O Garganta de Fogo

blog do escritor yuri vieira e convidados…

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Em Busca de um Rei

Me conta aqui na Tailandia uma colega guatemalteca que nas eleicoes presidenciais de 2000 em seu pais, houve 90% de votos em branco. Assim, ficamos sabendo de onde Saramago tirou a inspiracao para seu genial “Ensaio sobre a Lucidez”. Na Guatemala, infelizmente, como no Brasil, o voto em branco nao e considerado valido, de modo que ganhou o candidato mais votado, ainda que a maioria dos eleitores nao quisesse a nenhum deles. Segundo ela, o resultado foi um dos governos mais corruptos de que ja se teve noticia na America Central.

No livro de Saramago, a grande maioria da populacao da capital do pais vota em branco nas eleicoes. Pego de surpresa, o governo convoca novas eleicoes e coloca o servico de inteligencia em busca dos cerebros desta conspiracao. Nao ha entretanto comandantes neste movimento espontaneo da populacao que, nas novas eleicoes, volta as urnas e, ainda em maior numero, torna a votar em branco.

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Lei Marcial

A Tailândia é realmente um país engraçado. Difícil para nós ocidentais, com nossa visão cartesiana, onde tudo é preto ou branco, compreendermos o que se passa.

Como se sabe, em 13 de setembro, o país sofreu seu décimo golpe militar exitoso desde 1930 (em 20 tentativas), mas apenas o segundo contra um governo democraticamente eleito. Foi deposto o Primeiro Ministro Takhsin Sinawatra, uma espécie de Silvio Berlusconi do Sudeste asiático, um populista magnata das comunicações, chefe de um governo reconhecidamente ultra-corrupto, eleito no vazio pós-crise econômica de 1997.

Por isso, vive-se aqui há um mês sob Lei Marcial, isto é, todas as garantias constitucionais estão suspensas e a polícia e os militares podem fazer o que bem entenderem. Só que tudo está absolutamente normal. Não se vê polícia nas ruas e o maior jornal de língua inglesa daqui, o “The Nation”, amanheceu hoje descendo a lenha em vários equívocos dos militares, inclusive no fato da Lei Marcial ainda não ter sido suspensa. Tudo como se nada tivesse acontecido. Pelo que se depreende, na verdade, todo o mundo já estava de saco cheio mesmo do cara e apoiou o golpe.

Dê uma olhada aqui, para ver as fotos que estou postando desta viagem no Multiply. Espero manter o álbum atualizado.

Longe e Perto

51 horas depois, cheguei a Chiang Mai, cidade no norte da Tailândia (os colegas farão a fineza de acentuar meus textos depois). Saí de casa na segunda-feira última às 8:00h. Aportei aqui às 20:40h de ontem, quarta-feira, 10:40h aí no Brasil.

A viagem foi muito mais cansativa e longa que as muitas horas de van e monomotor no Xingu, mas, por incrível que pareça, viajei 30 mil km, estou do outro lado do globo, mas muito mais perto de casa que no interior do Mato Grosso.

Ei, Rosa! Estou até perto de você, não? Você até passou por aqui em seu caminho também de excessivas horas quando partiu para a Terra Média, não foi? Pena que não vai ser dessa vez que vou aí conhecer Frodo…

Estou mais perto de casa aqui que no interior do Mato Grosso. Estou até vendo se habilito meu celular. Em 32 dias no Xingu, me senti realmente distante. Aqui, nem tanto.

Em resumo, a Tailândia é o máximo. Tipo Ouro Preto, só que, ao invés de igrejas, santos tristes e mães dolorosas, templos, stupas e budas plácidos e sorridentes em cada esquina.

Mais, em breve.

Quase demitido

Acho que o eDitador terá de demitir o Paulo Paiva do Garganta. O cara foi a Cuba com nossa amiga Andréa Leão, tirou várias fotos (divulgou pouquíssimas), passou por vários apertos e até agora não nos contou nada a respeito. Tanto que, em Fevereiro, eu mesmo tive de narrar um dos inúmeros causos. Em geral, apenas os amantes da ideologia comunista vão a Cuba e, exatamente por acreditarem no que acreditam, voltam contando maravilhas do regime. Tudo mentira ou ilusão, por supuesto. A Andréa, por exemplo, adorou a paisagem, a comida, a música, a bebida, mas, caso fosse uma cubana exilada em Miami, teria sido a primeira a ir comemorar nas ruas a doença do Fidel Castro. Odiou a ditadura e as barbaridades que esta faz aos cubanos.

E então, Paulo?

Os dois Estados Unidos de Truman Capote

Diferentemente de até bem pouco tempo, eu hoje tenho grande vontade de voltar aos Estados Unidos. Este desejo acaba de receber uma boa dose de reforço com a conclusão da leitura de “In Cold Blood”, a célebre “novela de não-ficção” do mestre Truman Capote.

Evito ao máximo ler traduções de livros publicados em línguas que domino. Como já exerci o ofício de tradutor, atento para e me irrito em excesso com os erros ou escolhas equivocadas de meus colegas. Além do fato óbvio de que o estilo de um mestre como Capote só pode ser integralmente apreciado no original.

Desta forma, comprei na Livraria Cultura uma edição paperback deste best-seller logo depois de assitir ao espectacular Capote, filme que rendeu o merecido Oscar de melhor ator a Philip Seymour Hoffman, e que conta a história do envolvimento do escritor com os fatos reais que inauguraram um novo gênero literário – o que se passou a designar como “non-fiction novel” – e geraram este livro que permanece como uma das grandes obras da literatura americana: o assassinato de uma próspera família numa comunidade rural do interior do estado do Kansas.

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From New York to Paulo Francis

Já faz mais de um mês que o cineasta João Rocha – sobrinho do Glauber Rocha – e o pesquisador Lécio Augusto Ramos me enviaram cópias duma carta que xeroquei ainda na UnB, mas que perdi anos atrás: From New York to Paulo Francis, uma carta onde Glauber demonstra sua verve inconfundível e tece comentários impagáveis sobre a capital do mundo, seus artistas, personalidades e a relativa bobagem que é, para o artista criador, a necessidade de viajar geograficamente. Eu pretendia transcrevê-la por inteiro, mas como ainda não me organizei o suficiente para tanto, seguem as imagens da revista (Status, 1968) em que foi publicada.


Glauber Rocha
Glauber Rocha
Glauber Rocha

(Clique nas imagens da esquerda para a direita.)

Conheça o site Tempo Glauber, administrado por João Rocha.

Lá vem o astronauta

Este post é apenas para desejar uma feliz aterrissagem ao astronauta brasileiro Marcos Pontes, afinal, todos sabemos que o maior perigo das escaladas está na descida e que, enfim, pousar nas estepes do Cazaquistão não é algo tão suave quanto cair no oceano. Que o diga esse astronauta indiano…

E viva a Capitu!

Todo mundo que já foi forasteiro em algum lugar sabe do melindre – às vezes constante, às vezes raro, mas sempre sentido – nas relações com os locais. O famoso “choque cultural” nunca escolhe suas vítimas e, por mais que nos queiramos “descolados”, sempre experimentamos os seus conhecidos estágios: a surpresa inicial, a negação e, por último, a tentativa de adaptação.

Noutro dia, a mãe do senhorio veio expressar seu descontentamento com o estado do nosso jardim. Falava sério, com um tom de voz acima do normal para uma octogenária e com o habitual olhar sorrateiro.

Comentando o episódio com o Marc, lembrei da minha desconfiança nos olhares de soslaio(“…oblíquos e dissimulados”). Só então descobri que isso não é característica pessoal da desagradável “tia da Thatcher”, mas que é o usual por estas bandas. Que coisa! O feio aqui é encarar!!

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Lugares-Memória IX

Campo Santo de Yungay, Peru
A trágica notícia do deslizamento de terra nas Filipinas, que matou cerca de 1800 pessoas, me fez lembrar de um dos lugares mais estranhos que já conheci.

Em meio à paisagem grandiosa dos Andes peruanos, no sopé do Nevado Huascarán (6.768 m), montanha mais alta do Peru e quinta das Américas, se esconde a simpática e colorida vila de Yungay, uma das principais cidades do Callejón de Huaylas, o vale agrícola cortado pelo Rio Santa, que percorre todo o lado oeste da Cordillera Blanca.

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Lugares-Memória VIII

Zion Bar

Em Lençóis, Bahia, espero que ainda sobreviva este aprazível boteco gerenciado segundo os ditames da filosofia rasta-baiana. Tomara tenha sobrevivido à maravilhosa lentidão de seu atendimento. No Zion, uma cerveja podia demorar horas, mas pouco importava. Eu estava na Chapada Diamantina, e aquele pequeno caramanchão de palha, a vista da cidade histórica, o som de Bob Marley e a conversa lenta de seus donos eram os sinais da entrada em outros parâmetros de relação entre tempo e espaço.

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