Minha boca tem agora um gosto metálico, por isso temo que ela rejeite meu beijo. Estamos deitados no tapete, ouvindo a música que ela não quer cantar. A nudez é um detalhe que não chega a cobrir a formalidade dos nossos gestos. Sexo assim é melhor não fazer, eu sei. Mas achei que se a penetrasse romperia a barreira de silêncio que ela ergueu para se proteger. Estúpido engano. Tudo que consegui foi afastá-la ainda mais, para dentro de um limite menor e mais duro. Quando a música termina, eu me levanto para desligar o aparelho. Só então percebo a tristeza machucada dos seus olhos. É uma menina, apesar dos braços grossos. Eu peço novamente que cante. Talvez ela possa me perdoar, agora que acabo de descobrir sua infância insuspeitada. Ela abre a boca. Penso que finalmente ouvirei sua voz, segundos antes de levar a mordida. Meu sangue escorre pelas pernas. Vejo sua vingança consumada no tapete onde a possuí. Entrego-me aos seus braços, sem a menor esperança. A visão me falta, percebo que vou desmaiar, mas agora que sou um menino machucado, agora que ela também conhece minha infância, seu perdão me cobre como um sudário. Na escuridão do nosso encontro, finalmente ouço sua voz: ela canta para se despedir.
O New York Times comenta a fronteira cada vez mais tênue entre os blogs e a mainstream media (para acessar a matéria diretamente no site do NYT é preciso ser cadastrado):
That Which We Call a Blog…
By DAN MITCHELL
Published: February 18, 2006
THE rise of blogging is often cast in black-and-white terms: blogs versus the “MSM” (the derisive term some bloggers apply to the mainstream media).
But things may shake out more along the lines of journalism versus armchair yammering. Both can be, and are, presented on Web sites that call themselves blogs. Both have been presented in the mainstream media all along.
…mas ele escapa.
Enquanto gerente deste site, além de inglês e espanhol, já fui obrigado a ler fóruns técnicos em francês, italiano, catalão e, pasme, até em alemão. (Graças ao meu velho WDic for Windows.) Mas esse plugin que estou instalando agora, o Coolplayer, puts, tem instruções escritas numa língua doutro planeta. Mesmo assim, não é que o tradutor da Google quebra um galho? Impressionante.
Imagine a cena: um sedutor Mestre de Cerimônia de ar andrógino e cabotino sobe no palco duma região distante e – protegido por anjos do inferno que se põem à sua volta – berra à assistência formada por milhares e milhares de pessoas, algumas pra lá de Bagdá, outras pra lá de Psychedelic Land, algumas nuas de corpo, outras de cérebro, berra a toda essa gente que ele, o beiçudo e sexy Mestre de Cerimônicas, morre de simpatias pelo demônio. Qual o resultado? Ora, um sacrifício humano, é óbvio, providenciado por um dos anjos do inferno que ocultava uma oportuna adaga em seu casaco de couro. Toda a cena é real. E o pior: foi devidamente registrada no documentário Gimme Shelter, de 1970.
Tenho até hoje, em meu HD, diversos arquivos com os livros de poesia, crônicas e teatro da Hilda Hilst, afinal, fiz as vezes de secretário dela por dois anos lá na Casa do Sol. Se nunca falo sobre eles é porque há os tais direitos autorais, cujo herdeiro, Daniel Mora Fuentes, é filho dum amigo. (Em geral, eu respeito direitos autorais.) Aliás, tenho alguns livros do Bruno Tolentino também, cujos originais eu mesmo enviei ao editor dele, via email, lá da Casa do Sol. Infelizmente o Bruno é o cara mais escorregadio que eu já conheci – nunca fica muito tempo no mesmo lugar – e, por isso, não voltei a encontrá-lo para solicitar autorização de divulgar o que quer que seja. (Na verdade, eu queria mesmo é participar, com ele, de mais um preparo de feijoada, daqueles em que, enquanto cortávamos a couve, falávamos de C.S.Lewis e T.S.Eliot. Mas isso é outra história…)
Bom, encontrei a crônica abaixo – Bizarra, não?, da Hilda – num desses arquivos. Fala da relação da escritora com seus leitores e amigos. Salvo engano, faz parte do segundo volume da coletânea de crônicas Cascos e Carícias, originalmente publicadas no Correio Popular de Campinas-SP.
A sociedade italiana talvez seja uma das mais machistas do Ocidente, apesar de todo o culto à figura da mamma. Isso reflete em suas leis. Existe um item legal que impede que filhas de italianos nascidas em outros países repassem a cidadania italiana para seus descendentes — é um pouco mais complicado que isto, mas este é o resumo. Mas agora leio na manchete do site do jornal La Repubblica um exemplo deste machismo que é de amargar: “Se a vítima teve experiência sexual, a violência é menos grave”. Resumindo, o texto diz que a Justiça italiana decidiu que é menos grave a violência sexual se a vítima menor de idade já tiver tido relação sexual anteriormente. Mesmo se ela for uma adolescente de 14 anos. O caso é meio aterrorizador. A menina foi violentada pelo padrasto. Agora vão reduzir a pena do sujeito. Isto é o que se pode chamar de uma decisão escrota.
Do historiador (marxista) João Fragoso, na Folha de S. Paulo (via Gustibus):
Mais radicais que o [Fernando] Novais são seus seguidores atuais, que eu chamo de xiitas. Que querem sublinhar alguma coisa que nos anos 60 já havia sido descartada, as teorias da dependência, no sentido amplo. Aqui e talvez a Venezuela são os únicos lugares no mundo em que ainda se leva a sério isso. Você tem aí um ranço que é da Guerra Fria.
Isso é uma coisa. A outra é que ainda se acredita que as pessoas são criaturas de um modo de produção — ou das estruturas. Você tem o capitalismo, e as pessoas se comportam conforme essa estrutura. Ele é gestado, conseqüentemente as pessoas têm que ter um comportamento pertinente àquilo que o capitalismo algum dia será. As pessoas são tratadas como marionetes.
O Cássio, grande amigo antropólogo, já me havia recomendado, mas, apesar da convivência constante e dos muitos amigos índios, eu nunca tinha tido a oportunidade de fazer uma visita à sede da Funai em Brasília.
No começo desta semana, em função de negociações para um projeto de documenário que, em breve, espero poder divulgar aqui, finalmente pude conhecer o mundo surreal da burocracia indigenista brasileira.
Vale à pena reproduzir aqui artigo de hoje, na Folha, do Cláudio Weber Abramo, diretor-executivo da Transparência Brasil. Aliás, o Cláudio tem também um blog que é de acompanhamento obrigatório.
Acham que somos idiotas?
CLAUDIO WEBER ABRAMO
A entrevista que o ex-deputado Roberto Jefferson concedeu à revista “Carta Capital” há alguns dias traz um trecho que merece atenção mais detida. A horas tantas, disse o sr. Roberto Jefferson o seguinte: “Eu quero deixar claro que o recurso [o caixa clandestino de Furnas] não sai do caixa da empresa. Isso é da relação com as empresas que fornecem serviços à empresa. É assim em todas as estatais. Por isso os partidos se digladiam pelas nomeações. Sempre foi assim”.
