambiente transposto ao computador. Isto tudo foi comentado por Walter Benjamin: algumas idéias, quando se expressam prematuramente, parecem monstruosidades. E ele cita os dadaístas, que faziam uma confusão de colagens, uma mistura de letras e artes plásticas que não fazia outra coisa senão atordoar as pessoas. E um dia eles perceberam, na pessoa de Charles Chaplin, que o verdadeiro veículo para sua arte era o cinema, que era tudo isso – imagem, colagem, desenho, fotografia, música, palavra – mas disposto de modo harmônico. Chaplin, para os cabeças do movimento, realizou o sonho dadaísta. [...]

    Pingback de 19-3-2007 @ 2:33 pm

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