O Garganta de Fogo

blog do escritor yuri vieira e convidados...

Atmosfera cultural

“E há apenas um meio pelo qual mudar a vida. Não é que nossa vida comum seja galvanizada por um acontecimento. É que nossa vida comum, por meio da consciência espiritual, deixa de ser vivida de um modo comum. (…) Na realidade, nada nos proíbe de alcançar a serenidade e a plenitude no mundo tal como ele é, a não ser a atmosfera cultural.”

“O materialismo se diz científico, tal como o lobo se dizia avó.”

“Eu acredito que a pior poluição é a dos espíritos que deixam de amar o progresso.”

“Deus acha bem que a Natureza seja moldada para fazer homens.”
(Louis Pauwels)

Soljenitsyn:

“‘Mas, diga-me, acredita que uma ordem social ideal seja possível?’
“Vasonofiev olhou Isaac com uma expressão doce. Sim, aquele olhar fixo, inflexível, desligado, também podia encher-se de doçura, tal como sua voz. Falando em voz baixa, com poses, disse: ‘Há algo de mais importante e de mais fundamental do que a ordem social: trata-se da ordem interior. Não existe coisa alguma, mas nada, nada mesmo, que seja mais precioso para o homem do que sua ordem interior. Nem mesmo o bem das gerações futuras.'”

Louis Pauwels e a educação

“Há professores que transmitem por atacado suas idéias, que se surpreendem pelo fato de a juventude ter pouco apetite intelectual. Eu surpreendo-me menos. Se tivesse de fazer meus estudos sob o peso da ideologia dominante, confesso que preferiria a moto ou o fliperama. Não teria grande pressa em apreender, para aprender que não existo.”

Lin Yutang

Estive relendo trechos de um livro imperdível: “A importância de viver”, de Lin Yutang. Embora eu ainda o ache excelente, já não engulo todas as idéias do escritor chinês, principalmente as referentes à religião. (Isso graças à suposta biografia de Lao Tsé, citada anteriormente, cujas idéias me parecem mais verdadeiras.) No entanto, os capítulos que tratam “do senso de humor”, “da dignidade humana”, “da doutrina do indivíduo”, “do sex appeal”, de “envelhecer graciosamente”, ” da arte de estar deitado”, “da arte de sentar nas cadeiras”, “da arte de conversar”, “do chá e da amizade”, “do fumo e do incenso”, “da bebida e dos jogos-de-vinho”, “da curiosidade gratuita”, “do espírito humano”, ” do fato de termos um estômago”, “dos trinta e três momentos felizes de Chin”, “da grandeza”, “das flores e seu arranjo”, de “sair e ver coisas”, da “arte de ler”, da “arte de escrever”, da “volta do senso comum”, etc. e tal são impagáveis. E a tradução é de Mário Quintana.

Mozilla

O Mozilla é realmente o melhor navegador. Claro, acrescentando a barra de ferramentas do Google e alguns plugins e skins fica perfeito. Adeus, banners de propaganda, popups e frescuras do IE!

Estado ladrão

Meu pai veio se lamentar comigo: a municipalidade – tentáculo estatal – não lhe deu ganho de causa. Dizem que ele invadiu, com uma pequena laje diante da porta de entrada de sua casa, um espaço público. Mentira, as fotos anexadas ao processo provam o contrário. Nunca aquele local foi mais público e bem tratado do que agora: mil e um transeuntes fugindo da chuva se abrigam ali naquele nicho. E o muro não avançou um centímetro sequer. Mas é claro que viver numa cidade sob o julgo do PT é assim mesmo: roubo atrás de roubo. (E o IPTU progressivo vem aí!) O pior é que mais tarde, bem mais tarde, essa corja de politiqueiros e funcionários – cheia de má vontade – ainda vai nos dar o maior dos trabalhos: teremos de contribuir para resgatá-la inteirinha do inferno. (Claro, se a ira não me dominar a ponto de acompanhá-la ao suplício.) Essa gente, quando desencarna, pesa feito chumbo…

O primeiro passo para a meditação

Meu período brasiliense (1992-1997) foi o que mais me aproximou da realidade. Provavelmente porque eu nunca me inteirava dos mesquinhos acontecimentos mundiais e tampouco, é claro, das nossas inúmeras besteiras nacionais. Dos fenômenos, apenas o imediato me importava. Do universal, me bastavam as idéias, os conceitos, os princípios, as essências… Daí tanta gente me achar um nefelibata, principalmente os politicamente engajados, que me viam como um alienado. E isso me incomodava? Nadica de nada. Certa feita, cheguei a passar todo um dia achando as pessoas inexplicavelmente sombrias, depressivas, para só entender — por intermédio de um amigo com quem dividia apartamento no Centro Olímpico da UnB — para só entender o que se passava tarde da noite: Ayrton Senna havia morrido. Da mesma forma, em 1994, passei horas e horas folheando livros e mais livros numa biblioteca estranhamente deserta, toda minha. Um dia de leitura paradisíaco. Na lanchonete do subsolo compreendi o mistério: o Brasil acabara de se classificar para a final da Copa do Mundo! Mas como, se eu nem sabia que a seleção estava na semifinal? As pessoas e seus interesses… A realidade é mais em cima e mais dentro do próximo. Desligar a televisão é o primeiro passo para a meditação…

Shakespearzinho?!

Quando morei no Equador (1989-1990), dei altas risadas assistindo às versões originais das séries criadas pelo Chespirito. “El Chavo del Ocho” (Chaves) tinha atores com sotaques e interpretações impagáveis. Só de ouvir a voz do Quico já passava mal, assim como o choro da “Chilindrina” (Chiquinha). Claro, os roteiros ingênuos e muito bem bolados ajudavam bastante. Mas só agora, não sem espanto, descubro que Chespirito – apelido de Roberto Bolaños – é a forma castelhanizada do diminutivo de Shakespeare! Taí uma coisa que deixará os intelectualóides com insônia…

Alma e propriedade

Escreveu Henry Miller em Plexus: “(…) Spengler veicula seu desprezo por Tolstói, que ‘elevou a Cristandade primitiva às raias de uma revolução social’. É aqui que ele faz alusão direta a Dostoiévski que ‘nunca pensou acerca de melhoramentos sociais’. (‘De que teria valido à alma de um homem abolir a propriedade?’)”

A alma de uma civilização

Um amigo me escreveu de Florença dizendo que já está cansado de apreciar edifícios velhos e obras de arte. Para ele, o passeio já perdeu a graça, tendo confessado já estar com os sentidos embotados. Após lhe receitar uma rave (tratamento de choque), disse a ele que, se eu fosse embarcar semana que vem pra Europa, iria correndo reler pelo menos a “História da Arte” do Gombrich, o básico dos básicos. Sim, porque sair pelas cidades européias sem saber, por exemplo, a diferença entre o estilo românico e o renascentista fará com que tudo pareça uniforme. Seria semelhante à leitura de Proust por um analfabeto funcional. Ele pode até achar curioso, diferente ou, o mais provável, chato, mas não perceberá o que interessa, as sutilezas. A evolução dos estilos na arte – em particular na arquitetura – é pura expressão da alma de uma civilização. A mera apreciação dos sentidos, sem o apuro do conhecimento, só pode mesmo embotar: “ai, mais um prédio velho!” É, amigo, é duro viajar e, já longe, perceber que se deixou algo importante em casa…
PS.: Principalmente se esse “algo importante” for um cobertor de orelha feminino anti-frio europeu tabajara. Nem tudo é cultura…

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