09/02/2007

A expulsão do Homem Biscoito

yuri vieira, 6:20 pm
Filed under: Cotidiano,Educação,especulativas,Second Life

homem biscoito

Estávamos em meio a um debate a respeito dos fundamentos filosóficos da moral, quando, inevitavelmente, entrou na roda o velho assunto dos políticos pretensamente bonzinhos que só fazem maldades. O moderador, um professor de filosofia duma obscura faculdade de Nova York (obscura ao menos para mim), até que segurava bem as rédeas das opiniões, argumentos e idéias que iam entrando. (Sim, é óbvio que toquei na questão do Foro de São Paulo, do qual os gringos ali presentes nunca ouviram falar. Aliás, eu era o único representante da América do Sul.) Enfim, alguém, mais que depressa, retirou da manga o amarrotado tema do desrespeito às minorias, desrespeito esse bastante criticado por Verum, representante do Diversity 2007 e proprietária do Verum’s Place – uma área dedicada a este gênero de discussões – quando então, assim do nada, surgiu o gigantesco Homem Biscoito de Gengibre. Caminhando feito uma mistura de zumbi bêbado com Carlitos – e provavelmente comandado pelo dono de algum computador de pouca memória e baixa velocidade – o Homem Biscoito foi se aproximando da nossa roda que, um tanto perplexa, assistiu à aparição silenciosa e um tanto tímida do estranho avatar. Aparentemente cego, chutou dois ou três dos presentes e se dirigiu a uma das almofadas vagas, sentando-se com estrépito. O problema é que o sicrano era tão grande que suas pernas ficaram por cima de outros dois membros do nosso grupo, aqueles que o flanqueavam de imediato. O estudante norueguês de asas negras simplesmente saltou uma almofada e voltou a se sentar a uma distância segura. Já a professora de artes canadense se levantou e resmungou algo um tanto irritada, mantendo-se de pé daí em diante. Assim que o Homem Biscoito de Gengibre finalmente emitiu um “Good morning”, desapareceu deixando uma nuvem de estrelinhas.

“Ih, o cara caiu”, disse o moderador.

Verum se manifestou: “Não, eu o expulsei. Ele estava atrapalhando a reunião”.

Surgiram risadas e observações ácidas de todos os lados. O moderador comentou:

“Ora, ora… E não é que nossa anfitriã defensora das minorias acabou de excluir o único Homem Biscoito da nossa reunião?”

E teve início, pois, uma série de argumentos e contra-argumentos a respeito do significado ético do ocorrido. Alguém comparou o caso à hipotética expulsão de um passageiro com obesidade mórbida de um avião. Outro atacou o Homem Biscoito afirmando que era certamente alguém com complexo de inferioridade e sem nenhuma outra razão de ser senão a de aparecer. O Homem Raposa, sentado ao meu lado (eu sou o punk de crista da foto) disse que o Homem Biscoito tinha todo o direito de se manifestar como um Homem Biscoito, pouco importando seu tamanho e seu sabor. Se ele podia comparecer em forma de raposa, por que o outro não poderia em forma de biscoito? (“Yeah, you have a good point!”) E, claro, não se chegou a qualquer conclusão.

Sinceramente, não sei se o Homem Biscoito ficou triste e solitário diante de seu computador ou se sua intenção era ser de fato expulso, ficando então entregue às suas próprias risadas de ator de pegadinha. Sei apenas que certas situações são muito rápidas em sua implícita volúpia de nos fazer pagar a língua. Quase fiquei com pena da Verum. Segundo-vivendo e aprendendo…

____
P.S.: Enquanto alguns bobos ficam a ladrar “joguinho! joguinho!”, a caravana do Second Life vai passando, sem deixar de levar, em seu bojo, pessoas que, de todos os cantos do mundo, querem se conhecer e trocar idéias…

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10 Comments

  1. Acid escreveu:

    Adorei esse post. nem sabia q na Second life tinha quem se reunisse pra papear e filosofar sentados em almofadas… deu até vontade de estar junto.

    Comentário de 9-2-2007 @ 11:17 pm

  2. yuri vieira escreveu:

    Pois é, Acid, o mais interessante do SL é essa possibilidade de comunicação. Não é un jogo, embora haja jogos ali dentro, principalmente de RPG. Na verdade, há nele o retorno do “acaso” ao contato via tecnologia, acaso esse que se mostrou improfícuo em outros sistemas: telégrafo, telefone, celular, messenger, skype, etc. Nesses aí, a gente só atende a quem conhece ou que, no mínimo, nos conhece. No SL não. Há sempre um pretexto para entabular conversa com qualquer um, seja esse pretexto um “pôr do sol”, um prédio engraçado, o fato de se estar perdido numa área nova, etc. Todas as vezes que tentei, pelo ICQ e pelo Skype, conversar com desconhecidos, reinou a desconfiança: “quem é vc? por que me chamou? O que vc quer?” Ora, pensava, esse programa não tem o status “Disponível para conversa”? “É, mas eu não te conheço.” Nem num chat público a coisa é diferente. Todas as vezes que tentei conversar com chineses num chat chinês fui tratado com desconfiança: “From Brazil? What are you doing here?!” Ora, eu estava na minha casa, uê, conectado à internet, isto é, a um click de distância da China. Por que não queriam conversar? Por medo de eu ser um agente do governo chinês? No SL, esse contato com os desconhecidos é não só possível mas estimulado. (Vou escrever mais sobre isso.) Para mim, tecnicamente, tudo se passa como numa projeção astral. (Vc entende bem desse assunto.) A diferença é que no SL nossos sentidos são retringidos, ao invés de ampliados, e tampouco nos encontramos com extraterrestres e desencarnados. Bom, isso até onde eu saiba… 🙂
    Abraço!

    Comentário de 10-2-2007 @ 7:16 am

  3. yuri vieira escreveu:

    A propósito: já participei até mesmo de um Festival de Literatura no SL, no qual conheci o editor da Penguin Books, entre outros.
    {}’s

    Comentário de 10-2-2007 @ 7:21 am

  4. yuri vieira escreveu:

    Ah, lembrei de outro detalhe dessa reunião. Durante a palestra inicial do moderador, um cara se manteve em pé enquanto nós outros estávamos sentados. Alguém perguntou por que ele não se acomodava. Ele respondeu que não sabia o que fazer para se sentar.

    “Poxa, é só apertar o botão direito do mouse e escolher ‘Sentar-se'”.

    “Já me disseram isso, o problema é que meu computador é um Mac, não é um PC.”

    A partir daí, a pergunta recorrente aos retardatários era: “Você usa Mac? Você usa Mac?” Tanto que alguém devolveu: “Por que? Vcs só aceitam macmaníacos aqui na Diversity?”

    E finalmente apareceu um usuário de Mac.

    “Aperta Command e clica na almofada.”

    “Aaaaaaah! Thank you so much, sir.”

    Uma meia hora depois, surgiu um figura que parecia um Homem Biscoito de Gengibre e…

    Comentário de 10-2-2007 @ 7:38 am

  5. Marcela Moreira escreveu:

    Joguinho! Joguinho!

    Comentário de 11-2-2007 @ 1:25 pm

  6. yuri vieira escreveu:

    Bobinha! Bobinha! 😛

    Comentário de 12-2-2007 @ 2:33 am

  7. Rafael Arcanjo » A vida virtual como válvula de escape escreveu:

    […] Este tipo de individuo é conhecido no mundo virtual como Troll w. (…) Existem várias formas de se combater o Troll, depende do lugar onde o mesmo está agindo. Neste artigo na wikipédia sobre os arruaceiros virtuais você encontra algumas. Como o foco aqui são blogs, abordarei este nicho. Porém, apenas abrindo uma exceção para um caso de expulsão no Second Life.

    Dentre os blogs, peguei a opinião de 2 dos mais influentes blogueiros brazucas. Edney Souza, famoso InterNey e Carlos Cardoso, do Contraditorium. Vejam as medidas que os dois blogueiros tomam para combater esta praga virtual. […]

    Pingback de 17-2-2007 @ 8:31 am

  8. ant zabelin escreveu:

    Hilária sua narração da estória, dei ótimas risadas. Valeu!
    Sou novo no SL, sou um “filho-do-fantástico” mas ja notei que tem muito pouco de bricadeira lá, o “trem” pode ser bem sério.
    Como jogamos o jogo é como vivemos a vida.
    A partir de agora, vou pensar duas vezes antes de virar as costas para o homem-biscoito-de-gemgibre, caso tenha o privilégio de vê-lo
    até,

    Comentário de 20-2-2007 @ 12:43 pm

  9. O Garganta de Fogo » O botão predileto dos socialistas escreveu:

    […] Claro que, após o debate, minha pulsão diplomática de ascendente em libra tentou entabular uma conversa mais informal com a palestrante. (Ela era bonitinha.) Cliquei, pois, sobre o avatar dela e selecionei IM, isto é, o Instant Messenger, através do qual é possível manter com alguém uma conversa privada ainda que diante de outras pessoas. E ela: “Excuse me, Chandra, vou colocar vc na minha lista de ‘Mudos’”, e, pressionando o botão mute, me tornou incomunicável. Bom, ao menos para com ela. Pensei que o caso fosse um acontecimento extraordinário. Até ri. Contudo, dias depois, após um debate no Verum’s Place – no mesmo local em que ocorreu o caso do Homem Biscoito de Gengibre – resolvi conversar com uma figura de Hamburgo, que fazia parte do grupo Socialist Party. Queria apenas saber por que ela acreditava no socialismo. (Para quem não sabe, o socialismo é uma crença.) Ela disse que era o único sistema que poderia trazer o bem ao planeta. Perguntei então o que ela acharia se o Partido Nazista fosse ressuscitado na Alemanha. Respondeu que seria o horror, uma vez que foram responsáveis, afora as mortes em batalhas, pelo extermínio de seis milhões de judeus. […]

    Pingback de 3-3-2007 @ 8:09 am

  10. Techbits escreveu:

    Second Life: prefiro a primeira vida

    Ontem finalmente entrei na Matrix. Fiquei sabendo que ia ter uma festa dentro do jogo e resolvi dar as caras pra conhecer o ambiente 3D. Interessante e ao mesmo tempo inútil. Não tinha muito o que fazer, só conversar com as pessoas, em sua maioria i…

    Trackback de 22-3-2007 @ 5:31 pm

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